Gilberto Freyre, Sônia Braga e Vera Fischer

A segunda edição de Modos de homem & modas de mulher, de Gilberto Freyre, foi publicada recentemente não apenas com a utilidade de reviver uma obra esgotada e quase esquecida desse intelectual brasileiro. Serve também para alertar quanto aos riscos de ainda se ler Freyre como uma justificativa da miscigenação com vistas à eugenia e da invasão ou dominação cultural. Mas, antes de partimos para esse ponto, cabe notar o uso dinâmico, por vezes irrestrito e até inapropriado, que ele faz do termo “moda” no livro.

Quando Décio Pignatari, no alto de seus oitenta anos e para seu próprio espanto, encontrou na moda os resquícios de um comportamento vanguardista, ele a definia em termos de “roupa experimental” [1]. No caso de Gilberto Freyre, o modo de ver a moda adquire conotações bem mais ecléticas, podendo englobar desde tendências de trajo, de adorno, de comportamento, até movimentos artísticos e técnicas de engenharia civil. A definição mais apropriada é emprestada da Encyclopaedia Britannica, na qual se lê que fashion é “the common or customary way in which a thing is done and so is applied to the manner of custom prevalent characteristic of a particular period” [2].

Essa forma imprevista de lidar com a determinação de seu objeto de estudo – que para Mary Del Priore, que prefacia o livro, é chamada de “autenticidade” – é encontrada em um enorme arsenal de associações e relações as mais inusitadas, tendo sempre em vista uma apropriação social, histórica, antropológica.

Com isso, Freyre consegue vincular a configuração brasileira das casas-grandes às catedrais, que simbolizam até hoje o estabelecimento da cultura europeia nos demais países sul-americanos, enquanto se mantém alerta para a ecologia dos decotes e a dignidade das amplas ancas. Aliás, quando pensávamos que nossa cultura já estava saturada de fetichismo, lá vem Gilberto Freyre com um “complexo da utilização sexual de traseiros” e suas “serpentes inofensivas, algumas enormes, tratadas com o maior carinho por suas donas” [3].

Dessas associações, Freyre tira material para partir das “Formas de corpo de mulher e bronzeamento” e chegar à Revolução Pernambucana de 1817. Consegue ver a consolidação da tendência unissex e, a respeito da moda flapper, em voga nas primeiras décadas do século XX, anotar para a subversão dos vestidos curtos e da ausência dos espartilhos no sentido de um impacto provocado pela heroificação dos combatentes da Primeira Guerra Mundial. Provocação que, entre outras, tendeu para a legitimação de uma nova concepção de sexualidade, uma nova política nas relações entre os sexos.

O curioso é ver o autor expressar seu sentimento com relação aos excessos tão caracteristicamente brasileiros: “Daí, em grande parte, desvarios em modas de mulher, com acentuadas libertinagens, além de compreensíveis liberdades, de trajos nos quais vêm se admitindo – em suas modas ou vogas ou excessos – provocações de caráter sexual que vêm tendendo a extremos” [4]. O que diria Freyre das dançarinas completamente nuas que desfilaram nos trios elétricos do último Carnaval?

E é justamente essa peculiaridade da inteligência do autor que institui a beleza morena de Sônia Braga e a europeia de Vera Fischer como representação da simbiose entre o dionisíaco e o apolíneo na cultura brasileira. Essa caracterização dicotômica entre apolíneo e dionisíaco é sugerida por Ruth Benedict em Patterns of culture – como indica Freyre –, com base no caráter psicossocial de culturas tribais. Em Modos de homem & modas de mulher, é aplicada para simbolizar – a propósito disso, não deixa de ser intrigante o modo como Freyre aproxima o imagismo e o simbolismo – a mistura brasileira desses elementos por meio de uma dialética de “consagração da morenidade”. Chegando-se, assim, à convivência de dois extremos: o exibicionista e o moralista.

