McEwan satiriza a ciência contemporânea

Num ano considerado fraco para o romance, Solar, de Ian McEwan, destaca-se, aliás, traduzido com a competência de sempre por Jorio Dauster. Por pouco, restaria aos leitores tupiniquins escolher entre As aventuras de Augie March (Saul Bellow), Indignação (Philip Roth) e 2666 (Roberto Bolaño), embasbacados diante da enxurrada de tramas piegas como A cabana e demais elucubrações sobre crepúsculos e eclipses que pontificaram – irremovíveis – na lista dos mais vendidos.

O romancista em foco, sem a menor concessão, trilha  caminhos complexos percorridos há algumas décadas por criadores do quilate de Graham Greene, Anthony Burgess, Doris Lessing e V. S. Naipaul. McEwan poderia ser citado até como o mais expressivo autor em língua inglesa da atualidade, rivalizando com o próprio Philip Roth, o último dos grandes romancistas norte-americanos ainda vivo. Nascido em 1948, ele pertence à geração de escritores britânicos procedentes do impulso literário da década de 1980, que igualmente revelou Martin Amis, Julian Barnes e Salman Rushdie. É atualmente o mais lido e o mais popular dentre todos, a exemplo do romance Reparação, que vendeu mais de dois milhões de cópias, obra-prima que deu lugar à magnífica produção cinematográfica de Joe Wright em 2007. Antes, porém, McEwan amargou o ostracisamo, apesar de suas qualidades.

Trabalhando sobre um tema absolutamente contemporâneo – o aquecimento global –, o autor escreveu um romance cheio de surpresas, todas elas se desenrolando em torno do protagonista Michael Beard, renomado cientista inglês premiado com o Nobel de Física pela descoberta da Conflação Beard-Einstein, (ou sabe-se lá o que isso venha a ser!), citada em “todos os manuais, inexpugnável, experimentalmente robusta”. Com efeito, em se tratando do linguajar técnico esbanjado pelo autor ao longo do livro, vale transcrever o parágrafo que aparece na segunda capa, extraído da crítica publicada na revista Time: “O pano de fundo científico de Solar é tão acurado que os pesquisadores do MIT que estudam os temas abordados no livro poderiam desconfiar que McEwan roubou suas notas”.

Na verdade, McEwan se debruçou sobre um assunto tão palpitante nos dias de hoje, quanto foi a gesta dos cientistas contratados pelo governo norte-americano, nos anos 1940 do século 20, para desenvolver a fórmula que permitiu os primeiros experimentos com a fusão nuclear e a descoberta da bomba atômica detonada sobre cidades japonesas. Também um tema que aguçou a imaginação de bons romancistas da época, como Pearl S. Buck, em A luz da manhã.

Quando Beard decide montar um sofisticado experimento para produzir energia limpa a partir da conversão da água em hidrogênio, numa espécie de fotossíntese artificial, arranja um sócio nos Estados Unidos e escolhe uma área quase deserta na vastidão esturricada do Novo México, na mesma região onde – não por acaso – haviam sido localizados os laboratórios destinados às pesquisas nucleares.

A maestria de McEwan, no entanto, não se restringe ao pleno domínio do jargão científico para explicar intricadas questões, mas se espraia na descrição do caráter e personalidade do protagonista Michael Beard, que “pertencia àquele gênero de homens – vagamente feiosos, quase sempre carecas, baixos, gordos e inteligentes – que exercem uma atração inexplicável sobre certas mulheres bonitas”. Assim era o cientista badalado pela academia e pela mídia, um tipo encontrável em muitas situações, como se percebe, mesmo nas esferas intelectualizadas, não raras vezes disposto a se apoderar, sem o menor pejo, de ideias alheias.

Para a maioria dos críticos, ao escolher como tema as mudanças climáticas globais, o romancista preferiu transformar assunto tão sério e preocupante para a sobrevivência da humanidade numa bem-humorada sátira à hipocrisia, inveja e maledicências comuns entre políticos, governantes e cientistas envolvidos na questão. Assim, as peripécias de Michael Beard, o festejado cientista que descobre como produzir energia a custos socioambientais quase inexistentes, mostram-no como um ser humano altamente desprezível, egoísta, glutão, bêbado e mulherengo compulsivo, que raras vezes toma banho ou escova os dentes.

