Publique e pereça: a poesia brasileira hoje

Num plano geral, a literatura feita hoje tem muito de incômodo. Uma grande sala de estar onde todos exibem sua galhardia e o fino trato com o parceiro (ou seria cúmplice?). Críticos, resenhistas, leitores, editores, poetas alternam-se em cada posto. Ora o papel de crítico se cumpre aqui para não faltar um leitor adiante, ora um editor em silêncio para o mercado concretizar o vulto de mais um poeta. Não que o deslocamento seja por si só ruim; ao contrário, a oportunidade de visada a partir de diferentes ângulos resultaria conveniente ao aprimoramento, ao refinamento do trabalho artístico, não fosse o simples caráter protocolar com que frequentemente a adotam. O trânsito por funções distintas, mas voltadas ao mesmo fim, o texto, deve estabelecer leituras cuja apreciação tenha por base uma análise rigorosa, “resultado do processo cumulativo, da história das críticas”[1] de que foram alvo outros textos e em diferentes épocas.

Aparentemente, tratando-se de poesia – mas o caso, ao todo, não ganha tanta distância da prosa –, a maioria dos leitores qualificados, que são também escritores, tendo se dedicado à colheita de pérolas do elogio, ou, depois de acumular algumas centenas de sentenças especializadas na adulação da literatura, sai por aí a demonstrar seu virtuosismo sem maiores cuidados com o objeto de suas intervenções. Avista-se uma habilidade na manipulação dos títulos, dos nomes, capaz de ser feita mesmo de olhos fechados: “Veja o que eu faço… Agora, sem as mãos!”. Um malabarismo inflacionário das letras. Sequências de adereços, pingentes, utensílios de sofisticação não compatível ao mobiliário em exposição.

Parece ter se tornado inconcebível certa escassez de correspondência entre a capacidade de atribuir relevância à construção literária e a de construir literatura de relevo. Por decorrência, generaliza-se o valor e o destaque, então um horizonte sem oscilações se eleva e nos deparamos com uma espécie de crítica de planalto, todos no topo, no melhor da forma; ainda que o topo se estenda contínuo e monótono, e tão povoado que nele já não se distinga qualquer individualidade; ou que o melhor do traço, de tanto repetir-se, tenha aderido ao fácil do contorno uniforme.

Para a arte não basta, agora, assim como não bastou no passado, a “intenção do autor”.[2] A delicadeza na recepção a toda publicação literária converte-se, no mínimo, em suspeita. A iniciativa do autor, sua maior ou menor circulação no sistema editorial não são suficientes para uma literatura de qualidade; assim como a delicada negligência de resenhas, de comentários reverentes e desvinculados de qualquer rigor estético em suas avaliações não nos garantem mirada a uma obra de arte.

Em tal sorte de arranjo, a construção de um(a) poeta quase se esgota na simples articulação desse nome, legenda repetida (anualmente, de preferência) em cada nova publicação trazida a lume como empecilho ao esquecimento da alcunha. Assim, o apetite de publicação de boa parte dos poetas contemporâneos distancia-se da divisa proposta por Paul Valéry, “nada de repetições: construir para se destruir”.[3] Mas as implosões poéticas não se dão à toa, é preciso tempo, pesquisa, cuidado, dedicação às demolições, o que, na ordem do dia, toma-se por desperdício.

Este apanhado de observações dedicadas ao cenário da produção e da recepção literária contemporânea, de maneira tão ampla quanto imprecisa, tenta se articular como desdobramento da reflexão sobre o relativismo a que a crítica foi submetida. Certo que a abordagem não é nova, Wellek e Warren, já na década de 1940, por exemplo, discutiram o “perigo insidioso” desse relativismo equivalente “a uma anarquia de valores e à rendição da função criticista”.[4] Se, como demonstra a unanimidade de boas-vindas a cada publicação, fosse possível encontrar sempre uma realização artística já na atitude de o autor assim nomear seu trabalho, qualquer análise, avaliação ou fruição ficariam restritas a ponto de comprometer a própria possibilidade de interpretação, o que é evidentemente impraticável.

No livro Minima Moralia, Theodor Adorno apresenta a resistência como “última relação negativa com a verdade” e insere a assertiva na discussão acerca de uma tendência à passividade na recepção de obras de arte, interpretações sem nenhum sobressalto, sem nenhuma indignação, limitadas apenas ao raso da (in)compreensão conteudística. Na lassidão da crítica que se tem postulado, não só as construções mais relevantes passaram a ser catalogadas ao lado de pares vulgarmente análogos – conforme alertava Adorno –, como também a massa dos similares sem potencial artístico passou a ganhar qualificativos condescendentes, para lá de distantes da precariedade e da falta de empenho em que se fundam.

NOTAS

[1] WELLEK, René; WARREN, Austin. Teoria da Literatura. Porto/Pt: Publicações Europa-América, s.d. p. 48.

[2] Id., ibid., p. 48.

[3] CAMPOS, Augusto de. Paul Valéry: a serpente e o pensar. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984. p. 91.

[4] WELLEK, René; WARREN, Austin, op. cit., p.50.

Sobre Denise Martins Freitas

Nasceu em Rio Grande(RS) em 1980. Escritora e professora de história; é autora de Misturando memórias (2007), Mares inversos (2010); está entre os autores que compõem a Antologia poética: moradas de Orfeu (Letras Contemporâneas, 2011); possui publicações em diversas revistas e sites literários, dentre os quais: Revista Sibila, Germina Literatura, Musa Rara, Autores Gaúchos, Revista Modo de Usar, entre outros. Escreve o blog sísifo sem perdas.