Milton Hatoum: entre a maestria e o contorno pueril

Não há nenhuma norma inflexível a ser seguida compulsoriamente, uma cláusula pétrea segundo os juristas, mas o fato é que, na literatura brasileira, todo bom romancista está destinado a ser – em igual ou maior medida – um ás da narrativa breve. Exemplos não nos faltam: Machado de Assis, Mário de Andrade, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Dalton Trevisan, apenas para lembrar alguns.

A norma não é inflexível e grandes romancistas da estirpe de Jorge Amado e de Lúcio Cardoso, ao que parece, não se sentiram atraídos pelo conto, gênero que, em outros quadrantes, nos põe em contato com extensa relação de titãs da qualidade de Edgar Allan Poe, Maupassant, Virginia Woolf, Kafka, Pirandello, Lugones, Roberto Arlt, Scott Fitzgerald, Adolfo Bioy Casares, Júlio Cortázar, Juan Carlos Onetti, John Cheever e Jorge Luis Borges, que, a rigor, não legou sequer um romance à sua incontável legião de leitores.

Hatoum

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Pretendo, então, refletir sobre a escrita breve Milton Hatoum, do qual a poderosa e midiática editora Companhia das Letras lançou A cidade ilhada, seleta de 14 contos escritos, publicados originalmente entre 1992 e 2004 (seis inéditos em português), em jornais, revistas e coletâneas no Brasil e/ou no exterior. Segundo o autor, todos os contos foram reescritos para a primeira edição brasileira. Hatoum, filho e neto de imigrantes libaneses, nascido em Manaus em 1952, iniciou seu caminho literário em 1989 com o romance Relato de um certo Oriente, seguindo-se uma década para o aparecimento de Dois irmãos (2000), a história de dois irmãos gêmeos (Yaqub e Omar), que começa um ano antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial e se estende até o período da ditadura militar no Brasil.

Como já havia feito no primeiro romance, Hatoum vê o mundo através de personagens relacionados com os usos e costumes dos imigrantes libaneses, para investigar seu próprio universo familiar, enraizado na cidade de Manaus, produzindo – numa prosa tão caudalosa quanto a extravagância aquática que banha a principal cidade da Amazônia – impressões de um observador atento às peculiaridades do homem e da natureza, que muito interesse despertaram em estrangeiros ou em seus descendentes para ali transplantados por uma conjunção de fatores, dentre os quais a migração, a exploração científica ou a simples aventura. O romance foi logo traduzido para o inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e árabe, propiciando já no segundo livro uma projeção internacional poucas vezes vista em se tratando de escritores brasileiros.

Hatoum, leitor de Cortázar e guerrilheiro de Costa Lima

O conto mais antigo do livro data de 1992 (A natureza ri da cultura), estampado com título diferente na Revista USP (nº 13, 1992) e quatro anos mais tarde no Caderno 2 de O Estado de S. Paulo (27 de janeiro de 1996). Nesse mesmo ano Hatoum conseguiu publicar mais quatro contos, a saber: Uma carta de Bancroft, A ninfa do teatro Amazonas, e de novo A natureza ri da cultura, uma vez no caderno cultural do Estadão e a outra na Nueva antologia del cuento brasileño contemporâneo, organizada no México. Esse mesmo conto havia sido lançado antes na França (1992) e Alemanha (1994), para ter sua tradução para o árabe editada pela revista Sutour, do Cairo, em 2001. Os demais se concentraram em 2004 e 2005 e os últimos apareceram em 2007 e 2008. Milton Hatoum escreveu grande parte dos contos de A cidade ilhada ao longo dos anos 90, exatamente entre os dois primeiros romances já citados.

A experiência vivida por Milton Hatoum contraria o enunciado pragmático do argentino Osvaldo Soriano, para quem “o escritor é um amador que publica numa revista, depois num jornal, e um dia junta os contos num livro e, talvez, até receba algum direito autoral”. O caso de Hatoum foi diferente, pois seu primeiro livro de contos somente foi lançado depois do sucesso de alguns romances da atual leva da ficção brasileira: Cinzas do norte e Órfãos do Eldorado.

Julio Cortázar assinalou em Valise de cronópio que o conto é “uma síntese viva, ao mesmo tempo que é uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência”, ou uma espécie de “alquimia secreta que explica a profunda ressonância que um grande conto tem em nós, e que explica também por que há tão poucos contos verdadeiramente grandes”. Leitor de Cortázar, decerto Hatoum incorporou a seu exercício criativo a referência que “um contista é um homem que de repente, rodeado pela imensa algaravia do mundo, comprometido em maior ou menor grau com a realidade histórica que o contém, escolhe um determinado tema e faz com ele um conto”.

Hatoum conta com a aprovação de um crítico como Luiz Costa Lima, que o relaciona entre os muitos “guerrilheiros” que conseguiram vencer as imposições industriais num país “sem política educacional e cultural”, conforme revelou à revista CartaCapital (29.4.2009). Hatoum seria, então, um representante do fenômeno intitulado por Costa Lima como “a secundidade da memória”, tendo em vista que “em lugar de a memória de suas narrativas ser voltada para trás ou para adiante, ele fala do Amazonas presente, do Amazonas de Hatoum, com a complexidade de escrita que o Bernardo Carvalho também tem”.