Numa trajetória que se estende pela primeira década deste século, no início de 2000 Beard contabilizava o quinto casamento e onze casos extraconjugais. Sua mulher, Patrice, muitos anos mais jovem, constantemente preterida por aventuras passageiras, decidiu também ter seu próprio amante, o tosco carpinteiro Rodney Tarpin, contratado para fazer algumas reformas na residência do casal. Quase em estado psicótico, Beard percebe que a mulher passara a usar roupas diferentes naquele verão: jeans justos e desbotados, tênis, camiseta e cabelos curtos, parecendo uma adolescente. “A julgar pelos luzidios sacos de compra com alças de corda e pelos papéis de seda espalhados por toda a cozinha, Patrice estava comprando novas roupas de baixo para Tarpin tirar”. Despeitado pelos chifres inevitáveis que sua mulher lhe plantava, Beard assume o rompante de ir à casa do operário exigir satisfações e este o bota para correr com sonoros e desmoralizantes tabefes na cara grotesca.

 

Bifes malpassados embrulhados em bacon

Mas, apesar de tudo, a fila andava para esse homem estranho que “num círculo fechado de especialistas, era, graças a Estocolmo, uma celebridade, deixando a vida correr de ano para ano, vagamente cansado de si próprio, privado de alternativas”. Uma nova instituição governamental foi organizada perto de Reading, espelhada no Centro Nacional de Energia Renovável em Golden, Colorado. Beard foi nomeado presidente, “embora um alto funcionário público chamado Jock Braby fizesse o trabalho de verdade”. A nomeação veio a calhar, pois Beard estava sempre de olho em alguma posição oficial que lhe aumentasse a renda. Foi quando, no final do século, “o governo Blair quis ter, ou fingir ter, um envolvimento prático, e não meramente retórico, com a questão das mudanças climáticas”, como imaginou McEwan.

Com a pompa indispensável a esses empreendimentos, o governo anunciou uma série de iniciativas, dentre as quais o centro, instituição voltada à pesquisa básica e “necessitada de um mortal aspergido com o pó mágico de Estocolmo”. O centro recrutou meia dúzia de físicos com pós-doutorado, que, mesmo ganhando pouco, se esfalfavam sobre centenas de propostas encaminhadas por pessoas solitárias ou pequenas empresas com logos chamativos e “patentes sob exame”. Na condução do processo, descreve Ian McEwan, estava um Beard que se perguntava não estar encontrando naquelas centenas de cartas uma versão dele próprio, um Beard paralelo que “por conta da bebida, do sexo, das drogas ou da simples falta de sorte, havia desbaratado uma educação formal em física e matemática. Sim, desbaratado, embora ele ainda desejasse pensar, fazer experiências, contribuir. Alguns dos correspondentes eram de fato inteligentes, mas, devido a suas ambições extravagantes, se sentiam obrigados a reinventar a roda e o motor de indução com cento e vinte anos de atraso após a descoberta de Nikola Tesla; além disso, interpretavam erradamente (e com imenso otimismo) a Teoria Quântica de Campos a fim de encontrar os combustíveis esotéricos ali mesmo nos vazios de suas garagens e quartos de hóspede – a energia do ponto zero”.

O principal projeto do centro passou a ser uma turbina eólica para uso doméstico e um dos pesquisadores, chamado Tom Aldous, presumiu que o foco da instituição seria a energia solar, em especial a fotossíntese artificial, ao saber que o próprio Beard chefiaria a equipe. Beard passou a pegar carona no carro de Aldous no trajeto de Londres ao local de trabalho, e a estimular o pupilo a dizer o que pensava sobre a produção de energia limpa. “O futuro está na eletricidade e no hidrogênio, os únicos dois que sabemos serem limpos no local de uso”, repetia. A ligação entre ambos se tornou cada vez mais próxima a ponto de Aldous sentir-se livre para ir à casa de Beard sem ser chamado.

Certo dia, o chefe foi convidado a visitar o Pólo Norte, hospedando-se num navio congelado num fiorde da ilha de Spitsbergen, o único cientista em meio aos demais viajantes. Para escrever essa parte do romance, McEwan se valeu das ricas experiências da viagem que ele mesmo fez em 2008 para participar de uma comunidade de artistas (pintores, escultores e fotógrafos), reunida em pleno Círculo Polar Ártico, numa ideia insólita, mas bem-sucedida do conterrâneo David Buckland, que já a repetiu sete vezes. Foi também indispensável a leitura dos trabalhos de James Lovelock, Steward Brand, Tim Flannery, Jared Diamond, Paul Ehrlich, “todos eles cientistas e gente de bem”.

