Produções Poéticas com o(s) computador(es)

Resumo: Este comunicado aborda as produções poéticas realizadas com o(s) computador(es) a partir dos anos 50 até os dias de hoje, apresentando algumas tipos de poesia em relação direta com a tecnologia computacional usada em determinado momento: poesia artificial cibernética,  poesia-computador, infopoesia, poesia hipermídia, poesia-internet e poesia-código. Uma série de exemplos no Brasil e em outros países acompanha cada tipo de produção poética.

Palavras-Chaves: Literatura e Tecnologia. Poesia e Tecnologia. Poesia eletrônica.

 

Introdução

Este comunicado aborda alguns tipos de produções poéticas com o(s) computador(es), que serão apresentadas em alguns tipos de poesia, de acordo com as negociações semióticas ocorridas entre a poesia e determinado tipo de tecnologia computacional em certo momento.
São manifestações realizadas individualmente ou por grupos de poetas experimentais, mas representam uma espécie de movimento internacional, iniciado a partir do desenvolvimento da Internet e da WWW e reforçado pelas exposições, congressos, festivais, colóquios e encontros nacionais e internacionais.

Admitir que a poesia também participa das novas mídias e continua o seu percurso criativo é considerar que o poeta também existe e cria na cibercultura e, para isso, interage com e intervém nos meios com os quais convive, produzindo novas formas poéticas. Entendê-la e  apreciá-la como uma das manifestações da cibercultura é uma forma de podermos compreender o mundo contemporâneo em suas mais variadas expressões, à semelhança do que fazemos ao estudar outras manifestações poéticas dos séculos anteriores.

Esse tipo de poesia, que foi denominada de poesia das novas mídias por Eduardo Kac, insere-se no campo das poéticas experimentais, ao mesmo tempo em que se distancia das conquistas formais de outros grupos ou movimentos do século XX. Das aproximações racionais ou não-racionais dos movimentos de vanguarda da primeira metade do século (incluindo futurismo, cubismo, construtivismo, dadaísmo e letrismo) até as direções com base em material impresso da segunda metade (incluindo espacialismo, concretismo, L=A=N=G=U=A=G=E, beat, poesia visual, fluxus, e poema-processo), as poéticas experimentais têm visto uma implacável exploração do signo verbal no “código do espaço” (codexspace), para usar um termo introduzido por John Cayley” (KAC, 1996, p. 98).

Essas produções poéticas com o(s) computador(es) podem ser conceituadas como um tipo de poesia contemporânea – formada de palavras, images/stories, sons e animação, que constituem o texto eletrônico – que se realiza no espaço simbólico do computador, da Internet e da Web, tendo como forma de comunicação poética os meios eletrônico-digitais que se vinculam a esses componentes. De um modo geral, ele só existe nesses meios e só se expressa, em sua plenitude, através deles.

Ainda acerca do tema, faz-se necessária uma referência também a outras denominações gerais, como as de tecnopoesia, baseadas em Funkhouser (1994) e Davinio (2002), poetécnicas ou poéticas digitais (PLAZA; TAVARES, 1998). E produções poéticas com as novas mídias também traz à mente processos criativos com os meios eletrônicos: poéticas digitais, título da obra de Plaza e Tavares (1998).

Para um tema bastante abrangente, uma delimitação é importante: produções poéticas com o(s) computador(es), produções da poesia eletrônica, tipos de poesia eletrônica, ou, mesmo, categorias da poesia digital, uma vez que poesia eletrônica (GLAZIER 2002)e poesia digital (BLOCK: HELBACH; WENZ, 2004) são as denominações de uso mais corrente.

O uso do singular e do plural indica o tempo dos computadores isolados e a era dos computadores em rede (Internet e WWW), pois há dois momentos das negociações da poesia com a tecnologia computacional: uma poesia que é feita no espaço simbólico do computador e uma poesia que passa a ser feita na rede de computadores, ou seja, no espaço simbólico dos computadores. A primeira limita-se a apresentar o resultado em forma impressa e/ou no monitor; a segunda, por ser hipertextual, hipermidiática e animada, é apresentada de forma não linear nos mais diferentes monitores dos computadores ligados em rede e sofre as variações e limitações características desses receptores, sendo muito reduzida e incompleta a possibilidade de reprodução no meio impresso.

