Primos bem distantes

A coletânea Primos – histórias da herança árabe e judaica, organizada por Adriana Armory e Tatiana Salem Levy, nasceu de um ideal utópico: concretizar, na literatura, a fraternidade que a história insiste em manter no plano das ideias. As jovens escritoras, contudo, esqueceram-se de que as palavras não têm esse poder – seja no que se refere à frágil literatura, seja no que concerne à diplomacia, arte do diálogo tantas vezes errático. E não se recordaram também que, diferente de suas falsas certezas, tão ao gosto da demagogia que hoje impera no país, o Brasil, analisadas com um passar de olhos as estatísticas sobre desigualdade social e violência, está longe, muito longe de ser a “terra prometida […]: a terra da palavra, onde o diálogo e o sonho se refazem e podem se tornar realidade”.

Irrealidades e sonhos à parte, o leitor que se ativer ao que realmente importa – aos contos, à literatura despojada de pretensões políticas ou solidárias – terá boas surpresas.

 

Problemas

Formando com Eliane Ganem, autora do conto “A filha única do filho mais velho”, o trio problemático da coletânea, temos “Sonâmbulos”, de Whisner Fraga, e “Travessia”, de Márcia Bechara. O primeiro narra a cisão de uma família árabe que não se resolve nem mesmo com a morte do primogênito: sua filha, a narradora, abandonada por tios e primos, precisa pedir ajuda a amigos para carregar o caixão. O texto é contaminado de cacofonias – a autora não se esforça ou não consegue se libertar da embaraçosa rima em “ão” –, exala certa ladainha piegas – os braços paternos acariciavam a filha “como as borboletas saltitam no jardim de margaridas” – e termina com a desgastada e populista imagem de uma solidariedade “planetária”.

“Sonâmbulos” é regido por uma linguagem empolada, por meio da qual o narrador pretende conceder caráter inusitado a aspectos triviais do cotidiano. Assim, o aroma de um pernil assado não se espalha pela casa, mas passa a “atracar nas gretas dos cômodos” e parentes indesejáveis se transformam em “argolas de um parentesco nos arrastando para a alucinação das afinidades”. Dirigindo-se a sua interlocutora, em certo momento o narrador talvez a tenha decepcionado duplamente ao confessar: “[…] não era sempre que o odor de sua vulva me avivava os rejuntes da glande”; e o mesmo gongorismo pretende conceder características epopeicas a uma questão banal: “há vários dias um resfriado sacudia o dédalo de minhas tripas e eu não conseguia expulsar o cocô que se enfileirava em todas as furnas dos intestinos e tencionava pedir um auxílio divino para me livrar daquele suor mineral que alagava minhas camisas sempre que visitava o banheiro”. O anseio de, por meio de tais figuras, despertar na linguagem forças supostamente adormecidas, transforma-se, derrotado pelo excesso, em um exercício inócuo. Aliás, apenas a título de ilustração, Whisner Fraga e José Luiz Passos, autor de Nosso grão mais fino, que critiquei [1] há alguns meses, têm estilos cuja semelhança chega a ser atroz.

De uma patologia semelhante sofre o conto de Márcia Bechara, no qual encontramos imagens gratuitas, plantadas de maneira desconexa, ou mera inadequação vocabular. Como a “vocação belicista e confessional” de uma bisavó pode se transformar em um “sentimento assobradado pela imensidão cáustica” do bisneto recém-nascido? Uma jovem – que, aliás, desaparece misteriosamente no meio do conto – troca de navio para seguir viagem e o narrador destrambelha: “Desceu do antigo navio e arremeteu-se para o outro em correria louca […], mas ela estava livre naquele momento e para sempre se lembraria dessa liberdade, essa disneilândia, esse furor de pirataria, essa saia roçando a perna em alto-mar, esta tecnologia, este horizonte que nos contamina e não nos abandona mais”. E o que dizer do personagem que possui “a composição pétrea dos insetos”? Munidos de boa vontade, talvez fosse possível descobrir alguma ironia neste último trecho, mas, terminada a leitura, depois que o protagonista da segunda parte se mata repentinamente por um motivo tolo, fica-se com a impressão de que alguns escritores são inocentes a ponto de acreditarem que as palavras, apenas justapostas, sem concatenação adequada, podem expressar todo o imaginável.