Voltando à ficção, uma das atividades previstas era um passeio de skidoo pela planície inóspita onde a temperatura descia a 35 graus abaixo de zero, com hora marcada para retornar. O grupo se aproximou duma geleira que cruzava o vale com cerca de quinze quilômetros de extensão e todos começaram a tirar fotografias, até que alguém viu uma pegada na neve. Jan, o guia, aproximou-se com o rifle no ombro e identificou a pegada recente de um urso polar. Sacou o binóculo para perscrutar o horizonte e disse calmamente: “Acho que está na hora de irmos”. A um quilômetro e meio de distância, um urso caminhava lentamente na direção do grupo.

Todos correram para os trenós motorizados, mas quando Beard pressionou o botão da ignição o motor não respondeu e ele apenas observou que a maioria já havia partido em meio a nuvens de fumaça e rugidos agudos. O físico puxou o afogador e logo sentiu o cheiro da gasolina, tornando ainda mais difícil o funcionamento do motor. “Era razoável imaginar que o urso se aproximava, conquanto Beard houvesse claramente subestimado a velocidade do animal naquele terreno porque, nesse exato momento, seu ombro foi atingido por forte pancada”.  Ele preparou-se para o pior, mas o que ouviu foi a voz do guia. O ganhador do Prêmio Nobel havia apertado com insistência o botão que ligava o farol dianteiro.

Ao retornar a Londres teve um insólito e inesperado encontro com Tom Aldous, na casa em que ainda morava com Patrice, e o desfecho acabou colando mais um incidente tragicômico nas trapalhadas cometidas por Beard, que algum tempo depois é afastado da presidência do centro, levando consigo uma pasta lacrada cheia de papéis com a advertência de que deveria ser aberta apenas por ele.

Ao ler as extensas anotações feitas por Aldous, como se sabe, um físico fissurado pela probabilidade da fotossíntese artificial, Beard ficou certo que o pupilo estava obstinadamente dedicado à tarefa de descobrir e “depois copiar o comportamento das plantas, aperfeiçoado pela evolução ao longo de três bilhões de anos de erros e acertos”. Em síntese, Aldous pretendia não só separar o hidrogênio e o oxigênio contidos na água, como também combinar o dióxido de carbono da atmosfera com luz solar e água para produzir um combustível líquido de uso geral. “Era brilhante ou insano”, ruminava Beard.

No final da década, depois de mais um casamento entrecortado por casos amorosos mais ou menos transitórios, Beard se lançou à aventura norte-americana, ao lado do sócio Toby Hammer, o homem que sabia como encontrar o dinheiro necessário para tornar real o empreendimento que daria início a “um novo capítulo na história da civilização industrial, garantindo o futuro da Terra”. Tudo fora muito bem planejado e testado. Beard sabia que “o sol, brilhando numa área deserta situada no sudoeste do Novo México, atingiria os tubos de plexiglas e dividiria a água em seus componentes, os tanques se encheriam de gás, o gerador de células eletroquímicas entraria em ação e a eletricidade estaria pronta a fluir”. O mundo ficaria absorto diante da incrível descoberta e milhões de dólares correriam para as contas bancárias de Beard e Hammer.

O que se lê dessa parte em diante, até o final do romance, é uma trama estonteante, ao mesmo tempo risível e emotiva, típica da personalidade doentia de Beard, um cientista laureado com o Nobel de Física que, não obstante, chafurdava num apartamento de solteiro em Londres no qual a sujeira se acumulava por anos. Na cena de encerramento vamos encontrá-lo num restaurante da pequena Lordsburg, nos confins do Novo México, diante duma recorrente oferenda a sua elevada taxa de colesterol. Ou seja, “quatro fatias de peito de galinha entremeadas de bifes malpassados embrulhados em bacon com um molho de mel e queijo; acompanhavam batatas cozidas impregnadas de manteiga e queijo cremoso”.    Desarvorado, pensa em pedir a conta e sair, mas percebe uma agitação à entrada. Então  depara com as últimas três mulheres com as quais está envolvido: Melissa e Darlene, amantes, e Catriona, sua filha com a primeira delas. O leitor escolhe o final.

Título: Solar
Autor: Ian McEwan
Tradutor: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 338