Não estamos abordando as diversas migrações da poesia verbal e visual para os meios eletrônico-digitais, aquelas publicações eletrônicas pessoais e coletivas (revistas, blogs, sítios pessoais, etc.) que são apenas poesia impressa circulando em meios digitais, graças à facilidade e custo baixo oferecido pela Internet e pela Web.

 

POESIA CONTEMPORÂNEA

Podemos ler poesia nos livros, ir apreciá-la em eventos performáticos, ouvi-la do próprio poeta ou em algum aparelho eletrônico, tocá-la e vê-la em algumas instalações poéticas, e também “lê-la” ao computador, acessando um cd-rom, DVD, disco flexível, Internet ou web.
Antigamente íamos a saraus e assistíamos a declamações acompanhadas de um instrumento musical como o piano. Alguns poetas aproveitavam as reuniões sociais (teatro, ópera, clubes, reunião de amigos, etc.) para fazer da poesia um evento de divulgação de idéias revolucionárias, ou algumas experimentações poéticas.

A poesia falada pelo próprio poeta ou por um intérprete pôde ficar registrada nos gravadores de sons a partir dos anos 50 (fita cassete, disco vinil, cd, dvd, etc.) e ser divulgada posteriormente, a exemplo dos livros impressos. Também a poesia falada pôde ser transmitida, ao vivo ou gravada, através do rádio, do filme, da televisão e do vídeo.

Com muito alarde, as vanguardas históricas nos trouxeram as mais diferentes formas de fazer poesia, que até hoje vêm sendo re-utilizadas nos mais diferentes meios.

Os poetas escreveram isoladamente e também publicaram obras experimentais individuais, como Cent Mille Milliards de Poèmes (Raymond Queneau, 1961) e coletivas, como O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo (Oswald de Andrade, 1918), e outros.

As artes, a ciência, a técnica e a tecnologia trouxeram novas inspirações ao poeta, que decidiu intervir nesses outros fazeres e transformá-los em poesia. A imaginação do poeta e a sua capacidade de negociação com as tecnologias são notáveis e surpreendentes ao longo do tempo. Vem-nos à mente o banquete de Camões servido com trovas (século XVI) e a instalação “Festim de Camões” (Regina Vater, 2002). A poesia com recursos matemáticos do Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle) e o Cente mille milliards de poèmes (Raymond Queneau, 1961). A PO.EX/80 (Poesia Experimental Portuguesa) na qual poemas foram criados, a partir das medidas dos visitantes voluntários, obtidas em uma fita létrica (o poeta trocou os números da fita métrica por letras) (E. M. de Melo e Castro, 1980). E as primeiras experiências de Théo Lutz fazendo “auto poems” e “stochastische texte” com um programa de computador (1959). E muitos outros exemplos.

A poesia hoje pode ser apreciada pelo olhar, já que a visualidade também faz parte dela. Antes era formada apenas de palavras que evocavam sons e images/stories (logopéia, fanopéia, melopéia, de Pound). Palavra que evoca a imagem, depois ela própria vai ser tornando imagem na folha de papel (ou no espaço tridimensional da instalação ou da performance). A busca constante leva à inclusão da imagem visual que se junta, ou não, à palavra, para se transformar em poesia visual, para ser lida, vista e ouvida, tornando-se um texto verbi-voco-moto-visual ou verbo-áudio-moto-visual (MACHADO, 2000, p. 209).

