Má-fé na tradução

Má-fé, no sentido sartriano de enganar não apenas os outros, mas também de enganar-se, é o conceito usado por Cyril Aslanov para discorrer sobre A tradução como manipulação (Ed. Perspectiva e Casa Guilherme de Almeida, 2015). Em seu livro, o professor israelense expõe e comenta casos de falsificações, negligências, censuras, motivações políticas, boicotes, deficiências do Google Tradutor, bajulações, apropriações e também casos em que a má-fé percorre outras camadas do texto, por vezes chegando ao seu estatuto ontológico.

Apesar do cinismo contido nas atitudes descritas acima, Aslanov considera a boa intenção de tradutores, mas considera também o resultado desse tipo de tradução “fiel e laboriosa” quase sem salvação. É inevitável nos lembrarmos de traduções de títulos de filmes e livros que encontramos sempre que vamos às lojas ou ligamos a TV. A propósito, o autor também dedica um capítulo à fraude na tradução simultânea.

Para Aslanov, “o tradutor não está traindo ninguém. Ele apenas procura subterfúgios que tornem o texto aceitável para o leitor” – sob o ponto de vista do tradutor, vale lembrar. Em sua defesa da manipulação como recurso inevitável, o autor não leva em conta as teorias da tradução vinculadas à poesia. Isso pode explicar a ausência das experiências dos irmãos Campos ou de Pound, por exemplo. Quando menciona este, é para exemplificar a radicalidade do ato de traduzir: “Até a tradução mais literal possível deixa uma margem de criatividade ao tradutor e, às vezes, o estimula, como as restrições formais fazem com o poeta que ‘dança em armadura’, segundo a fórmula de Ezra Pound.”

Lembrando de Karl Weber, podemos crer que a manipulação ocorre também naquilo que deixa de ser mencionado, no recorte, nas escolhas do não-dito. Entretanto, em certo momento, Aslanov fala da imitação poética, que abrange dimensões extratextuais, geralmente com o objetivo de melhorar algum idioma ou texto, por outras vezes para realizar uma transposição cultural, geográfica ou geopolítica ou até mesmo para valorizar o original, tentativas que acabam escondendo uma sensação preconceituosa de superioridade.

A partir daí, o professor israelense busca descrever o “coeficiente de fraude inerente a toda situação em que alguém domina os outros com o próprio saber.” Essa superioridade pode provocar abusos, mas também pode provocar poemas. O sentido considera o contexto. Nesse sentido, a transposição literal de um texto deve levar ao leitor também tudo aquilo que transcende o texto. Daí sua impossibilidade. Em termos ideais, não apenas a tradução, como também a comunicação exata no campo da matéria é impraticável.

Mas a comunicação serve justamente para isso, para intermediar a coexistência de universos distintos, o do autor/tradutor e o do leitor. Assim como a tradução rompe o abismo entre duas ou mais línguas, a comunicação atravessa meu universo para chegar ao seu. Isso só é possível graças a uma margem aceitável de erro entre a mensagem enviada e a recebida. Ao manipular as palavras, o tradutor, na tentativa de realizar a “difícil negociação entre uma transparência ideal e a tentação de enganar o leitor que não tem acesso ao texto original”, sabe de antemão que a tentação sempre vence. É questão é: qual o uso que vamos fazer dessa permissão velada que o leitor (e o tradutor) concede à trapaça?

Aslanov lembra que o tradutor “engana” o leitor, mas também “manipula” o texto, que é o ato, não necessariamente negativo como o de enganar, de retirar com as mãos um texto de uma língua e colocar em outra, no mesmo sentido que usamos quando dizemos que vamos a uma farmácia de manipulação. Com isso, o autor pende para a língua em detrimento do texto, considerando este um recurso para chegar ao conhecimento do outro, e não o contrário.

Apesar de toda a negatividade inerente aos termos aplicados, como “má-fé”, “engano”, “fraude” e em certo sentido “manipulação”, Aslanov entende que o ato de traduzir é construtivo por manter o original livre sob a égide da língua viva, esteticamente em consonância com o work in progress pós-moderno, e estabelece aí sua trincheira no fogo cruzado das teorias da tradução, colocando até mesmo esta resenha como a barganha de um embuste operado sobre A tradução como manipulação.

Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.