Mulholland Drive, de Nelson Rodrigues

acredito que quando você perfura a essência -a morte-

-e o cinema é a morte trabalhando como já dizia o cocteau avec son couteau– -e o cinema é a indústria da morte como todos sabemos- -e, portanto, a mais rentável e poderosa máquina que existe, pois manipula imagem(o espaço)&som(o tempo), assim como os egípcios dominavam a arte do tempo(mumificação)&espaço(pintura mural na arquitetura dos sarcófagos), sempre a burlar os limites temporais do corpo físico & ao mesmo tempo a assegurar o registro espacial de uma história de uma saga, enfim de um mito através das pinturas acompanhadas por suas legendas hieróglifos-

então

quando você perfura a essência -o cinema-

-ao remover os véus de sua ísis&íris- -ao desobedecer às caquéticas convenções que num piscar de olhos já haviam se instalado na linguagem cinerária/cinematográfica segregando toda e qualquer inovação no gueto do filme experimental- -ao driblar magistralmente os limites impostos pela prisão do código narrativo através da descoberta de novos atalhos na ilha de edição, que permitam assim múltiplas linhas de ação mas preservando a linha de ariadne, que assegure o retorno à múmia / à trajetória da personagem / à gênese da femme fatale, que desde sempre é o objeto de obsessão/fetiche máximo de todo espectador-

então então

quando você perfura a essência você acaba criando um filme que consegue ultrapassar sua história – possibilitando a entrada&saída dos tantos espelhos que cada espectador carregar – e se tornando capaz de refletir/assimilar/aglutinar uma infinidade de releituras – e assisti e ouvi a voz de muitos autores ao redor do trono e dos seres sobreviventes e dos sucubus incubus e o número musical deles era miríades de miríades Mulholland Drive 5:11 – sendo assim além das milhares de alusões a clássicos do film noir / da avant garde / do cinema surrealista contidas no filme e além dos paralelos míticos distinguíveis nos personagens e além das evidentes reapropriações de David Lynch que ecoam cenas de filmes como, por exemplo, Céline et Julie vont en bateau e Pont du Nord e Duelle (une quarantaine) do Jacques Rivette, sempre trabalhando através de alegorias&metamorfoses a ideia do doppelgänger feminino que atravessa planos de realidade&fantasia descortinando uma rede de conspiração metafísica – também é possível encontrarmos uma conexão com as revoluções operadas por Nelson Rodrigues em sua peça Vestido de Noiva, de 1943, – era este o espelho que me descobri carregando quando assisti ao filme pela primeira vez

filme&peça: ambos apresentam o percurso infernal de uma mulher atravessando três tempos narrativos distintos – realidade / alucinação / memória

em Mulholland Drive no plano da suposta realidade assistimos às cenas do acidente de carro – da investigação dos policiais – dos produtores na sala de reunião resolvendo de forma misteriosa os prejuízos de um filme
em Vestido de Noiva no plano da realidade assistimos às cenas do acidente de carro – dos repórteres policiais espalhando a notícia do crime – dos médicos na sala de cirurgia lidando cinicamente com os prejuízos do corpo

em MD no plano da alucinação acompanhamos as cenas do encontro&relacionamento da jovem Diane -assumindo a identidade de Betty- com sua obsessão máxima, a enigmática Camilla -assumindo a identidade da amnésica Rita que é auxiliada por Betty no esforço subterrâneo de recuperar a memória- até que ambas se descobrem mortas ao abrirem a dupla caixa azul -a pequena que carregam para todos os cantos a que vão & a grande caixa cênica do El Club Silencio toda iluminada de azul-
em VdN no plano da alucinação acompanhamos as cenas do encontro&relacionamento da jovem amnésica Alaíde com sua obsessão máxima, a prostituta Madame Clessi -que auxilia Alaíde a recuperar a memória- até que ambas se descobrem mortas ao montarem os flashbacks do quebra-cabeças

em MD no plano da memória testemunhamos cenas que desvendam o assassinato de Camilla encomendado por Diane -resultado do asfixiante triângulo sexual entre as duas atrizes e o cineasta Adam- e o posterior suicídio de Diane
em VdN no plano da memória testemunhamos cenas que desvendam o assassinato de Alaíde desejado inicialmente pela sua irmã Lúcia e pelo noivo Pedro -resultado do triângulo amoroso entre as duas irmãs e o industrial- e o assassinato de Madame Clessi pelo jovem&obcecado amante -solucionado através dos comentários durante o velório-