Como uma das manifestações artísticas da cibercultura centrada na palavra em suas mais diferentes formas e significações, essa poesia contemporânea pode ser vista sob cinco ângulos, todos eles de certa forma centrados naquilo que podemos denominar de artes da palavra (DORFLES 1998): poesia verbal que circula nas publicações impressas e eletrônicas; poesia visual que estabelece relações com a visualidade (artes visuais, design, infografia, pintura, etc.); poesia tridimensional, que é produzida nas performances e instalações, datada, momentânea, mas estimuladora de outras reações; poesia sonora que adentrou os meios eletrônico-digitais, para permanecer como sonoridade e musicalidade, uma poética da voz; e poesia eletrônica que passou a usar a linguagem eletrônica como forma de comunicação poética.

Parafraseando Funkhouser, podemos dizer que a poesia hoje caminha para fora de si mesma, do seu foco principal de atuação (arte da palavra e meio impresso), rumo a uma interação com os campos das artes, da ciência e da tecnologia no meio digital.

Dois poemas verbais podem corroborar nossas afirmações: “Máquina”, de E. M. de Melo e Castro, de 1950, e “a letra”, da década de 60, de Joan Brossa (1919-1998):

MÁQUINA
Luzes de mais
ofuscam os meus olhos.
Luzes de menos
fazem-me doente.
Dêem-me um dispositivo automático
para regular o sol
ao nascer, ao zênite e no poente.  (CASTRO, 1990, P. 13)

L´idioma de la poesía visual és
com l´esperanto.
El llenguatge literari
ha deixat de ser l´unic
vehicle apte per a
incloure continguts i formes poètics.

O idioma da poesia visual é
como o esperanto.
A linguagem literária deixou
de ser o único veículo
apto a incluir conteúdos e
formas poéticas.                   (BROSSA, 2005, p. 17)

Também nos ocorrem à mente os seguintes poemas visuais e eletrônicos: “Poema”, de Joan Brossa (Espanha, 1967), “Az cor”, de E. M. de Melo e Castro (São Paulo, 1996-1999) e “Orfeu”, de Elson Fróes (São Paulo, 1998):


Figura 1 – Joan Brossa – Poema (1967) (BROSSA 2005, p. 107)



Figura 2- E. M. de Melo e Castro – az cor séries 1, 2, 3 e 4 (1996-1999)
(CASTRO, 2000, p. 327).


Figura 3- Elson Fróes – Orfeu (1998) (FRÓES 1997, p.s.n.)

A energia elétrica, surgida no século XIX, trouxe a luz do dia para a noite e propiciou novas visões à poesia.

A letra trouxe images/stories ao poeta contemporâneo a partir do uso do cartaz publicitário no início do século XX e ofereceu outros recursos à poesia visual, graças à facilidade de experimentação oferecida pelos programas computacionais.

O passado olha para o futuro. O poeta contemporâneo dialoga com o poeta antigo na busca de novos recursos científicos e tecnológicos para a comunicação poética.

 

TIPOLOGIA DA POESIA ELETRÔNICA

Pretendemos apresentar alguns exemplos desses tipos de poesias e optamos por um enfoque cronológico. Com isso, será possível mostrar alguns exemplos de poesia eletrônica no Brasil e em outros países. Será uma rápida navegação no tempo e no espaço, bastante resumida.
Nesse percurso histórico, parece-nos importante mostrar alguns exemplos das relações entre os poetas e as tecnologias computacionais da época de sua experimentação. Para isso, preferimos usar alguns conceitos gerais de poesia eletrônica para facilitar o entendimento:

 

POESIA ARTIFICIAL CIBERNÉTICA OU TEXTO ESTOCÁSTICO

Max Bense (1975) usou o conceito “poesia artificial” (poesia feita por meios mecânicos), em oposição ao de “poesia natural” (consciência poética pessoal), para, em seguida, designar “poesia artificial cibernética” aquela que era “feita” por meio de um programa de um computador. A primeira experiência foi denominada de “texto estocástico” e “autopoema”. É o período de experimentações poéticas com os grandes computadores em laboratórios de universidades ou de empresas de grande porte.

