Manaus: A metrópole sobre as águas do Rio Negro

ManausÀ janela do carro, de madrugada, entrecortavam-se imagens corriqueiras à vida urbano-industrial, sobretudo do mundo subdesenvolvido: aglomerados residenciais de aspecto suburbano, com seus “puxadinhos” e sobreposições arquitetônicas desordenadas, uma operação policial de grande porte sob os vãos do viaduto, botecos de esquina iluminando, solitários, os cantos das avenidas, o desgaste das ruas esburacadas, o agressivo e veloz trânsito noturno.

À primeira vista, é difícil compreender a cidade. O centro velho, em si, constituí-se numa ordem aparentemente estranha. Pelo porto circulam trabalhadores de diversos tipos e funções, desde o simples jangadeiro pescador até os operários das usinas de combustível e das empresas de armazenamento. De frente para ele está um enorme coreto com paredes e portas de vidro, e, à sua volta, um mar de camelôs e vendedores de todos os tipos de mercadorias.

As barracas se estendem até o terminal de ônibus, que todos os dias faz circular grandes quantidades de pessoas pela região. Este último, situado entre a igreja matriz e os históricos prédios do armazém municipal e do Porto de Manaus, ambos de arquitetura neoclássica do fim do século XIX.

Adentrando-se nas ruas que, do coreto, seguem em direção ao teatro Amazonas, observa-se, por entre as calçadas repletas de lixo, uma cultura comercial completamente adequada à lógica global do shopping center, entretanto, superposta aos hábitos e modos caboclos de organização. As placas das lojas de rua estampam, frequentemente, palavras como “Amazonic”, “florestal”, ou palavras de origem indígena, mas anunciam produtos de informática e artigos associados à vida urbana.

Estranhamentos

O clima extremamente quente, a sujeira nas ruas, o grande fluxo de trabalhadores e consumidores, o estranhamento entre a arquitetura oitocentista e as construções mais recentes – já datadas com a cor das décadas de 1950 a 1980 –, fazem do centro da cidade um polo de convergência de estranhamentos. Porém, todo esse choque incidente ao olhar estrangeiro se desfaz instantaneamente após uma, mesmo que curta, viagem de barco do porto do Rio Negro até as lagoas e os igapós que ficam assustadoramente próximos da metrópole e são o ambiente onde se fixaram as comunidades caboclas e ribeirinhas de seu entorno.

Essas comunidades são formadas por casas flutuantes – as palafitas – que, à beira do rio, ou em suas lagoas, abrigam residências familiares, escolas, pequenos mercados de víveres básicos, igrejas católicas, batistas e, sobretudo, evangélicas. São habitadas por uma gente que pouco frequenta a cidade e faz da mata, por meio da criação de peixes – os peixes nobres da Amazônia: Pirarucu, Tucunaré, Tambaqui –, gado preso em cercas flutuantes e extração de madeira (de pequenas proporções), seu meio de vida.

A floresta é densamente pulsante, fluxos múltiplos de todas as espécies – humanos, animais, vegetais, sonoros, materiais – se entrecruzam numa polifonia complexa que envolve desde a sinfônica de pássaros – que em sua lógica anciã, anterior aos mamíferos, disputam o espaço acústico em variadas espécies de cantos – até a trama intrincada das camadas de folhas e dos caminhos traçados pela fauna.

A lógica organizadora da mata

A floresta, portanto, e de volta à cidade, funda a própria cosmogonia urbana de Manaus, que toma da mata a sua lógica organizadora e se realiza a partir da profunda contradição de haver uma metrópole sedenta pelo desenvolvimento urbano globalizado e a maior, em termos tanto de extensão quanto de diversidade, floresta primária do planeta.

É impressionante a observação do fato de que no meio do ambiente artificial urbano, ao primeiro sinal de abandono de qualquer porção de terra, a mata reivindica seu espaço e o preenche com sua instantânea ocupação por meio de espécies vegetais e de pássaros. Não é raro notar entre as construções, por toda a cidade, terrenos baldios automática e naturalmente “reflorestados” ou ruínas de casas antigas formando exoesqueletos arquitetônicos revestidos por plantas rasteiras e ocupados por diversas árvores e algumas espécies animais.

Em oposição a essa gigantesca força natural que ocupa o espaço e nele estabelece suas relações – apesar do avassalador genocídio florestal, que sempre se deu e é crescente – se estabelece uma capital regional que têm enorme sede de desenvolvimento e crescimento.

As precárias relações de trabalho e consumo, a exemplo de uma série de restaurantes ditos “profissionais”, mas estabelecidos dentro de residências – como os “paladares” cubanos, nos quais a comida é excelente, mas absolutamente caseira –, começam a se profissionalizar e traduzir a lógica industrial que passa a reger o mencionado crescimento e se contrapor aos hábitos e modos de urbanização local.

Observam-se centenas de prédios comerciais e residências em construção, agora que a cidade vai terminando de realizar o seu crescimento horizontal e só aumenta a quantidade de habitantes: até agora, segundo o IBGE, são cerca de 2 milhões de habitantes que ocupam a décima segunda maior região metropolitana do país.

Antes o tradicional centro de extração de borracha, que construiu, além de cemitérios e afavelamentos, o colossal teatro Amazonas – em si uma contradição entre sua arquitetura neoclássica do século XIX e sua cúpula modernista em mosaico com as cores da bandeira nacional –, agora tornou-se o segundo maior polo industrial do Brasil, após a implementação, em 1967, da Zona Franca de Manaus, e é responsável pelo sétimo maior PIB do país.

Há também, como consequência do crescimento industrial, um grande ímpeto para o desenvolvimento humano. A recorrente precarização da educação vai sendo substituída, não se sabe até que ponto, pela manutenção das escolas de ensino básico e avançado e pela explosão de aberturas de novos cursos de graduação, especialização, mestrado e doutoramento; evidente que, sob a égide empresarial e desenvolvimentista do progresso científico, em nome do desenvolvimento do capital florestal e industrial da região.

Em termos culturais, Manaus avança progressivamente. A fortuna das tradições indígenas e caboclas vai sendo lentamente resgatada e documentada, mantém-se nas aldeias e nas comunidades locais – às vezes até como meio de sobrevivência de determinados povoados, como é o caso de muitas aldeias indígenas e de Parintins e sua festa do Boi – e passa a ocupar, na cidade, os museus, memoriais e centros turísticos. Nessa toada começam a se configurar festivais internacionais de música, como os festivais anuais de jazz, ou os de ópera, e os acervos e coleções de arte vão ganhando, aos poucos, mais coerência em suas curadorias e coleções.

Desse modo, mesmo do interior de seu processo histórico, Manaus está construída sob a dicotomia floresta-centro metropolitano e, por meio da estratégia tipicamente latino-americana da diluição, da mistura e do aproveitamento total das multiplicidades geradas pela própria contradição, vai se transformando de massacre dos povos manaós, que ocupavam a região no século XVII quando da chegada dos portugueses, em um inquieto, único e prolífero centro urbano das latino-Américas.