Paulo Leminski

Paulo Leminski
(1944-1989)

Minha cabeça cortada
Joguei na tua janela
Noite de lua
Janela aberta

Bate na parede
Perdendo dentes
Cai na cama
Pesada de pensamentos

Talvez te assustes
Talvez a contemples
Contra a lua
Buscando a cor de meus olhos

Talvez a uses
Como despertador
Sobre o criado-mudo

Não quero assustar-te
Peço apenas um tratamento condigno
Para essa cabeça súbita
De minha parte

(Caprichos & Relaxos, 1983)

My cut-off head
Thrown in your window
Moon-lit night
Window Open

Hits the wall
Loses some teeth
Falls to the bed
Heavy with thought

Maybe it’s scary
Maybe you’ll blink
Seeing by moon
The color of my eyes

Maybe you’ll think
It’s just your alarm clock
On the nightstand

Not to scare you
Only to ask kindlier treatment
For my sudden head
Departed

(Tr. Charles Bernstein and Régis Bonvicino)

a vida é as vacas
que você põe no rio
para atrair as piranhas
enquanto a boiada passa

(Caprichos & Relaxos, 1983)

life is the cows
you put in the river
to attract piranhas
while the herd wades through

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

na rua
    sem resistir
me chamam
torno a existir

(Caprichos & Relaxos, 1983)

in the street
    without resistance
they call me
i regain existence

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

nunca quis ser
um freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
obrigado
hasta la vista

queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
— cala a boca
e pro relógio
— abaixo os ponteiros

(Caprichos & Relaxos, 1983)

i never wanted to be
a fine customer
asking for this and that
red wine
thank you
hasta la vista

i wanted to bust in
my two feet
on the pecs of the porters
to say to the mirror
“shut up”
and to the clock
“loose the pointers”

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

de METAFORMOSE

Antes do Caos, da Terra, do Tártaro e de Eros, antes das potestades que pulsam nas Origens, tenebrosas potências do abismo primordial, antes que as dez mil valvulas abertas de Gaia parissem Gigantes, Titãs e Ciclopes, antes da guerra entre os monstros da noite e a lúcida força do dia, antes de tudo, filho de um rio e de uma ninfa da água, Narciso, o filho de Náiade, deitava de bruços e se olhava no trêmulo espelho da fonte, Narciso de olho em Narciso, beleza de olho em si mesma, cego, surdo e mudo aos apelos de Eco, a ninfa apaixonada, chamando Narciso, Narciso, a água da fonte repete o rosto de Narciso, reflexos de Narciso nos ecos da ninfa, água na água, como a luz na luz, luz dentro da água.
Esta lenda é a pedra de Sísifo, a pedra que Sísifo rola até o alto da montanha, e a pedra volta, sempre volta, penas de Hércules, trabalhos de Dédalo, labirintos, lembra que és pedra, Sísifo, e toda pedra em pó vai se transformar, e sobre esse pó, muitas lendas se edificarão.
E sobre Narciso, a profecia do feiticeiro Tirésias, será feliz enquanto não enxergar a própria imagem, a voz de Eco entre as árvores, o rosto de Narciso sobre a faca das águas.
O olhar de Narciso cai na água como Ícaro das alturas, e Ícaro cai na água, um ruído de púrpura que se rasga, Poseidon!, e afunda num coral de sereias.
Instante antes Ícaro voava, ao lado do pai, duas gaivotas sobre o Egeu, voava com as asas de cera criadas por Dédalo, o arquiteto do labirinto, o inventor de autômatos, o pai das coisas novas.
Voavam, pai e filho, fugindo de Creta, da ira do rei que os tinha aprisionado no labirinto construído por Dédalo.
Minos havia descoberto, seu arquiteto, o artesão incomparável, era cúmplice nos amores monstruosos da rainha Pasífae e do touro branco que Poseidon, senhor dos oceanos, tinha feito sair das ondas do mar. E foi que a rainha Pasífae ardeu de paixão pelo touro branco e quis ser penetrada por ele. Dédalo construiu um perfeito simulacro de vaca. Pasífae entrou, o touro aproximou-se, e assim se consumou o coito maldito da rainha e da grande besta.
Desta monstruosidade, nasceu o Minotauro, o híbrido com corpo de homem e cabeça de touro, em volta do qual Dédalo construiu o labirinto, a casa monstruosa para um ser monstruoso.
O olhar de Narciso volta, tonto de tanta beleza, pedra de Sísifo, queda de Ícaro, e torna a cair na água, rodas gerando rodas.
A água começa a ficar vermelha, sangue na água, sangue de Ícaro, sangue do Céu, Urano, filho da Terra, irmão dos Ciclopes, Urano, castrado por Cronos, o Tempo, seu filho, o Céu castrado pelo Tempo, os livres movimentos dos astros medidos por ampulhetas e clepsidras, o parricídio primordial, crepúsculo dos deuses.
Na água, agora sangue, bóiam o pênis e os testículos de Urano, cortados pela foice que Titéia, a Terra, deu ao filho Cronos para mutilar o pai.

