Glauber Rocha e a revolução sussuarana

Faz trinta e um anos que Glauber Rocha morreu.

Fazia mais de trinta anos que o único romance que ele escreveu estava esgotado. Trata-se de um livro exigente potente verborrágico alucinatório descontínuo polêmico vociferante ousado erudito&transgressor lisérgico fantasmagórico virulento cangaceiro memorialístico histórico político violento escatológico&ezcatologyko como adjetivam por aí.

Riverão Sussuarana é o nome da viagem autorreferencialmente roseana joyceana euclidiana faulkneriana fordeana&fordeana daquelas que não mais se faz de Glauber Rocha.

Ou Grôbe como quiser.

Riverão Sussuarana foi ressuscitado com a grafya&capa originais num tour de force concluído em 2011 pela Editora da UFSC em função dos trinta. Chamam-lhe por aí também romance neográfico neobarroco&pós-moderno e bem como de de vanguarda surrealista.

Do “riverrun” de Finnegans Wake ao “Liso do Suçuarão” de Grande sertão: veredas. Como se gato gostasse de água há mitos a serem constantemente desmistificados, como o da suçuarana, essa pequena onça-parda que escorregonadou sob as águas de um também pequeno rio que morde a própria fonte em circularidade que começa e termina no verão e o que vemos à frente é sempre aquilo que está atrás de nós, ao menos enquanto não explicarem a morte da irmã de Glauber e de tantos outros, fatos capazes de arrebentar qualquer estrutura sensorial sobre a qual se monta uma narratyva.

Mas ainda não tratemos dos outros “but de Rose”.

Em Cidadão Kane, nos anos 1940, quando as malas prontas voaram pelo quarto assim como os lençóis livros espelhos quadros e todo o resto menos o globo de vidro que continha o nome do clitóris de Marion Davies que ele carregou e fez neve com olhos marejados e que rolou pelo chão quando ele morreu até quebrar o vidro para a água correr como um ribeirão sem fonte nem endereço, ficou o enigma de um brinquedo de infância enquanto tudo ardia em chamas e soltava pela chaminé uma fumaça negra, mais uma prova de que a escolha não foi feita.

Como Orson Welles, ao retirar do filme quem o assiste com uma placa de não ultrapasse, o sentido virou mito no contexto dos heróis de Riverão Sussuarana.

O principal é Guimarães Rosa, naquele ezpécyme fantasma erotizado de anti-herói, que começa por varrer com Glauber a terra em busca de matéria-prima para a escrita, quando na verdade é Riverão quem se opõe a Karter Bracker, vilão com capital de giro a favor do Uranyum, mas que pelo amor faz a tragédia dele e do jagunço. Assim se justifica a viagem e alguém abre o mapa do sertão e transforma todo o papo de romances teóricos que, segundo Glauber, colocou críticos Marxystaz contra Rosa em uma forma de opor teorya&vyda.

Em 1986, Glauber disse em entrevista: “Guimarães foi meu guia e, ao mesmo, tempo, o mito a ser desmistificado. Eu me coloco como o jagunço que vai escrever um livro e pede licença ao latifundiário, o coronel Guimarães Rosa. O jagunço quer contar algumas histórias que se passam perto daquele sertão, como se fosse um pequeno afluente daquele grande rio que ele descreveu” (ROCHA. In: REZENDE, 1986, p. 148).

Nessa alegoria do oprimido, o anti-herói, tal qual legião, transmuta-se de Rosa em Riverão em Glauber – essa confusão aparece até mesmo na concordância verbal, que oscila entre a 1ª e a 3ª pessoas, por exemplo – um anti-herói onde encarnam muitos contra uma nova configuração de colonizador, não obstante uma montagem das relações do oprimido que só consegue chamar a atenção do dominador quando humaniza a própria causa. Libertação por meio de uma nova dependência, como se disse na Eztetyka da fome.

É claro que, em se tratando do cineasta, o sertão tem seu lado político, manifestante, mais evidente, ainda que muito distante da índole do protagonista Riverão. É o que se vê, por exemplo, no diálogo entre o Comandante e Guimarães Rosa, do qual transcrevo dois excertos abaixo, que dão uma amostra também de outras características do romance de Glauber mencionados aqui.