Esse tipo de experimentação baseava-se no mito do robô-poeta ou do computador criativo – a máquina-de-fabricar-obras-de-arte, a tradução automática, a compreensão da linguagem natural, o computador inteligente e o homem artificial (BARBOSA, 1996, p. 39) -, baseado nas idéias de que o computador era um cérebro eletrônico que substituiria o homem. Fazer poesia num computador era a utopia do momento.

 

COMPUTER POETRY, POESIA-COMPUTADOR, POESIA DO PC

Em meados de 70, com o surgimento dos computadores pessoais, a indústria da informática precisou popularizar esse produto e criou programas de fácil entendimento e manuseio. Houve uma vulgarização de linguagens de programação, como o BASIC, que se tornaram acessíveis aos não especialistas.

O computador dessa época era acoplado a um televisor normal e a um gravador de cassetes áudio. Só posteriormente é que serão utilizados os disquetes.

Barbosa denomina de “poesia doméstica” a esse tipo de produção poética, e, para ele, “emerge um novo meio de transmissão da literatura por computador: o próprio programa” (1996, p. 149).

Boa parte dessa poesia pode ser feita ou reproduzida nos computadores atuais. Alguns programadores vêm resgatando esse tipo de poesia e muitas deles estão disponíveis em sítios.

 

POESIA INFORMACIONAL, INFOPOESIA, NOVA POESIA VISUAL

A partir da década de 80, com o surgimento dos computadores pessoais ou PCs, surge um tipo de interação entre poeta e computador, que representa, de certa forma, uma migração da poesia visual para os meios computacionais, uma vez que começam a ser utilizados os editores de imagem. E. M. de Melo e Castro, um dos experimentadores desse tipo de poesia, denominou-a, em muitos dos seus estudos teóricos, de infopoesia (CASTRO, 1988, p. 58-63).

Ainda há poetas que utilizam editores de images/stories, como o Adobe Photoshop, para a produção de infopoesia.

 

POESIA HIPERTEXTUAL, POESIA-REDE, POESIA MULTIMÍDIA E POESIA HIPERMÍDIA

O surgimento de programas de hipertexto ofereceu um material para uso na poesia e nas narrativas. O conceito de hipertexto, cunhado e desenvolvido por Theodor Holm Nelson, permitiu leituras não lineares e não seqüenciais e isso vem sendo aproveitado na poesia.

Há uma poesia hipertextual que foi elaborada inicialmente apenas com textos e pareceu-nos adequado separá-la da poesia que utiliza a fusão de outros meios, embora também se utilize dos sistemas hipertextuais, como é o caso da poesia hipermídia.

A união da palavra, do som, da imagem e da animação num único meio ofereceu novos recursos à poesia. É o tipo de produção poética mais utilizado nos sítios eletrônicos. Hoje confunde-se poesia hipertextual com poesia hipermídia na maior parte dos casos.

 

POESIA-INTERNET

O desenvolvimento e a propagação da Internet ofereceram um intercâmbio entre poetas dos mais diferentes países. A comunicação foi possível graças ao uso generalizado da língua inglesa.
Muitos poetas e grupos de poetas se organizaram para fazer circular suas poesias eletrônicas via Internet. Esse tipo de atividade ainda continua.

É uma poesia que circula entre os membros de um grupo eletrônico e somente em alguns casos é que ela fica disponível na web.

 

CODE POETRY, POESIA-CÓDIGO

Trata-se de uma poesia que usa as mensagens de erro dos e-mails, a própria linguagem de programação, o código fonte do HTML, ou seja, trabalha com os códigos sem relação com o significado deles.

Outras categorias poderiam ser listadas e muitas outras virão com o desenvolvimento de novas tecnologias e novas negociações poéticas.

 

EXEMPLOS COMENTADOS

Para exemplificar as categorias apresentadas, escolhi uma pequena antologia internacional para fazer alguns comentários, assim o (ciber)leitor terá uma visão panorâmica das produções poéticas com o(s) computadores.

E vamos começar, então, no que é considerado o berço da poesia eletrônica: Stuttgart, Alemanha, 1959. Primeiro tempo, época dos computadores que ocupavam grandes salas. Trata-se de um ZUSE Z 22.

