Nelson Freire, Debussy

Debussy - Nelson Freire Lançamento:
01/2009

Selo:
Universal Music (Decca)

Compositor:
Claude Debussy

Intérprete:
Nelson Freire

Stereo
59 min.

Nelson Freire é um dos maiores instrumentistas brasileiros vivos. Começou seus estudos de piano aos três anos de idade e estudou com pianistas como Lúcia Branco e o austríaco Bruno Seidlhofer. A partir de 1959, aos quinze anos, Freire inicia sua carreira internacional. Desde então, já se apresentou como solista ao lado de regentes como Pierre Boulez, Valery Gergiev, Gennady Rozhdestvensky e Hans Graf, atuando em orquestras como as filarmônicas de Berlim, Rotterdam, Zurique e as sinfônicas de São Paulo, Londres, Paris, Boston, Nova Iorque…

Em termos de escolha de repertório, Freire, ao longo de sua carreira, voltou suas atenções à pesquisa do repertório pianístico do século XIX, à exceção de diversas e célebres interpretações de sonatas e concertos para piano de Beethoven e algumas obras do nacionalista russo Sergei Rachmaninoff.

Realizou gravações do Le carnaval des animaux a dois pianos, de Camille Saint-Saëns, e reduções para piano de obras de Niccolò Paganini, ambas ao lado da pianista argentina Martha Argerich. Desde 2002, vem realizando uma série de gravações para o selo Decca de grandes obras para piano dos principais compositores do século XIX: Schumann, Brahms e, sobretudo, Chopin.

É a partir de sua íntima relação com os estudos e as sonatas de Chopin, em que se observa, da parte do instrumentista, alta compreensão das sutilezas e do virtuosismo sofisticado do pianista franco-polonês, que é possível compreender a abordagem trabalhada por ele ao interpretar algumas das mais célebres peças do tão complexo e singular repertório para piano de Claude Debussy.

É que Debussy, por ser herdeiro e trabalhar a partir da tradição, sobretudo pianística, do romantismo, também construiu sua relação com os sons e com o piano a partir de determinados vínculos com a obra de Frédéric Chopin.

As peças breves para piano constituem o gênero por excelência do romantismo musical. Elas se desenvolveram ao longo da tradição ocidental desde as Invenções (para cravo) de Bach e se caracterizam por não obedecer a nenhuma forma fixa e por favorecer a expressão pessoal e o experimento estético, tendo sido Chopin um dos grandes cristalizadores dessa maneira de se abordar a composição para piano.

Além disso, o tratamento da harmonia nas peças de Chopin, que abre espaço para o cromatismo – o uso de notas não pertencentes à tonalidade em que determinada música se desenvolve – como elemento de expressão da subjetividade, dá alguns passos importantes para a emancipação da dissonância e para a resposta debussysta à crise do sistema tonal que caracteriza o final do século XIX e todo o século XX.

No último quartel do século XIX, o universo musical europeu debatia-se entre os conservadores partidários de uma espécie de reestabilização do sistema tonal (romantismo tardio) – entre eles compositores como Berlioz e Rachmaninoff – e os seguidores do wagnerismo.

Claude Debussy

Claude Debussy
Fonte: http://facstaff.uww.edu

Este último, uma estética “origenista” – do ponto de vista de Rousseau, que no século XVIII propusera um retorno da música e da poesia a sua origem comum: o canto – e totalizante, fundava uma primeira forma de expressionismo, caracterizado pela mistura de timbres, modulação contínua e pelo cromatismo como elemento de saturação dramática e evasão harmônica da ideia hierárquica de tonalidade.Nesse cenário, o jovem Debussy se entusiasma com os ideais radicais de Richard Wagner, sobretudo por aderir à libertação da harmonia das funções tonais e da retórica tripartite do desenvolvimento, mas logo conclui que para o futuro, mesmo tento apreendido “aquela cor orquestral que parece iluminada por traz” nas obras do compositor alemão, há de se considerar sua obra, mas não escrever a partir dela.Dessa forma, o jovem compositor, ao fazer estrear na Société Nationale, sob a batuta do suíço Gustav Doré, o seu Prélude à l’après-midi d’un faune (1984), dá início a uma das quatro grandes correntes da música erudita do século XX. Todas essas correntes se constituíram entre o fim do século XIX e o começo do século XX e se desenvolveram a partir daquela crise do sistema tonal, que dividia conservadores e wagnerianos. São os precursores dessas correntes, como afirma Roland de Candé: Claude Debussy, Maurice Ravel, Igor Stravinsky e Arnold Schöenberg (quem aproveitou de Wagner, ao contrário de Debussy, suas misturas de timbres e o seu cromatismo total, fundando um expressionismo radical e complexo).