filme&peça ambos trazem protagonistas -Diane&Alaíde- que nutrem um fascínio pela magia do cinema e anseiam um dia tornarem-se famosas

filme&peça ambos dão ignição à história com um misterioso acidente de carro -em MD há o choque entre carros & em VdN há o atropelamento-

filme&peça ambos evocam logo de início a imagem polissêmica da dança -em MD o prólogo traz casais dançando jitterbug vertiginosamente & em VdN as rubricas descrevem algumas mulheres dançando com uma sensualidade ostensiva na casa de prostituição-

filme&peça ambos mostram duas cenas emblemáticas e correlatas
-em MD percebemos que no apartamento outrora habitado por Camilla/Diane agora mora uma senhora que de repente entra no quarto vazio após ouvir o ruído fantasma da cena anterior na qual Camilla deixou cair a caixa azul & em VdN descobrimos que a casa onde Alaíde/Lúcia moram havia sido a casa de Madame Clessi e, em certo momento, a mãe das duas sente a presença de um vulto e diz que a alma de Clessi ainda pode estar ali-
-em MD a única sequência em que assistimos à filmagem é justamente o beijo que Adam dá em Camilla sendo observada por Diane a pedido do próprio diretor & em VdN durante a briga das irmãs ficamos sabendo que Lúcia foi beijada por Pedro enquanto Alaíde os observava do terraço-

em 1943 o gene-gênio de Nelson Rodrigues despertou fogo no recém-chegado encenador polonês Zbigniew Ziembinski e juntos transformariam de vez o panorama teatral com a encenação da peça

após quase 60 anos o filme de David Lynch seguiria acendendo espelhos com arrancos de cachorro atropelado

estas foram algumas das singularidades que me chamaram a atenção durante a projeção da múmia

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Sobre Luiz Päetow

(1978, São Paulo) Atuou nos espetáculos Marat/Sade de Peter Weiss, dirigido por Francisco Medeiros; Sobre o Acordo de Bertolt Brecht, por Celso Frateschi; A Cozinha de Arnold Wesker, por Iacov Hillel; e À Margem da Vida de Tennessee Williams, por Odavlas Petti. Em 1997, no Centro de Pesquisa Teatral, começou uma investigação de dramaturgia aliada à interpretação, que culminaria no projeto Prêt-à-Porter. Criou, dirigiu e atuou em cinco textos: Passageiros, Debaixo da Ponte, Cem ConcertoHoras de Castigo e Asas da Sombra. Inaugurou o Círculo de Dramaturgia, coordenando o primeiro ano do curso e dirigindo a Oficina de Dramaturgia Atoral. Trabalhou como ator e assistente de direção de Antunes Filho no espetáculo premiado com o Shell e o APCA de melhor direção de 1999: Fragmentos Troianos de Eurípides, excursionando pela Turquia e pelo Japão. Paralelamente, foi assistente de Daniela Thomas na montagemDa Gaivota de Anton Tchekhov, com Fernanda Montenegro, Fernanda Torres e Antonio Abujamra. Em 2000, assinou a encenação e a dramaturgia da ópera The Fairy Queen de Henry Purcell. Em 2003-2004, atuou na primeira montagem brasileira do derradeiro texto de Sarah Kane, 4.48 Psicose, direção Nelson de Sá. Em 2006, criou o espetáculo-solo intitulado Peças, sua tradução para o texto de Gertrude Stein com encenação de Marcio Aurelio, realizando temporadas em SP durante três anos e com passagens por diversos festivais. Em seguida, protagonizou o espetáculo Leonce e Lena, de Georg Büchner, dirigido por Gabriel Villela. No final do mesmo ano, assinou a criação, produção e atuação do Ciclo Gertrude Stein, apresentado no Sesc Pinheiros durante três noites consecutivas, composto por palestras e performances de traduções suas para diversos textos de Gertrude Stein. Em 2007, atuou no espetáculo Matamoros, de Hilda Hilst, direção Beatriz Azevedo; e assinou a direção e adaptação da obra Água Viva de Clarice Lispector, em Goiânia. A convite do diretor Rubens Rusche, protagonizou em 2008 sua encenação intitulada Calando, composta por duas peças radiofônicas de Samuel Beckett: Palavras & Música e Cascando, apresentadas dentro do 43 Festival Música Nova. Atualmente, assina a encenação e a tradução do texto Music-Hall de Jean-Luc Lagarce.