from METAFORMOSE

Before the Chaos, the Earth, the Tartar, and Eros, before the powers that pulsate in the Origins, tenebrous potencies of the primordial abyss, before the ten thousand open valves would give birth to Giants, Titans and Cyclops, before the war between the monsters of the night and the lucid force of the day, before all, son of a river and of a water nymph, Narcissus, son of Naiad, was lying prone and was looking at himself in the trembling mirror of the spring, Narcissus looking at Narcissus, beauty looking at itself, blind, deaf and dumb to the appeals of Echo, the passionate nymph, calling Narcissus, Narcissus, the spring water repeats the face of Narcissus, reflexes of Narcissus in the echoes of the nymph, water in the water, like light in light, light inside of water.
This legend is the rock of Sisyphus, the rock that Sisyphus rolls to the top of the mountain, and the rock rolls back, always rolls back, pains of Hercules, works of Daedalus, labyrinth, remember that you are rock, Sisyphus, and every rock into dust will be transformed, and out of that dust several legends will be edified.
And out of Narcissus, the prophecy of the wizard Tiresias, will be happy as long as he does not see his own image, the voice of Echo between the trees, Narcissus’ face above the blade of the waters.
Narcissus’ gaze falls on the water like Icarus from the heights, and Icarus falls in the water, a sound of purple that tears itself, Poseidon!, and sinks in a coral chorale of mermaids.
Instants before Icarus flew, next to his father, two seagulls above the Aegean sea, flew with wax wings created by Daedalus, the labyrinth’s architect, inventor of the automatons, father of new things.
They flew, father and son, escaping from Crete, from the rage of the king who had imprisoned them in the labyrinth constructed by Daedalus.
Minos had discovered, his architect, the incomparable artisan, was an accomplice in the monstrous love between queen Pasiphae and the white bull that Poseidon, lord of the oceans, had caused to emerge from the waves of the sea. And it was that queen Pasiphae who burnt with passion for the white bull and wanted to be penetrated by him. Daedalus built a perfect simulacrum of a cow. Pasiphae entered, the bull approached, and in this manner the cursed coitus between the queen and the great beast was consummated.
From this monstrosity, the Minotaur was born, hybrid with the body of a man and head of a bull, around whom Daedalus constructed the labyrinth, monstrous house for a monstrous being.
Narcissus’ gaze turns, dizzy with so much beauty, Sisyphus’ rock, Icarus’ fall, and once more falls on the water, wheels generating wheels.
The water begins to turn red, blood in the water, blood of Icarus, blood of the sky, Uranus, son of the earth, brother of Cyclops, Uranus, castrated by Cronus, Time, his son, the heavens castrated by Time, the free movements of the stars measured by an hourglass and clepsydra, the parricide primordial, crepuscule of the gods.
In the water, now blood, float the penis and the testicles of Uranus, cut by the scythe that Tethys, the earth, gave to the son Cronus to mutilate the father.