 

Nem frios nem quentes

Classifico o segundo grupo de narrativas como morno. São histórias curiosas, quase sempre bem escritas, mas às quais falta intensidade ou carga dramática. Em “Espinosa se deita”, de Adriana Armory, a ideia sugestiva de conceder a uma cama o papel de narradora – cama, aliás, que incorpora lições da filosofia spinoziana e chega a analisar a si mesma – transforma-se, pela falta de conflitos palpáveis, mais em uma crônica autobiográfica ou memorialística do que em um conto. “Uma fome”, de Leandro Sarmatz, apresenta um tema emocionante – dramas pessoais e familiares irresolutos explodem na forma de delírios e da anorexia – que se dilui, contudo, em circunlóquios. Problema semelhante ocorre em “Trinta. Ou mais”, de Salim Miguel, cujo narrador titubeia, sem jamais encontrar o tom adequado, entre o cômico e a rememoração neutra das aventuras paternas. Carlos Nejar contribui com uma alegoria brevíssima e hermética – “Xerezade, ou A infância das formigas” –, enquanto seu filho, Fabrício Carpinejar, igualmente lacônico, concebe a crônica na qual um narrador recorda, sem grande espirituosidade, certo acontecimento da infância. Em “O homem que libertou a morte”, Georges Bourdoukan tenta recriar o caráter maravilhoso das narrativas lendárias, mas não empolga – e encerra dizendo, como a justificar a apatia do leitor: “Mas a nossa história não termina aí”. Fechando este grupo, “O último profeta”, de Samir Yazbek, é peça teatral em que João Batista e um discípulo debatem sobre a figura polêmica de Jesus: segui-lo ou não? Angústias, certezas e decepção se alternam, formando um quadro de dúvidas teológicas e humanas que talvez fique perfeito quando encenado.

 

Os melhores

Para felicidade dos leitores, os melhores contos formam o maior grupo. “De canibus quæstio”, de Alberto Mussa, mescla história, etimologia e pesquisa quase detetivesca para criar um labirinto de informações que a princípio desnorteia, depois seduz, e finalmente perturba. “A última noite”, de Flávio Izhaki, reconta, por meio de diferentes narradores, que expressam os mais opostos sentimentos, os minutos finais e dramáticos do cerco de Massada, quando os judeus se autossacrificaram para não cair sob o poder dos romanos. Em “Os funerais de Baruch Weizman”, Alexandre Plosk leva a narrativa do aparentemente trivial ao cômico, criando a seguir, atento aos detalhes, uma atmosfera na qual o fantástico domina – tudo para construir a alegoria perfeita de uma nação que, apesar de amputada, dispersa pelo mundo, se mantém unida.

O humor prevalece em “Cessão de campa”, “Ungido feito um rei” e “Efsher”. No primeiro, de Bernardo Ajzenberg, um jovem, que também é o narrador, vê-se envolvido em uma considerável encrenca; com timing preciso, ele nos leva a um passo do seu fim, quando acontece o inesperado. Cíntia Moscovich, que assina a segunda narrativa, escolhe um caminho diverso, mais sutil, profundamente irônico. Saul, o filho quarentão que acredita desejar a independência da mãe possessiva – figura maravilhosa, que nos recorda a mãe judia do episódio dirigido por Woody Allen em Contos de Nova York –, vê seu sonho se realizar, mas da pior maneira. A autora compõe o quadro de uma relação edipiana, sem dispensar os pormenores que revelam seu trabalho acurado: o comportamento do gato Mishmash, o “taillerzinho verde-água” ou a expressiva lâmpada queimada no letreiro da ferragem. No terceiro conto, Arnaldo Bloch cria um diálogo perfeito – às vezes hilariante, às vezes melancólico – entre o pai doente, que deseja morrer, e o filho que tenta motivá-lo a não desistir. As falas se sucedem em um ritmo tão verossímil, com tal naturalidade, que parecem a transcrição exata de um fragmento da vida.

O incongruente narrador de “Na minha suja cabeça, o Holocausto”, de Moacyr Scliar, fantasia sobre os fatos – e ao fazê-lo, dizendo a si mesmo quão absurda e malévola é sua imaginação, enfatizando de maneira crescente o que diz ser fruto de suas ideias pervertidas, radiografa de maneira severa, com irônico detalhismo, a loucura e a sujeira da realidade. Luiz Antonio Aguiar recria uma das histórias de Mil e uma noites na narrativa “Arroz com lentilhas”, mas também oferece uma aula de gastronomia, certo estudo conciso e sensível sobre as relações humanas e, nas páginas finais, um adorável exercício de lirismo. O curto “Shabat”, de Tatiana Salem Levy, sintetiza a perda dramática da memória e da tradição com a força de uma sentença desoladora e implacável.

Uma única narrativa enfoca o ódio entre árabes e judeus: “Uns e outros”, de Julián Fuks. Por meio de uma linguagem sóbria e circunspecta, na qual os períodos adquirem o ritmo de marchas fúnebres, o narrador cria a atmosfera em que o trágico se impõe da primeira à última linha, opondo à impessoalidade com que se refere aos dois lados do drama – pois a violência rebaixa todos à anonímia – o encontro, jamais testemunhado, entre dois seres que, por um momento, recriam a solidariedade. E o faz sem pieguices, sem quimeras, veemente em sua recusa das soluções fáceis, golpeando o leitor com a imagem final, que recria a despersonalização absoluta provocada pela guerra. Texto belo e corajoso, por um breve momento me fez acreditar que as palavras talvez não sejam tão frágeis como afirmei no primeiro parágrafo.