Saul Bellow: doce visão da América

É possível que poucos saibam que os primeiros romances escritos pelo norte-americano Saul Bellow (1915-2005) foram publicados no Brasil pela Bloch Editores, nos últimos anos da década de 1960. A editora fazia parte do hoje extinto complexo editorial então capitaneado por Adolfo Bloch, filho de imigrantes judeus russos que haviam chegado ao Brasil provavelmente no início daquele século. Bloch, que levava jeito para a indústria gráfica, mas certamente não manjava bulhufas de literatura, mesmo assim teve o descortino de acatar a sugestão de alguns bons conselheiros autorizando a publicação dos livros do romancista estreante que, a propósito, estava fazendo muito sucesso entre leitores exigentes nos Estados Unidos e no Canadá. O detalhe é que Bellow era também descendente de imigrantes judeus russos vindos para a América.

O primeiro romance de Bellow, The dangling man (Por um fio), apareceu em 1944 e saiu no Brasil em 1967, com tradução de Ana Maria M. Machado, um ano depois da publicação de The victim (A vítima), escrito em 1947 e traduzido por Jayme S. Taddei. No mesmo ano do lançamento de Por um fio, a Bloch lançou também Seize the day (Aqui e agora), igualmente traduzido por Ana Maria. Esse mesmo romance viria a ser publicado pela Rocco, anos depois, sob o título Agarre a vida. Depois viriam As aventuras de Augie March (1953), Henderson, o rei da chuva (1959), Herzog (1964), O planeta do sr. Samler (1970), O legado de Humboldt (1975), Dezembro fatal (1982), A mágoa mata mais (1987), A conexão Bellarosa (1989) e Ravelstein (2000), além de volumes dedicados a contos, ensaios, viagens e memórias, como Tudo faz sentido (1995), uma coletânea de textos publicados entre 1948 e 1990 em importantes periódicos nos Estados Unidos, à qual Bellow deu o sugestivo subtítulo: do passado obscuro ao futuro incerto.

Comparado em grandeza literária a Mark Twain, Scott Fitzgerald e William Faulkner, Saul Bellow, dentre outros, ganhou os prêmios National Book Award (1954), Pulitzer (1975) e Nobel (1976), consagrando tanto o vigor quanto o prestígio internacional da ficção norte-americana, que, entre 1950 e 1960, já tivera três ganhadores do galardão máximo da literatura mundial: Ernest Hemingway, William Faulkner e John Steinbeck. Havia espaço para outros escritores, é óbvio, pois os críticos principiavam a notar que os três gigantes da prosa já iam perdendo parte de seu brilho anterior e, dificilmente, como afirmou Malcolm Bradbury, poderiam representar o espírito da geração do pós-guerra. Contudo, havia também dúvidas pesadas se a emergente geração de ficcionistas lograria o intento de relacionar o indivíduo e a sociedade da nova América do Norte, segundo Irwin Howe argumentava, “uma sociedade comparavelmente confortável, metade previdência social, metade guarnição militar, na qual a população vai ficando passiva, indiferente e atomizada”.

Uma grata surpresa veio exatamente com o surgimento do primeiro romance de Saul Bellow, Por um fio, lançado em 1944, retomando em um ritmo forte a marcha que havia ficado um tanto prejudicada com as incertezas ideológicas do envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. A trama apresentava um personagem-herói atormentado pelo descalabro dos valores políticos e sociais, diante da expectativa da convocação para as Forças Armadas, transferindo para o alistamento a probabilidade cada vez mais remota de reconstrução da personalidade arruinada pelo fracasso existencial. O tema da guerra tinha sido objeto do romance Os nus e os mortos (1948), de Norman Mailer, além de alimentar a ficção produzida por alguns outros escritores novos como John Hersey, Gore Vidal, Irwin Shaw, Herman Wouk e James Jones.