Os contos: entre a maestria e o contorno pueril

Dos 14 contos de A cidade ilhada apenas dois (Bárbara no inverno e Encontros na península), ambientados em Paris e Barcelona, fogem à temática amazônica recorrente também nos romances. Pelo menos seis contos do livro (Um oriental na vastidão; Dois poetas da província; O adeus do comandante; Manaus, Bombaim, Palo Alto; A ninfa do teatro Amazonas e A natureza ri da cultura) são de qualidade, merecedores, enfim, da láurea consignada por Cortázar às criações obrigatoriamente antológicas: “Todo conto perdurável é como a semente onde dorme a árvore gigantesca”. O ponto alto do livro, dir-se-ia com propriedade, está na narrativa Um oriental na vastidão, na qual a quintessência é o amor respeitoso e profundamente humanístico demonstrado por Kasuki Kurokawa, um cientista japonês especializado em biologia de água doce, professor aposentado da universidade de Tóquio, que um dia aparece em Manaus especialmente para tornar real um sonho acalentado desde a infância: viajar pelo rio Negro. O desfecho é que alguns anos depois o humanista realizou outro sonho, providenciando o envio de suas cinzas para serem espargidas num círculo de águas calmas, três horas de navegação rio Negro acima, num lugar chamado paraná da Paz.

Em Dois poetas da província Hatoum narra a última conversa entre dois intelectuais manauaras – Albano e Zéfiro – aquele ainda jovem e prestes a embarcar para Paris onde pretendia começar a vida de poeta, e este, octogenário, que jamais iria terminá-la, pois se julgava um poeta imortal. Sua paixão por Paris era pública e, não poucas vezes patética. O imortal cita nomes e lugares com uma familiaridade acima de qualquer suspeita, lembrando que ali mesmo naquele restaurante onde degustavam um peixe pescado no Negro, recepcionara há muitos anos os diletos amigos Sartre e Simone de Beauvoir. A conversa se estendeu, embora Albano estivesse com pressa. Finalmente se despedem. O ancião vai para casa, onde livros de poesia e manuscritos se atulham pelo chão, em meio a pilhas de velhos jornais e revistas francesas. Zéfiro começa a recitar poemas de Lamartine, Victor Hugo e Baudelaire. Repete nomes de logradouros parisienses e, fatigado, pousa os olhos no mapa da cidade que sempre sonhou conhecer, mas era tarde. “Bocejou, a cabeça oscilou e estalou no encosto”.

Foi Cortázar quem afirmou que “um bom tema é como um sol, um astro em torno do qual gira um sistema planetário de que muitas vezes não se tinha consciência até que o contista, astrônomo de palavras, nos revela sua existência”, mesmo que seja na longa tradição dos contos orais, tão presente nas províncias do centro e do norte argentinos. Eram as histórias transmitidas pelos gaúchos de noite à roda do fogo, “que os pais continuam contando aos filhos, e que de repente passam pela pena de um escritor regionalista”. Essa é a impressão que fica da leitura de O adeus do comandante, decerto uma das muitas histórias recolhidas do imenso acervo recontado pelos habitantes das margens dos rios amazônicos. Dalberto, comandante do Princesa Anaíra, na última viagem transporta um defunto para Nhamundá. Depois se viu que ainda era um jovem de feições delicadas. Dalberto levou o cadáver manchado de sangue para a sua casa. A mulher estava na igreja com as crianças. O narrador Moamede não sabe o que aconteceu. Dalberto diz apenas o necessário à empregada: “Quando tua patroa chegar acenda as velas e diga que tem visita nesta sala. E diga aos meus filhinhos que agora eles podem viver de cabeça empinada”.

Há humor no conto Manaus, Bombaim, Palo Alto, no qual um escritor de Manaus recebe a visita, em seu minúsculo e desleixado apartamento, de ninguém menos que um almirante da marinha indiana, Rajiv Kumar Sharma, interessado em literatura e em descobrir como vivia e trabalhava um escritor brasileiro. Na verdade, tratava-se de um jornalista chegado a uma boa galhofa, como se verá no final hilariante, apesar do comentário sucinto: Rajiv Kumar Sharma é um cronista que não costuma mentir. A reminiscência familiar reaparece em A natureza ri da cultura quando Emilie, a matriarca de Relato de um certo Oriente relembra os amigos Armand Verne e Felix Delatour, imbuídos do duplo ideal de preservar a cultura indígena (Verne) e divulgar o idioma francês (Delatour). Emilie os definiu: “Verne viaja no espaço, e Delatour, no tempo”. Para Delatour o que mais interessava era a aventura do conhecimento, ao passo que Verne “era um viajante incansável, um andarilho que colecionava lendas e mitos da Amazônia”.

Nos demais contos, encontrará o leitor um material de fácil fruição, temas que, no entanto, poderiam esboroar-se pelos contornos pueris como os do rito de passagem da primeira visita a um bordel, os fleumáticos vizinhos ingleses, os banidos da ditadura, ou,ainda, os sensuais dançarinos dos embalos de sábado à noite, numa cidade aos poucos subvertida pela “modernidade” da cultura industrial.