Destes testículos cortados, ela nasceu, Afrodite, saída das espumas do mar, a beleza, o gozo, a paixão, a delícia, Eco que chama Narciso, Narciso, Pasífae transpassada pelo touro, Narciso apaixonado por Narciso, feliz enquanto não enxergar a sua imagem.
Agora o olhar de Narciso vê Teseu, é Teseu, o herói sedento de sangue, que entra no labirinto, a espada de bronze numa mão, na outra, o fio de Ariadne, a linha que serve de guia entre os indeslindáveis meandros da construção que o engenho de Dédalo enrolou e desenrolou. Mil olhos acesos, Teseu avança labirinto a dentro, a curta espada de bronze micênico na mão direita, vibrando como um pênis, enovelando no braço esquerdo o fio da princesa Ariadne, cada vez mais dentro, a treva mais espessa, o cheiro de esterco cada vez mais forte, Teseu avança em direção ao centro do seu coração, numa encruzilhada de caminhos, o herói hesita, então ouve o mais espantoso berro que orelhas humanas já escutaram.
Narciso tapa os ouvidos, e deixa o olhar flutuar sobre as águas monótonas.
Tudo se cala. Narciso não ouve mais, nem o mugido do minotauro, nem os ecos da ninfa, Narciso, Narciso, Narciso, minotauro, minos, touro.
Teseu avança, coração sem medo, e a voz da ninfa Eco se repete entre as esquinas do labirinto, espatifando-se contra o mugido do Minotauro.
O herói dá um passo e se põe diante do monstro, em posição de combate.
Teseu olha, então, olha pela primeira vez, e o vê. E não acredita. O Minotauro tem sua cara. Teseu e o Minotauro são uma pessoa só.
Mal tem tempo de saltar de lado, quando a fera investe.
O Minotauro encosta-se na parede e atira-se sobre Teseu.
A espada afunda na garganta, o sangue jorra, o monstro vacila e desaba aos pés do herói.
Teseu levanta a espada, e a mergulha no coração do senhor do labirinto.
Ao morrer, o Minotauro chora como uma criança, por fim se enrosca como um feto, e se aquieta no definitivo da morte.
Teseu limpa a espada no manto e sai, com uma morte na alma do tamanho da noite.
No espelho das águas, Narciso a reconhece, a dos cabelos de serpente, Medusa, a que transforma em pedra todo aquele que a fitar. Olho na água, Narciso não corre perigo, e a Medusa passa, armada da força de ver e ser vista. A próxima vez, quem sabe.
Começa a fazer frio, o vento do entardecer vai apagando a luz do dia, as sombras saem debaixo das folhas, das pedras, do coração do mato.
O rosto de Narciso vai escurecendo na água, onde logo brilham estrelas.
Ao longe, a voz de Eco, Narciso, Narciso, repete como se sangrasse.
Na água, as estrelas, a Ursa Maior, os signos, as constelações, as luzes cegas onde o arbítrio dos homens julga ver formas, perfis, silhuetas, formas deste mundo projetadas no azul celeste onde o azul mais azul das estrelas lateja, os pontos onde o azul do céu dói mais.
Aquário, o aguadeiro, Ganimedes, o amado de Júpiter, o signo dos videntes e visionários, o signo de Tirésias, feliz enquanto não enxergar a própria imagem. Ainda bem que Tirésias é cego.