Ainda segundo Malcolm Bradbury, “uma nova geração de escritores estava aparecendo com força, e por trás deles havia uma dupla herança. Por um lado, a herança do realismo e do naturalismo, preocupada com as mudanças da história, a experiência social e a cidade, a pressão sobre o indivíduo; mas havia também a herança do modernismo – não só o modernismo otimista de John Dos Passos ou de um Faulkner tardio, mas o daquelas figuras europeias mais tristes como Dostoievski, Mann, Joyce e Kafka, que haviam feito do modernismo uma resposta ao niilismo e à desordem histórica”. Assim, o crítico não ficou surpreso ao constatar que alguns dos melhores desses novos escritores “fossem aqueles que tinham razões para considerarem-se sobreviventes e vítimas da guerra e do holocausto, e aqueles cuja inteira herança intelectual fora transformada pelos acontecimentos de 1941-5”.

Um grupo de escritores judeus americanos inspirados por Isaac Bashevis Singer surgiu efetivamente na década de 1950, percebendo-se que o enfoque de suas narrativas estava centrado na desagregação individual ante “uma história moderna intolerável”, como concluiu Bradbury. No grupo estavam Saul Bellow, Norman Mailer, Bernard Malamud e Philip Roth que, no entanto, manifestavam a tendência de abandonar a tradição literária judaico-americana mais antiga. O tema central desses romancistas deixou de ser a luta do imigrante judeu por uma oportunidade concreta no Novo Mundo, passando a retratar esse indivíduo “como vítima moderna, forçada pela história a uma autodefinição existencial, definição que não era apenas religiosa, política ou étnica”. Foi a trilha escolhida por Bellow nos romances Por um fio e A vítima, de 1944 e 1947, respectivamente, nos quais os protagonistas Joseph e Asa Leventhal vivem imersos em um clima de insegurança individual, em cidades opressoras como Chicago e Nova York, em meio à concorrência irritante do mundo pequeno-burguês e suas constantes armadilhas. Mesmo assim, o romancista não abriria mão da vertente intelectual sofisticada (e até erudita) que haveria de assoalhar dali em diante toda a sua produção ficcional.

Um belo exemplo está em Por um fio, quando diz que Joseph, desde que saiu da escola, nunca deixou de se considerar um estudante, com enorme admiração pelos livros: “Antes de se interessar pelo Iluminismo, fez um estudo sobre os ascetas primitivos e, antes disso, sobre o Romantismo e a criança prodígio. Naturalmente, tem que ganhar a vida, mas tenta manter equilíbrio entre o que quer e o que é forçado a fazer, entre a necessidade e a vontade”. No romance seguinte, A vítima, Asa Leventhal “é um judeu inseguro quanto a seu lugar na ordem das coisas”, diz Bradbury, ainda mais atordoado quando aparece Albee, “o gentio que se ergue do meio da multidão para culpar Leventhal pela perda do seu”. Aos poucos, porém, Bellow foi dando mostras de estar sintonizado com um novo tipo de romance, ao caminhar na direção do que Bradbury chamou de “comédia exuberante” marcada pelo ideal de aspiração da grandiosidade humana, da transcendência e do eterno, em uma ficção de grande riqueza retórica enfeixada “num discurso torrencial”.

No romance Seize the day (Aqui e agora/Agarre a vida), publicado dez anos após sua estreia, Bellow contaria a história de Tommy Wilhelm, que morava com o pai em um hotel de Manhattan (em quartos separados), habitado por uma maioria de hóspedes velhos, doentes e moribundos. O pai, dr. Adler, era um médico aposentado, dono de respeitável fortuna, que mostrava implacável antipatia pelo filho, a quem não pretendia deixar a herança. Tommy vive uma vida medíocre, arrastando pelas ruas próximas o fardo de suas encrencas, segundo Philip Roth, que revelou ter encontrado nessa frase o melhor resumo para a purgação: “Talvez cometer erros fosse o próprio objetivo de sua vida, a essência de sua presença no mundo”. Roth sugere, ainda, que o romance que veio à luz três anos depois de As aventuras de Augie March, estabeleceu um claro retorno na obra de Bellow, que voltou a tratar de um judeu atrelado a seus preconceitos e conflitos interiores, na medida em que deu vida a um protagonista que passa o tempo todo pedindo socorro (“Meu Deus! Permita que eu consiga sair destes meus pensamentos e deixe-me fazer algo melhor comigo mesmo. Permita que eu me livre destas garras e entre numa vida diferente. Porque eu estou todo enrolado. Tenha piedade de mim”). Ao contrário, Augie esbanjava uma exuberância exultante sintetizada nas últimas páginas, como anotou Roth: “Olhem só para mim, indo para tudo que é lugar!”. Não foi por outro motivo, decerto, que Bellow abriria o calhamaço com a afirmação sobranceira: “Sou americano, nascido em Chicago”.