Theo Lutz, aluno de Max Bense, produz um texto estocástico: selecionou cem palavras do romance O Castelo, de Franz Kafka, elaborou um programa para produzir frases com esse estoque de palavras, cujo pequeno exemplo apresento abaixo (2)[a();2]:

Nach Franz Kafka – Theo Lutz – 1959

NICHT JEDER BLICK IST NAH. KEIN DORF IST SPAET.
(Nem cada olhar está próximo. Cada aldeia está atrasada.)
EIN SCHLOSS IM FREI UND JEDER BAUER IST FERN. (idem)
(Um castelo em liberdade e cada camponês está distante.) (LUTZ [1959], p.s.n.)

Lutz prova que o computador não somente faz cálculos, mas também produz frases. O que caracteriza esse tipo de produção poética é o estranhamento das frases-versos, em virtude da combinação aleatória de palavras que compõem cada estrutura de frase.

Eis os primeiros parágrafos de O Castelo, em tradução portuguesa, com cerca de 150 palavras, para permitir alguns comentários:

A noite já ia adiantada quando K. chegou. A aldeia jazia mergulhada na neve espessa. Nada se via do monte de Castelo, envolvido pela névoa e pela escuridão, e nem a mais tênue luzinha deixava adivinhar o grande Castelo. K. deteve-se longamente na ponta de madeira que ligava a estrada à aldeia a contemplar o vazio aparente.

Depois foi em busca de alojamento. Na estalagem ainda estavam a pé. O estalajadeiro não tinha realmente nenhum quarto para alugar, mas, extremamente surpreendido e embaraçado com o hóspede tardio, pretendia que K. dormisse na sala em cima  de um colchão de palha. K. concordou. Alguns aldeões entretinham-se ainda a beber cerveja, mas K. não queria conversar com ninguém. Foi ele próprio buscar o colchão ao sótão e deitou-se perto do fogão. Estava quente, os aldeões estavam calados, observou-os ainda um pouco por entre os olhos sonolentos e depois adormeceu. (KAFKA, s.d., p. 9)

A escolha de um trecho de Kafka indica que o ponto de partida foi um texto literário, portanto, portador de metáforas. O texto “produzido”, além de ter uma certa atmosfera poética, próxima do texto de Kafka, provocou bastante estranhamento pela fusão de significados muitas vezes não usuais, mesmo em textos poéticos.

Dentre os primeiros poetas informacionais, está o italiano Nanni Balestrini, que publicou “Tape Mark I” em dezembro de 1961 no Almanacco Letterario Bompieni 1962 (3)[a();3]. O poema foi obtido tendo como ponto de partida três trechos pré-existentes:

– uma frase extraída da crônica sobre Hiroshima:

A ofuscante esfera de fogo expande-se arapidamente, trinta vezes mais luminosa que o Sol, e quando alcança a estratosfera o cume da nuvem assume a pavorosa forma de um cogumelo. (BALESTRINI in BARBOSA, 1996, p. 51)

– um fragmento da poesia de Paul Goldwin:

A cabeça comprimida contra as espáduas
os cabelos entre os lábios
jazeram imóeis sem falar
até que os imóveis dedos lentamente procurando estrangular (idem, ibidem)

– uma sentença de Lao Tsé:

Enquanto a multidão das coisas acontece
eu contemplo o seu regresso
mau grado as coisas floresçam
regressam todas às suas raízes. (idem, ibidem)

Usando um computador IBM, Balestrini chegou a 3002 combinações e selecionou algumas frases/versos que compõem o “Tape Mark I”. Eis a primeira estrofe do poema computacional:

La testa premuta sulla spalla, trenta volte
piú luminoso del sole io contemplo il loro ritorno,
finché non mosse le dita lentamente e mentre la moltitudine
delle cose accade, alla sommità della nuvola
esse tornano tutte alla loro radice e assumono
la ben nota forma di fungo cercando di afferrare (BALESTRINI 2004).