A partir das formas breves, expressivas e amplamente abertas ao experimento, que aprende de Chopin e do cosmopolitismo boêmio que o colocou em contato com Verlaine, Rimbaud, Satie, Mallarmé, e da ideia de representar “não a coisa, mas o efeito que ela produz”, Debussy funda um projeto estético-musical baseado na exploração de caráter metafísico dos limites entre natureza e imaginação, na “busca de novas relações semânticas baseadas na imaginação”  e no movimento produzido pelo encadeamento dos sons.

Debussy descobre como desencadear uma série de acordes dissonantes produzindo um efeito de extrema doçura, como na segunda exposição do tema do prelúdio La fille aux cheveux de lin (A menina dos cabelos de linho) – em que se extraem acordes da escala (de origem oriental) de tons inteiros –, o que revela a presença de forte ironia e descontextualização das funções harmônicas e significações musicais.

A corrente musical inaugurada por Debussy antecipa e introduz na música do século XX elementos como a construção harmônica não-justificada por sua origem na técnica do contraponto, reivindicando a liberdade da experimentação de texturas e “cores” harmônicas e de uma completa ambiguidade tonal; a ruptura com a linearidade melódica instrumental, revelando um jogo dialógico de timbres (ou alturas, no caso das peças para piano solo) mais que uma conversa entre melodias; a flexibilização do tratamento do ritmo, que abre espaço para uma condução mais vital dos movimentos e para a polirritmia.

A escolha das peças por Nelson Freire é bastante coerente e bem apropriada para uma leitura do universo de Debussy. Ele aproveita o primeiro livro dos prelúdios para situar esse compositor no trabalho de pesquisa que vem realizando em relação ao grande repertório pianístico do século XIX. A partir daí, trabalha com o conjunto que Debussy dedicou à sua filha: Children’s corner (O canto das crianças), em que se percebe um apurado trabalho de composição e sugestão de movimentos (The snow is dancing) e ritmos (Golliwog’s Cakewalk, que joga com ritmos extraídos do jazz, que vinha à França oitocentista através dos cabarés).

Além desses dois conjuntos, Freire propõe um equilíbrio entre uma peça de grande celebridade: Claire de lune (Luar) – parte da Suite bergamasque, escrita a partir do poema homônimo de Verlaine e indiretamente ligada à sonata quase homônima de Beethoven – e outra pouco conhecida e muito menos executada: D’um cahier d’esquisses (De um caderno de esboços), que serviu como um primeiro projeto, onde foram trabalhadas as principais ideias, motivos e sequências harmônicas para a obra-prima orquestral La mer (O mar).

Nelson Freire

Nelson Freire
Fonte: http://nytimes.com

A interpretação de Freire, como é de se esperar, é excelente. O que importa nela, e a difere da interpretação, por exemplo, de Walter Gieseking – um dos mais importantes intérpretes do compositor –, é a maneira direta e firme com que Freire realiza as mais oscilantes e ambíguas passagens do paradoxal e complexo universo pianístico de Claude Debussy. Ele propõe aos seus executantes o domínio de um amplo nível de controle dos contrastes entre as dinâmicas (do mais pianíssimo ao mais forte dos sforzando) e os momentos de grande contemplação meditativa e vigoroso virtuosismo.

Vídeos

Prélude à l’après-midi d’un faune – Claude Debussy
Leopold Stokowski – London Symphony Orchestra, London, 14 June 1972.
Part 1

 

Part 2

 

Nelson Freire plays Beethoven Waldstein Sonata