Em 2001, o ensaísta Christopher Hitchens foi convidado a escrever a introdução de uma reedição de As aventuras de Augie March (incluída em Amor, pobreza e guerra: ensaios e viagens pela cultura e o mundo de hoje, Ediouro, Rio de Janeiro, 2006), a meu ver a melhor resenha já feita sobre o romance. Em meio a nítidas impressões sobre como Bellow foi capaz de retirar do gueto o modo de vida judeu e contribuir para transformá-lo em um elemento indissolúvel e inseparável da grande língua norte-americana, faz referência à abertura de um ensaio do escritor Martin Amis, datado de 1995: “As aventuras de Augie March é o Grande Romance Americano. Podem parar de procurar. Todas as pistas ficaram 42 anos atrás. A busca fez o que buscas raramente fazem: ela terminou”.

Isso talvez nos faça compreender, pelo menos em parte, alguns dos motivos que levaram as maiores editoras brasileiras a demorar mais de meio século para se interessar pelo romance, que somente um pouco antes do final do ano passado (56 anos depois de aparecer!) foi mandado às livrarias pela Companhia das Letras, na brilhante tradução de Sonia Moreira. A estupefação faz sentido, tendo em vista a publicação aqui de quase toda a obra do festejado autor, que dentro de três décadas depois do primeiro romance chegaria ao ápice da carreira ganhando o Nobel. Nem assim nossos editores se animaram a mandar traduzir e publicar o livro “que abismou os críticos ao mostrar que o romance de um intelectual podia ser um sucesso literário e comercial”, segundo Hitchens.

Arrisco um palpite que vem do fundo da memória de leitor que lá pelos idos do início dos anos 1970 quebrou a cara, logo às primeiras páginas, ao tentar devassar o texto em inglês, e que só agora se sente aliviado pelo que constatou Philip Roth – há 10 anos – sobre o caráter verdadeiramente revolucionário do livro: “Bellow derruba tudo: as escolhas de composição fundadas em princípios narrativos de harmonia e ordem, um ethos ficcional baseado em O processo de Kafka e O duplo e O eterno marido de Dostoievski, bem como uma perspectiva moral que não é em absoluto caracterizada pelo deleite com o brilho, a cor e a abundância da existência”. O comentário está em “Relendo Saul Bellow” (Entre nós: um escritor e seus colegas falam de trabalho, Companhia das Letras, São Paulo, 2008). De minha parte quero acrescentar que isso torna ainda mais apreciável o estupendo trabalho realizado pela tradutora Sonia Moreira.

Diz ainda o autor de O Complexo de Portnoy que “frases quilométricas já existiam na ficção norte-americana – em particular, em Melville e Faulkner –, mas não havia nada semelhante às sentenças de Augie March, que a meu ver não representam apenas uma liberdade tomada pelo autor; quando um escritor é impelido apenas pelo desejo de tomar liberdades, ele pode facilmente cair na ostentação vazia de alguns dos imitadores de Augie March. A meu ver, as liberdades tomadas por Bellow em sua prosa são uma demonstração sintática do ego enorme e robusto de Augie, aquele ego sempre a vagar e evoluir, sempre em movimento, ora dominado pela força dos outros, ora fugindo dessa dominação”. Lembremos que Malcolm Bradbury se referira ao alentado corpus de As aventuras de Augie March (O romance americano moderno, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1991) como um discurso torrencial. Bem a propósito, Cinco Propriedades, um dos personagens de Augie March – um autêntico armário –, “é fascinado pela superabundância”.

