POESIA POLÍTICA HOJE

A emulação é um dos motores da nova literatura. Escritores em início de carreira frequentemente respondem ao repto do passado, buscando não só inspiração, mas também desafios. A barreira dos nomes eleitos, o sentido das práticas codificadas, tudo é posto em questão por meio da paráfrase, da paródia e, no melhor dos casos (como é este), da internalização dos procedimentos de reconhecido valor literário.

Está se tornando algo preocupante o fato de que me remetem poemas sem identificação de autoria. De modo que me pergunto se estaria eu sendo vítima de algum abuso. Porque bem pode ser que seja um mesmo e único poeta a enviar esses textos. Embora eu prefira acreditar que se trata de vários poetas, pertencentes a um mesmo grupo, um conjunto de estudantes e praticantes da arte da poesia, dispostos a testar sua perícia, submetendo a um crítico que não tem apego aos nomes como base da avaliação as suas criações.

A de hoje é essa e, se não estou em erro, o emulado da vez é o poeta Francisco Alvim, que já mereceu de críticos renomados análises memoráveis. No que diz respeito a Alvim, um dos poemas que mais impressiona, pelo poder de concisão e pelo que ele reproduz da singular ordenação da sociedade brasileira, é um que se chama MAS, e cujo texto é uma frase apenas: “é limpinha”. Como já se demonstrou, trata-se de um ideograma da cultura nacional: as donas de casa de classe média, exibindo seu desprezo pelas pessoas de classe baixa, ou pelas pessoas pobres em geral, ou ainda pelas pessoas não brancas, terminam alguma declaração desfavorável com essa adversativa com valor pleno de concessão.

A argúcia do poeta estaria não só em captar, com ouvido certeiro, a contradição, mas ainda em impô-la num dos lugares mais caros do imaginário burguês: o livro de poemas. Dá-lhe, assim, uma exposição com alcance crítico e promove um raio-X da deformação social brasileira, decorrente do escravismo tardio, mostrando a precariedade da modernização conservadora, que fixa o lugar periférico do país na ordem do capitalismo internacional – ou seja, do imperialismo.

Seria possível ainda discorrer muito sobre o poema de Alvim, inclusive sobre o uso preciso do diminutivo – suposta forma de afeição –, aqui usado no sentido próprio de diminuição, por meio do paternalismo que trata o inferior social como inferior biológico.

Mas, nesse ponto, seria trabalho vão, já que foi feito com exaustividade no último livro de Roberto Schwarz, em que aparece a terceira versão de um belo ensaio, cada vez mais aumentado na tentativa de dar expressão ao que vai embutido nas pílulas minimalistas do poeta.

Voltando ao poema em pauta, entendo que é uma resposta à altura não apenas da poesia de Alvim, mas também do esforço hermenêutico de seu intérprete, pois nele vem para primeiro plano outro lado da monstruosidade social brasileira: a truculência explícita da autoridade, que tem um parentesco de base com o “mas é limpinha”.

Se não estou em erro, ninguém lerá esse poema sem um estremecimento de medo. Quantos de nós já não ouvimos essa interpelação, vinda seja de um fiscal de trânsito, seja de um policial, seja mesmo de um professor? A frase provoca estremecimento porque não diz nada. O poder constrangedor da acusação possível, num estado autoritário, é maior do que o da acusação real. Como no caso dos processos da Inquisição, cabe aqui ao interpelado descobrir porque está sendo interpelado. Tudo o que o acusador faz é erguer um sinal de pare: Hei! – e depois indigitar diretamente a pessoa que parou: Você!

Fôssemos um país central, daqueles em que o liberalismo não se tingiu de excepcionalidade e de favor, a frase não funcionaria. Ninguém olharia para o lado de onde se ergue a interpelação. Exceto talvez na Itália, em Portugal, na Espanha, na Irlanda, na Grécia e nos arrabaldes de Paris. Mas aqui, quando todos estamos sujeitos à ação discriminatória, sim: a todos se dirige o Hei!, e todos podemos ser o Você!

Ao mesmo tempo, os fundamentos arcaicos da nossa sociedade se revelam na própria forma do poema: Hei é uma forma pouco usada, mas plenamente gramatical. Significa “tenho”. Assim, o grito “Hei, você!” tem ressonâncias numa sociedade escravocrata: eu tenho você, eu possuo você! A posse do homem pelo homem, o abuso escravagista, que se perpetua hoje na ordem capitalista, especialmente nos países da periferia.

De modo que também este poeta anônimo, com o seu genial poder de síntese, termina por ser, para glosar o título de um livro de um dos maiores intérpretes da condição fora-de-lugar do nosso liberalismo, um mestre do periferismo.

Formalmente, essas questões todas se tornam presentes com o recurso mínimo da utilização das maiúsculas e minúsculas. O HEI, que interrompe o destino do destinatário (e que também representa o lugar de autoridade de onde se anuncia a posse ou, ao menos, o direito de interpelar), vem em letras grandes, denotando a importância social do interpelante. Já o “você”, no caso, indica a posição subalterna, pois surge no lugar das expressões igualitárias como “senhor”, “senhora” e o desusado “senhorita”. Por isso mesmo, vem em minúsculas.

Por fim, é notável também que, aqui como nos poemas anônimos de caráter mais vanguardista que tenho recebido, a base seja uma só: Oswald de Andrade. O poeta modernista, ao escrever o memorável AMOR/HUMOR, estava certo: a massa ainda comeria do biscoito fino que ele fabricava. Constatação essa que só revela que a vocação da literatura nacional é mesmo a antropofagia, combinada com a intenção de alegorizar, por meio do contraste violento e da quebra das expectativas, as realizações particulares da torta combinação da forma moderna com conteúdo social arcaico, ou vice-versa. Até aqui tratamos do primeiro caso: do segundo (forma arcaica com conteúdo moderno) ainda precisaremos tratar, embora o assunto já esteja um tanto esgotado, pois é o que fez, à exaustão, ao que se diz, Machado de Assis.