O autor diria que a moda dos loiros artificiais, oxigenados, inclusive em negros, tem algo a ver com a importação de bonecas francesas, loiras e alvas, durante o século XIX pela burguesia brasileira. E que há uma tendência à neutralização – não é necessariamente o que temos visto nos dias de hoje, especialmente nas classes menos favorecidas – desse albinismo, que envolve a sensibilidade de poetas do fim daquele século para a beleza morena feminina.

Dentro desse processo, ainda segundo Freyre, temos a glorificação de uma beleza morena no culto criado em torno da figura de Sônia Braga, que, junto a seu extremo oposto, Vera Fischer, representa uma ambivalência de um país “crescentemente metarracial no seu pendor para sobrepor considerações de origens e situações especificamente raciais de brasileiros e de brasileiras seus característicos socioantropológicos, seus modos já nacionalmente brasileiros e tendentes a metarraciais de sorrir, de andar, de conviver” [5].

É evidente a sensibilidade do autor para mudanças na sociedade em relação com a história. Freyre percebe a moda a partir de suas características funcionais, de acordo com adaptações a novas condições gerais, tanto em relação com a história como com a geografia local, da mesma forma como, para ele, o primitivismo representa protestos modernos contra tiranias moralizantes e encontra em pendores plebeístas e populistas um enriquecimento em vários sentidos, como na arte de Villa-Lobos ou de Mário de Andrade.

Essa assimilação de plebeísmos e populismos nas modas ditas sofisticadas provoca combinações entre as culturas de primeiro e terceiro mundos, por assim dizer, criando uma espécie de estereotipo de exportação da mulher brasileira. Há casos clássicos em nossos dias, como o sucesso das sandálias Havaianas e da depilação brasileira entre as europeias, e na intenção manifesta da candidata a presidente pelo Partido Verde, Marina Silva, de ter o presidente do Conselho de Administração da Natura, Guilherme Leal, como vice. Trata-se de uma empresa marcantemente investidora na imagem ecológica e tropical.

E é nesse fator antropológico, ecológico, que está o risco das leituras extremas em prol da miscigenação e da integração cultural, sobretudo pelo seu caráter autoritário. Para Mary Del Priore, a miscigenação segundo Freyre deve ser entendida menos como fator de democracia racial que de integração cultural. O que torna o texto bem mais palatável, ainda que não ausente de um prato cheio de assertivas para a felicidade ou o ódio de algum fanático nazista ou espartano. Fecho com alguns exemplos para conclusão do leitor:

“É o apoio que precisa prestigiar a irradiação daquelas modas brasileiras de mulher, em parte associadas ao fenômeno estético observado tanto por Rossellini como por Arnold Toynbee: o de aspectos positivos e criativos – além de eugênicos e higiênicos, estéticos – de uma miscigenação que já ninguém ignora ser um processo de afirmação da gente brasileira, como expressão de novos e saudáveis tipos de homem e, sobretudo, no aspecto estético, de mulher” [6].

[…]

“É recente o empenho de um tipo de mulher, principalmente anglo-americana, em busca de afirmação, pelas suas formas de corpo, ligadas, em muitos casos, a cores ou pigmentos, de novo e maior poder de atração que o ariano, pois passou a incluir, um tanto contraditoriamente, seu bronzeamento ou sua tropicalização” [7].

[…]

“Miscigenada, grande parte da gente brasileira, a miscigenação como que se faz sentir, através de experimentos antropologicamente eugênicos e estéticos. Experimentos que se pode dizer virem repudiando excessos de saliências de formas de corpo e evitando-se tanto os exageros africanoides de protuberâncias como os caucasoides, de deficiências” [8].


Notas

[1] “Oitentação”. Folha de S.Paulo, Ilustrada, 04/08/2007, p. E3.
[2] Modos de homem & modas de mulher, p. 285.
[3] Ibidem, p. 108.
[4] Ibidem, p. 35.
[5] Ibidem, p. 57.
[6] Ibidem, p. 86.
[7] Ibidem, p. 89.
[8] Ibidem, p. 99.

Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.