A família March, a mãe quase cega e três filhos – Simon, Augie e o retardado George –, vive em um cortiço de Chicago graças às subvenções recebidas da assistência social e ao dinheiro miúdo ganho pelos dois filhos maiores em bicos aqui e ali, enquanto não estão na escola. O cenário é um fragmento do clima hostil da Grande Depressão dos anos 1930 e, nesse caso, a engrenagem opressora em que se debatem, igualmente, muitíssimas outras famílias de imigrantes judeus, é manipulada com mão de ferro pela áspera e mexeriqueira vovó Lausch, a quinta pessoa no reduzido apartamento, assim descrita por Augie: “Era tão enrugada quanto uma sacola de papel velha, uma autocrata, intransigente e jesuítica, uma velha águia bolchevique sempre pronta a dar o bote”, ao passo que a mãe, abandonada pelo pai que nem sequer conhecera, merece do filho a consideração devida: “aquelas mulheres de quem Zeus se aproveitara em forma animal e que depois tinham de se esconder de sua esposa furiosa”.

Anos depois, quando vovó Lausch é convencida a ir para um asilo, Augie retratou o estado deplorável da mulher antes autoritária e amarga, a quem restavam poucos meses de vida, “cujo vestido preto de Odessa estava engordurado e esbranquiçado; que olhou para mim com um olhar embasbacado de gata velha; que talvez não soubesse muito bem quem eu era; que carregava essa sobra de fato original, do que mais havia importado para ela, como um desvio no olho; que estava fraca, talvez até infantil e gagá”.

Com uma trajetória difusa e cheia de altos e baixos, depois de vários anos de tentativas mais ou menos frustradas de fixar-se em um trabalho digno, Augie ainda reconhecia não estar em nenhum ramo especial, “mas apenas experimentando coisas diversas”, como multidões de jovens norte-americanos dos anos da Depressão. Assim é que desde os tempos de menino desempenhou funções múltiplas como entregador de jornais, engraxate, pajem, vendedor de loja, treinador de cães, ladrão de livros sob encomenda, recenseador e organizador sindical. Na caminhada de típico aventureiro sonhador, filho de imigrantes judeus cuja transposição para um ambiente adverso os havia levado a desligar-se da prática religiosa, Augie conheceu muitas pessoas além do círculo de parentes e amigos de infância, com destaque para as mulheres que tiveram influência direta em sua vida (Hitchens escreveu que Augie era guiado pelo pênis): Mimi Villars, Shofie Geratis, Lucy Magnus, Thea Fenchel e Stella Chesney, com quem se casou antes de embarcar para a primeira viagem como integrante do esforço de guerra dos Estados Unidos, na função de intendente da marinha mercante.

“William Einhorn foi o primeiro homem superior que eu conheci”, confessa Augie, ao introduzir na narrativa de vida quem, na verdade, representou para ele o pai que jamais teve. Einhorn era paralítico, sem movimento nos braços e nas pernas e tinha sido muito rico até o “crash” econômico ocorrido durante o governo Hoover. Augie tornou-se, literalmente, seu braço direito, e nunca esqueceu a lição de moral que o patrão lhe administrou quando ficou conhecido o roubo que ele e alguns colegas de escola haviam praticado em uma loja de bolsas. A primeira descompostura veio de vovó Lausch, naturalmente, mas foi Einhorn quem lhe disse com gravidade: “Garotos criados em situações adversas, como você, são candidatos naturais a manter as cadeias cheias… Aquelas para as quais o governo encomenda pão e feijão com uma antecedência enorme, porque sabe que existe um elemento que ele pode contar que vai parar atrás das grades para comer aquele pão e aquele feijão”. Einhorn sabia das coisas e não se fez de rogado: “Essas coisas tristes e trágicas estão esperando para receber você – as cadeias, as clínicas e as filas de sopa dos dispensários sabem quem são os candidatos naturais a ser derrotados e esmagados, transformados em velhos antes do tempo, em excrementos sociais, em criaturas sem préstimo. Se acontecesse com você, quem ficaria surpreso? Você é uma barbada para esse páreo”. Com instinto paternal acrescentou: “Mas eu acho que eu ficaria surpreso”.