From these cut testicles, she was born, Aphrodite, emerging from the sea foam, beauty, joy, passion, delight, Echo calling Narcissus, Narcissus, Pasiphae trespassed upon by the bull, Narcissus in love with Narcissus, happy while he does not see his own image.
Now Narcissus’ gaze sees Theseus, it is Theseus, the hero thirsty for blood, who enters the labyrinth, the bronze sword in one hand, in the other, Ariadne’s thread, the thread that serves as guide between the free-standing meanderings of the construction that Daedalus’ ingenuity rolled and unrolled. A thousand lighted eyes, Theseus ventures within the labyrinth, the short Mycenaean bronze sword in his right hand, vibrating like a penis, princess Ariadne’s skein coiled around his left arm, increasingly inside, the darkness more dense, the smell of manure increasingly strong, Theseus ventures in the direction of the center of his heart, at a crossroads, the hero hesitates, then hears the most frightful bellowing that human ears have ever heard.
Narcissus covers his ears, and lets his gaze float above the monotonous waters.
All falls silent. Narcissus no longer hears, not the lowing of the minotaur, nor the echoes of the nymph, Narcissus, Narcissus, Narcissus, minotaur, minos, taurus.
Theseus ventures, heart without fear, and the voice of the nymph Echo repeats itself among the corners of the labyrinth, shattering itself against the lowing of the Minotaur.
The hero steps forward and places himself before the monster, in a combat position.
Theseus looks, then, looks for the first time, and sees it. And cannot believe. The Minotaur has his face. Theseus and the Minotaur are the same person.
Barely has time to jump to the side, when the beast attacks.
The Minotaur leans on the wall and throws himself over Theseus.
The sword sinks in the throat, the blood pours, the monster vacillates and collapses at the hero’s feet.
Theseus raises the sword, and plunges it into the heart of the labyrinth’s lord.
As he dies, the Minotaur cries like a child, finally curls himself like a fetus, and becomes calm in death’s definitive.
Theseus cleans the sword on his mantle and leaves, with a death on his soul the size of the night.
In the mirror of water, Narcissus recognizes her, the one with the serpent hair, Medusa, the one who transforms into stone all who fix upon her. Eye on the water, Narcissus is not in danger, and Medusa passes by, armed with the force to see and be seen. Next time, who knows.
It begins to get cold, the evening’s wind extinguishes the daylight, the shadows come from underneath the leaves, the stones, the heart of the woods.
Narcissus’ face goes dark in the water, where soon the stars shine.
From afar, the voice of Echo, Narcissus, Narcissus, repeats as if bleeding.
On the water, the stars, the Great Bear, the signs, the constellations, the blind lights where man’s arbitration judges to see forms, profiles, silhouettes, forms from this world projected on the celestial blue where the bluest blue from the stars pulsates, the spot where the blue of the sky hurts the most.
Aquarius, the water carrier, Ganymede, the one loved by Jupiter, the sign of the clairvoyant and the visionary, sign of Tiresias, happy while he does not see his own image. Fortunately Tiresias is blind.