“– Foram as ventanias – disse o Comandante pra meu Nagra – que provocaram o Estouro da Boiada. Em 1922 houveram Brazys no coração do povo. Eu peguei a Coluna debaixo da Catarata das Sete Quedas do Iguassú: do Sul vinha Prestes com trezentos mil homens e seiscentos milhões de quilometros na Guerra Brazylyka. Com Isidoro, Miguel Juarez e Siqueyra Campos cortamos o Kontynente e combatemos latifundiários e vandâlos. Até Lampião nos enfrentou emprezado pelo Padre Cicero mas ficou com medo do Fogo do Cavaleiro da Esperança – este Cavaleiro de Glorias Pàtrias! Nós afundamos na Bolyvya, derrotados porque de 1924 a 1926 as massas urbanas não responderam ao nosso grito. Eu comandava trinta e cinco regimentos de burros com Metralhadoras e Canhões e marchei sôbre Cuyabá… a Coluna foi coisa maior que a Grande Marcha Chinêza de Mao Tse Tung, mais longa que a Revolução Mexykana de 1913 e a Revolução Sovyetyka… A Coluna começa na Retirada da Laguna e abole a Escravidão, proclama a Repúblika, a Coluna se rebelou em 1922 no Forte Copakabana, por isso a Coluna não podia se afundar na Bolyvya, destroçada, ferida, faminta, o brado revolucionário sem eco!!! – o Comandante vociferava sua frustração pro Major Rosa surpreendido com a sinceridade daquele Heroy”

E

“– Desde a Ynconfydencya, desde o Martyryo ou não foi Tyradentes Kryzto? Heroys Mytos de nossa gente! Gente… a gente… nossa gente… o Getulyo tinha uma concepção do Estado Novo… nacionalizou o subsolo… aqui ficaram nas distancias os latifundios danatários… A fronteira movel se formando… subdesenvolvimento advindo do subdesenvolvimento… uma guerra de 464 anos… com repetições sem gloria como a renuncia de Janyo num 24 de agôsto que não era o mesmo dia do suicidado Getulyo, um 24 de Agôsto urdido por Forças Ocultas, renuncia com uma carta pifia e bebia muito recitando Shakespeare nos Corredores do Palacio de Oscar Niemayer… e foi a Guerra Civil, foi o General Machado Lopes de Porto Alegre e o Governador Leonel Brizolla, cunhado de Jango, e foi uma parte progressista das populações urbanas que se levantaram e foi o John Kennedy garantindo a posse do homem…” (Riverão Sussuarana, ps. 67-71)

Não pretendo com essa exposição alimentar o mito da relação do autor com a ditadura militar, ou com o fascismo, nem desmistificá-la, apenas evidenciar a presença dessa tensão também na aventura literária do cineasta. Suspeito, sobretudo, que essa relação, mais que fruto de um comentário mal colocado e descontextualizado, não tenha sido propriamente resolvida na obra de Glauber, assim como outros fatores que se alimentam de suas próprias contradições para adquirir carga semântica nessa produção.

Bem mais avesso às “questões políticas”, no caso do protagonista, como escreve Jair Tadeu da Fonseca, sua função é a da lenda, que nunca se fecha – voltando ainda ao Rosebud – contemplando “a ideia da recorrência temporal e espacial, de fluxo, de circularidade, de ciclo” e “exige uma travessia alucinatória porque, por sua vez, é um eixo mágico que atravessa os territórios do real, do imaginado e do vivido.” (FONSECA, Jair Tadeu. Glauber Rosa e Guimarães Rocha. In: Riverão Sussuarana, p. 238)

Riverão Sussuarana por essa ideia antecipa tensões de filmes como A Idade da Terra, explorando a fome por meio de uma lente mítica. Isso explica por que Fonseca, ao resumir o livro para o leitor, faz a ressalva de que não se trata de uma pretensa tentativa de fazer um resumo do livro, dada a falta de linearidade e as lacunas (entre outras operações no texto, visando à constante construção/desconstrução) do enredo.

Continua Fonseca:

Riverão Sussuarana (Rivo, Riverim, River, Riverun, Riveran, Sussu, Adeodato) é urn dos muitos nomes do protagonista da ‘renovela’, um jagunço, cuja história é relatada ao Major e Mestre Rosa, ‘Embaixador Romancista’, pela personagem de Glauber Rocha, um ‘Cine Repórter’, cujo nome também toma formas diversas. É chamado de Glôbe, Grobe, Glaubiru, Grober, Glaudi, seu Roxo, até que perto do fim da ‘desnovela’ funde-se com o ‘Embaixador Romancista’ na personagem de Guimarães Rocha, para logo depois se tornar Jango Rosa, e ao final desmembrar-se de novo em dois. A viagem que fazem pelo sertão – que poderíamos caracterizar como lisérgica, por mudar de forma e rumo a todo instante –, acompanhados pelo Comandante e por sua suposta filha, Linda, leva-os a enveredar-se pela história narrada por Glauber, conduzindo-os ao encontro de Riverão. Este se apaixona por Linda, a qual é filha de Diadorim com Riobaldo, como é revelado, no inicio do livro, logo após ela ‘transar’ com o Major Rosa. Este, mesmo depois de morto, estaria destinado, junto a Riverão, a lutar pela destruição do empresário transnacional Karter Bracker, personificação alegórica do ocupante estrangeiro, que invadiu as terras do sertão e mantém o povo como escravo nas minas de urânio, as quais controla, mancomunado com o Senador Lima Ferraz, para tentar descobrir o ‘Geo Fogo’, que estaria no ‘Geo Center’.