Ao que parece os conselhos de Einhorn tiveram curto alcance pois, alguns anos depois (quando havia se matriculado em cursos universitários), Augie ganhava a vida roubando livros sob encomenda para estudantes superiores como Hoocker Frazer, intelectual marxista, aluno de pós-graduação e monitor do Departamento de Ciência Política da Universidade de Chicago, um cliente difícil de atender, pois costumava encomendar livros raros ou esgotados: “Dois volumes da Vontade de potência de Nietzsche, que eu suei para conseguir afanar porque ficavam dentro de um armário de vidro fechado numa livraria de livros de economia; consegui para ele também a Filosofia do direito de Hegel, os últimos volumes do Capital na livraria comunista da Division Street, a Autobiografia de Herzen e alguns livros de Tocqueville”. O melhor dessa fase é que Augie acabou sendo atraído para a leitura e, não raro, demorava a entregar as encomendas de Frazer porque desejava ler ele próprio os livros. Mas também foi franco em dizer que “nunca me sentia culpado por abandonar textos que não se deixassem ler com entusiasmo, pois não guardaria nada deles de qualquer forma”.

Uma seção valorizada pelos resenhistas de As aventuras de Augie March é aquela pontilhada pela presença de Thea Fenchel, impetuosa mulher prestes a se divorciar do marido multimilionário que reencontra Augie, a quem havia conhecido em uma sofisticada estação de águas, anos antes. De fato, no longo período passado no México ao lado de Thea, Augie viveu momentos inesquecíveis, alguns surreais, como o treinamento da águia Calígula para a caça de gigantescos iguanas. Quando ficou evidente que Calígula não dava para a coisa, Thea faz um comentário definitivo sobre o altivo pássaro, chamando-o de “medroso”.

Outras passagens do interlúdio mexicano se aproximam do dramalhão, como a noite em que fugiu com Stella para livrá-la da ira de um marido bêbado e descontrolado, procurado pela polícia americana por uma série de falcatruas. Augie foge no carro de Thea, com quem discutira seriamente, acaba se perdendo nas trilhas montanhosas e espera o amanhecer fazendo amor com Stella debaixo de uma lona. No dia seguinte consegue chegar a Cuernavaca, onde dá dinheiro a Stella para regressar a Nova York. Retornando a Acatla, onde morava com Thea, fica sabendo que ela se mandara para outra cidade e, apesar das desesperadas tentativas de reatamento, o rompimento é definitivo. “Ele sofre um tormento consternador pela perda de Thea; paixão e ciúme sexual raras vezes foram descritos de forma mais grave”, lembrou Hitchens.

Um dia, o acaso voltou a bater às portas de Augie e ele vê alguns carrões parando defronte à catedral, levando-o a supor que alguma personalidade estava no carro do meio, à vista dos guarda-costas que brotavam dos dois outros veículos: “E, então, o principal figurão saiu lá de dentro com um salto; ele era muito lépido e cheio de energia, simpático, arguto, a barba pontuda. Sem desperdiçar um segundo de atenção, pôs-se a estudar a fachada da igreja. Usava um casaco curto com gola de peles e óculos grandes; suas bochechas eram um tanto moles, mas isso não diminuía em nada a impressão ascética que ele passava. Olhando para ele, concluí com um sobressalto que aquele homem devia ser Trotski, o grande exilado russo, vindo da Cidade do México, e meus olhos se arregalaram”.