cuja tradução é:

A cabeça comprimida contra as espáduas trinta vezes
mais luminosa que o Sol eu contemplo o seu regresso
até que os imóveis dedos lentamente enqaunto a multidão
das coisas aconteceo cume da nuvem
regressem todas às suas raízes assume
a pavorosa forma de cogumelo procurando estrangular (BARBOSA, 1996, p. 52)

A experimentação de Balestrini é mais complexa do que a Lutz e teve como fontes três textos de diferentes conteúdos, embora todos eles de caráter metafórico, ou seja, produtores potenciais de poesia.

Um dos pioneiros brasileiros na poesia informacional é Erthos Albino de Souza (1932-2000), com “Le Tombeau de Mallarmé”, de 1972:


Figura 4- Erthos Albino de Souza –  Le Tombeau de Mallarmé (1972) (SOUZA, 1991, p.s.n.)

Erthos, que foi engenheiro da Petrobrás, partiu de um programa de distribuição de temperaturas que ele elaborou para fazer uma intervenção nessa tecnologia computacional: ao invés de números, o poeta colocou as letras que compõem a palavra “Mallarmé”, aplicou o programa num fluido aquecido que corre no interior de uma tubulação e obteve diferentes desenhos das diversas temperaturas obtidas. Esses desenhos lembram, simbolicamente, o túmulo de Mallarmé.

“Geometrias Variáveis”, de E. M. de Melo e Castro (Portugal), é um exemplo de infopoesia: o experimentalismo poético oferece uma imagem formada de palavras, numa tentativa de romper os limites entre palavra e imagem. Algumas palavras tornaram-se images/stories numa “geometria” especial.

 


Figura 5- E. M. de Melo e Castro – Geometrias Variáveis (CASTRO, 1998, p. 69)

Outro exemplo é “S having a Bird”, de Jim Andrews (Canadá), que procura realizar um diálogo entre a imagem e a palavra, conceito que ele desenvolveu como “lingu(im)age”:

S Having a Bird – http://www.vispo.com/A/s.html

Nesse caso, significado “S Having a Bird” e a imagem dialogam semanticamente no meio computacional. Para Jim Andrews é uma “visual poetry” ou “vispo”.

Um exemplo da “poesia do PC” é o “computer poetry”, da década de 80, de Silvestre Pestana (Portugal):

Figura 6 – Silvestre Pestana – Computer Poetry (1981) (AGUIAR e PESTANA, 1985, p. 214)

Utilizando o programa BASIC, o poema pode ser reproduzido no computador do usuário, ou ele próprio pode criar outra seqüência do seu interesse. No caso de Silvestre Pestana, trata-se de um poema concreto, a partir de um jogo visual entre as palavras povo, novo, ovo e dor, de efeito visual agradável no monitor.

Para abordar a poesia hipertextual, opto por apresentar exemplos de Jim Rosenberg (EUA) e Ladislao Pablo Györi (Argentina) porque os considero como pioneiros ou “precursores” da poesia hipertextual (4)[a();4]. É que a obra de ambos inicia uma sintaxe espacial que aponta para o hipertexto: Rosenberg usa sinais matemáticos que ligam palavras numa seqüência não linear num texto impresso e faz isso por meio de programas computacionais, enquanto Györi trabalha de forma semelhante, criando palavras tridimensionais no monitor do PC, trabalhando com esculturas virtuais de letras e palavras.

Eis um diagram poem
http://www.well.com/user/jer/diags4/d4.1.html
no qual o autor usa a sintaxe espacial para oferecer  diferentes leituras não seqüenciais ao ciberleitor.

Rosenberg e Györi podem ser considerados (esse é nosso ponto de vista) como pioneiros da poesia hipertextual porque ambos conseguem criar uma sintaxe espacial bidimensional (Rosenberg) e tridimensional (Györi) e propõem uma seqüência não linear de leitura, à semelhança do conceito de Nelson, para quem o hipertexto é “uma escrita não sequencial – um texto que se ramifica e permite escolhas ao leitor, que serão melhor lidas numa tela interativa” (1992, p. 0/2).