Muito gerais, essas linhas não são um modo de tentar resumir e parafrasear o livro, tarefa praticamente impossível, mas de escolher alguns pontos sobre os quais situar, de modo sucinto, alguns elementos de um texto que é um verdadeiro desafio à narratividade.” (FONSECA, p. 240)

Veja que é uma ressalva cheia de ressalvas.

Entre outros motivos, talvez por estar aí o vetor mais potente, inventivo e também o mais autoritário do romance de Glauber. Ao mesmo tempo em que atravessa e sobrepõe os gêneros literários, os discursos, as ortografias etc. Riverão Sussuarana é yntransygente com seu leitor. Responde à opressão com violência. A força contra a força. Cria um myto yconoclazta em uma versão Gonzo de Euclides da Cunha.

Como o autor explica: “O livro é ao mesmo tempo um manifesto literário e estético. A teoria e a prática daquele livro são transferidas para a música, para o cinema, qualquer tipo de arte. […] Incorpora uma espécie de renovela, de desnovela, de recordel” (ROCHA, 1981, p. 351). É, sobretudo, um manifesto, com o que isso implica de libertário bem como de panfletário.

Sobre a crise instaurada por meio da fragmentação, desfragmentação e defragmentação do enredo, veja, em outro contexto, a linha na qual se apoia Ismail Xavier quando fala dos filmes de Glauber desse período.

Nos anos 1970, o princípio de unidade dos filmes se desloca para a intervenção direta do cineasta, corpo e voz, a fala em primeira pessoa a articular um conjunto de estratégias do discurso cinematográfico, num passeio por diferentes registros e modalidades de representação. A parte ganha maior autonomia, faz valer a sua própria força e configuração local, desaparecendo de vez os vestígios de um todo orgânico. Temos as experiências de Claro (1975), as provocações do antidocumentário Di (1976) e o espetáculo de transgressões de A Idade da Terra. Aqui, Glauber leva ao limite suas experiências com o plano-sequência e a movimentação de câmara, exibe ostensivamente uma montagem que recusa simetrias e concatenações, instala-se abertamente no espaço da ‘crise da representação’.” (XAVIER, p. 141)

São incontáveis as transições (por vezes, cortes secos) de referenciais entre vozes, personagens, discursos, gêneros e subgêneros narrativos. Entre eles, apenas citando, encontramos o caso Anecy Rocha; o teatrinho de Linda, Luiz Papagayo e Duendes Vagalumes; os cortes abruptos, as descontinuidades, a metalinguagem e o intertexto, um arsenal completo, ao qual Jair Tadeu da Fonseca acrescenta “o testemunho, o diálogo dramático, o poema, a alegoria filosófica, alinhavados por uma prosa poética e de ficção em constante mutação formal”.

Nessa desorganização e desorganificação do todo, acrescente-se que nossos buddys, Rose & Karter, não encontram River Run no World Trade Falls (WTF), sua terra é um brazil. E nos sertões brasileiros a conversa é diferente. Mais diferente ainda é o sertão de Glauber entre 1976 e 1980, quando e onde a fome conduz a um desenfreado irracionalismo onírico, violento e lendário.

Em Riverão Sussuarana, após o conto ASSASSYNATO de Anecy Rocha, a estorya termina com uma cena para Karter no combate final contra o irresolúvel do faminto&violento que atravessa o tempo.

A metáfora tem karas, muitas, e Glouber não estava louko. Com essa ideia começa o segundo e metalinguístico biográfico territorial geográfico universal final de Riverão que é também um dos melhores já escritos em proza de lyngva portvgveza e que, como o tempo, atravessa o enredo antes que o tenhamos findo.

“Eldorado, nada.” História, mito.

25/08/2012

Veja Glauber falando sobre livros

REFERÊNCIA

Riverão Sussuarana de Glauber Rocha, Editora da UFSC, 2012.

REZENDE, Sidney (Org.). Ideário de Glauber Rocha. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986.

ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Alhambra/Embrafilme, 1981. 2ª ed. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.