Esse lance foi devidamente romanceado, mas aconteceu de verdade. O escritor estava no México e, por meio de uma conhecida de Taxco, ele e o amigo Herbert Passin manifestaram o desejo de conhecer Trotski. O encontro foi marcado para a residência do Velho, em Coyocan, mas não aconteceu. Bellow conta: “Foi na manhã do nosso encontro que ele foi morto. Chegando à Cidade do México fomos recebidos pelas manchetes. Quando fomos à sua casa, devem ter nos tomado por jornalistas estrangeiros e fomos encaminhados ao hospital. A sala de emergência estava uma desordem. Só tivemos que perguntar por Trotski. Uma porta que dava para um quartinho lateral estava aberta para nós e ali nós o vimos. Tinha acabado de morrer. Um cone de ataduras sangrentas cobria sua cabeça. Suas bochechas, seu nariz, sua barba, sua garganta estavam marcadas com sangue e com filetes iridescentes de iodo ressecado”.

Bellow havia sido trotskista nos tempos de estudante secundário, embora o ativismo político de então tivesse perdido o magnífico quadro atraído irremediavelmente pela literatura. “Meus amigos mais chegados e eu éramos escritores”, diria Bellow depois: “Atravessávamos uma semana com cinco ou seis dólares e, se nossos quartos alugados fossem pequenos, as bibliotecas eram grandiosas, lindas”. Foi aí que o futuro Nobel se deparou com a “nutrição vital pessoal” em longas tardes com Dostoievski, Herman Melville, Dreisser, John Dos Passos, Faulkner, T. S. Eliot, Rilke e e. e. cummings. Pela leitura de Partisan Review estava garantido o acesso aos contemporâneos europeus mais ilustres: Silone, Orwell, Koestler, Malraux, André Gide e Auden.

Com a guerra, Augie, especialista em assuntos diversos, decide alistar-se na marinha mercante e, nesse ínterim, também resolve ir à procura de Stella em Nova York, mas não para recuperar o dinheiro que havia emprestado a ela no México. O encontro resulta em casamento, após a formatura no curso de preparação para os serviços de intendência. O curioso é que logo à primeira viagem, a bordo do Sam MacManus, “navio de meia-idade”, no décimo quinto dia de navegação, ao largo das Canárias, o barco foi torpedeado e afundou. Resgatado do naufrágio junto com um colega por um navio inglês, Augie foi encaminhado a um hospital de Nápoles e voltou a Nova York após seis meses, “pois os médicos achavam um motivo atrás do outro para me manter no hospital”. Quando a guerra terminou, Augie e Stella viajaram a Florença, na Itália, ela para trabalhar no cinema e ele para tentar obter, via suborno se fosse preciso, uma licença de importação italiana para a venda, no país, de “sobras de artigos militares comprados a preço de banana na Alemanha”. Tudo era conduzido por um advogado amigo de Stella – Mintouchian – que “sabia tudo sobre esse tipo de especulação e estávamos ganhando muito dinheiro”.

E, assim, vai chegando ao fim a prosa torrencial de Saul Bellow no romance que revolucionou a escrita norte-americana dos anos 1950 em diante, preparando o escritor que depois daria a seu enorme público livros extraordinários como Herzog, Henderson, o rei da chuva, O legado de Humboldt e O planeta do sr. Samler, entre outros. Augie confessa sem o menor pudor: “Venho escrevendo estas minhas memórias desde então, como um viajante; como viajo sozinho, tenho muito tempo nas mãos. No ano passado, tive de ficar dois meses em Roma. Era verão, e a cidade se cobriu de flores vermelhas, quente e sonolenta. Todas as cidades do sul ficam sonolentas no verão, e dormir durante o dia me deixa pesado e com um gosto vazio na boca. Para conseguir despertar à tarde, eu tomava café e fumava charutos e, quando finalmente voltava a mim depois da sesta, já era praticamente noite. Você janta, e uma noite débil e verde se instala; nas ruas, silenciosos lampiões de gás vão incandescendo e fazendo um longo arranhão latejante na noite absoluta. Hora de dormir de novo, então você volta para o quarto e afunda na cama”.

Vovó Lausch teria ficado surpresa.


As aventuras de Augie March
Saul Bellow

Tradução de Sonia Moreira
Apresentação de Christopher Hitchens
São Paulo, Companhia das Letras, 2009
704 p.