Györi explora a palavra como escultura virtual e denomina de “poesia virtual” a sua intervenção poética na tecnologia computacional:

Figura 7 – Ladislao Pablo Gyôri – Poema Virtual VP 12 (GYÔRI, 1995, p.s.n.)

Atuando de forma semelhante, e mesmo denominando de poesia diagramática, André Vallias (Brasil), em Antilogia Laboríntica (1997) oferece um exemplo de hipertexto:

www.refazenda.com.br/aleer/

A partir das letras A L E E R, cada leitor-operador pode fazer o percurso de sentido que quiser. No caminho, encontrará poemas, verbetes de enciclopédia, conceitos, images/stories, etc.
Um aspecto interessante do uso criativo e poético do recurso das janelas “pop up” são os “Pop-up poems”, de Jim Andrews (Canadá) – 1996/1998:

http://vispo.com/popups/popups.htm

A personificação da janela pop-up oferece um diálogo com a linguagem do web design.
“Firefly”, de Deena Larsen (EUA) é um exemplo de um poema hipertextual:

http://www.poemsthatgo.com/gallery/fall2002/firefly/index.html

“Scalpoema”, de Joesér Alvarez (Brasil), é um exemplo de releitura literária, intertexto, que se transforma num poema hipermídia:

http://geocities.yahoo.com.br/scalpoema/index.html

O texto de abertura de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, faz um diálogo de images/stories, sons e animação.

Dois exemplos de poesia-internet poderiam ser apresentados: o New Padin’s Spams Trashes, de Clemente Padin (Uruguai), que foi publicado em cd-rom em 2002, e participou do Emoção Artificial 2.O Divergências Tecnológicas, no Itaú Cultural em 2004; e a obra Poem for Echelon, de Jaka Želesnikar (Eslovênia), de 2001, um protesto poético contra a rede anglo-americana de espionagem internacional.

Poem for Echelon – Jaka Želesnikar (2001)
www.jaka.org/2001/echelon/index.html

New Padin’s Spams Trashes – Clemente Padin (2002)
http://www.iis.com.br/~regvampi/spams_trashes/

Eis dois exemplos de “code poetry”:

VITA4PM, de Ted Warnell (Canadá) (2000):
http://warnell.com/real/vita_4pm.htm

Ted Warnell (Canadá) Steve Duffy (Inglaterra) Millie Niss (EUA),
Carolyn Guertin (EUA) Jorge Luiz Antonio (Brasil) (2001):
http://warnell.com/syntac/exec.htm

Há muitos outros exemplos de diferentes produções poéticas com os computadores. Os poetas aqui apresentados apresentam uma espécie de equilíbrio quanto à qualidade da poesia, da arte e da tecnologia.
Como disse Chris Funkhouser, durante um encontro em outubro de 2002, quando eu lhe perguntei qual era sua afinidade com a tecnologia computacional: Sou poeta, em primeiro lugar. A tecnologia me oferece novos meios de expressar a poesia do meu tempo.

 

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Referências

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[1] Professor universitário, pesquisador, mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC SP, autor de Almeida Júnior através dos tempos (1983), Cores, forma, luz, movimento: a poesia de Cesário Verde (2002), Ciência, Arte e Metáfora na Poesia de Augusto dos Anjos (2004), Poesia eletrônica: negociações com os processos digitais (2008, no prelo), além de artigos publicados em revistas impressas e eletrônicas nacionais e internacionais.

[2] Os interessados em verificar os procedimentos de Theo Lutz podem acessar “Stochastische Texte”: http://www.stuttgarter-schule.de/lutz_schule.htm.

[3] Uma versão do poema em italiano encontra-se em: http://www.unibuc.ro/eBooks/filologie/derer/balestrini/1.htm

[4] O termo e o conceito de hipertexto foram cunhados por Theodor Holm Nelson a partir de 1960.