Nadam dois peixes na água celestial, cada um para um lado. O Carneiro. Os Gêmeos. O Caranguejo. O Leão. A Virgem. A Balança. O Escorpião. O Centauro Flecheiro. A Cabra Marinha. E Aquário, o aguadeiro. E o círculo rodando uma história sem fim, o eterno retorno, o dia, a noite, a vida, o eco, os doze signos, os doze trabalhos do herói.
A tudo Narciso está atento, ao sonho que faz de uma cabeça e peitos de mulher, asas de pássaro e corpo de leão, uma esfinge e de um tronco de cavalo e um torso de homem, um centauro, o ser, esse sonho de metamorfoses.
Esta noite, nada permanece em seu ser, os seres padecem as dores do parto das mais improváveis alterações.
Não há ser, tudo é mudança, ecos, revérberos, câmbios perpétuos.
Tudo pode se transmutar em tudo.
Assim, sob a forma de um cisne, a ave de pênis grande, Zeus quis Leda, a princesa de belas coxas. Como chuva de ouro, choveu no colo de Dânae. Assumindo a forma do marido, deixou Alcmene prenhe de Hércules, o herói trabalhador, o deus que sofre, num mundo de monstros e prodígios.
Narciso começa a sofrer.
A pedra de Sísifo é a sede de Tântalo, a sede infinita da boca que nunca consegue tocar na água, e a pedra que sempre rola ao chegar no alto da montanha, a eterna sede da imagem que nunca consegue senão se transformar em imagem.
Teseu, novo Minotauro, agora habita as profundezas do labirinto, entre muralhas micênicas e o cheiro de esterco, a fera sem deus, a fome é um deus, a sede é um deus.
A sombra da Medusa escorre pelas escadarias do palácio de Minos, em Cnossos, transformando todos os deuses em estátuas de pedra.
Em algum lugar da Ásia, a noite gera um novo Teseu.
Palavras da Pítia, feliz enquanto não enxergar seu próprio rosto.
Todo diverso em idêntico se converta, toda a diferença consigo mesma coincida.
Palavras da Pítia, palavra de Apolo, o arqueiro implacável, o que sabe de ontem, o que sabe de hoje, quem sabe de amanhã.
Amanhã, Narciso, é um outro dia. Todos os dias são assim, sagradas todas as árvores que o raio, fálus, de Zeus tocou.
Narciso de olho nas águas, passam as naves de Ulisses, com destino ao espanto, ao susto máximo, ao ceticismo, à apatia, à amnésia.
Quem duvida de tudo se chama cético. Como se chamam aqueles que acreditam em tudo? Aqueles que acreditam que tudo é possível? Que toda a fantasmagoria tem tanto direito a existir quanto a sólida certeza do gosto do pão e a indeterminada realidade da água que escorre no rosto dos sedentos quando chove?
Água, sangue, vinho: que deus escondeu na uva o vento louco da embriaguez?
Tudo no Caos, tudo na Terra, tudo no Tártaro, a tudo, Eros aproxima e mistura, simulacros e metáforas, mímica e espetáculos, quantos séculos levam meus ecos para atravessar o labirinto?
A razão, Atena, é apenas uma dor na cabeça de Zeus.

Two fish swim in the celestial water, each to one side. Aries, Gemini. Cancer. Leo. Virgo. Libra. Scorpio. The Archer Centaur. The Sea Goat. And Aquarius, the water carrier. And the circle turning an endless history, eternal return, day, night, life, echo, the twelve signs, the hero’s twelve works.
To every thing Narcissus is attentive, to the dream that makes from head and breasts of a woman, wings of a bird and body of a lion a sphinx, and from the trunk of a horse and torso of a man a centaur, the being, this dream of metamorphoses.
This night, nothing remains in its being, the beings suffer the pains of labor from the most improbable alterations.
There is no being, all is change, echoes, reverberations, perpetual exchange.
Everything can be transmuted into everything.
Thus, under the form of a swan, the bird with a big penis, Zeus wanted Leda, the princess with the beautiful thighs. Like rain of gold, it rained on Danae’s lap. Assuming the form of the husband, he made Alcmena pregnant by Hercules, the worker hero, the god who suffers, in a world of monsters and prodigies.
Narcissus starts to suffer.
Sisyphus’ rock is Tantalus’ thirst, the infinite thirst of the mouth that is never able to touch the water, and the rock that forever rolls back when arriving at the top of the mountain, the eternal thirst of the image that is never able but to transform itself in image.
Theseus, new Minotaur, now inhabits the depths of the labyrinth, between Mycenean walls and the smell of manure, the beast without god, hunger is a god, thirst is a god.
Medusa’s shadow drips down the stairway of Minos’ palace, in Knossus, transforming all the gods into stone statues.
Somewhere in Asia, night generates a new Theseus.
Pitia’s words, happy while he cannot see his own face.
Convert every diverse into identicals, coincide every difference with itself.
Pitia’s words, Apollo’s words, the implacable archer, the one who knows of yesterday, the one who knows of today, who knows of tomorrow.
Tomorrow, Narcissus, is another day. Every day is like this, sacred every tree that the lightning, phallus, of Zeus touched.
Narcissus, an eye on the waters, the vessels of Ulysses pass, destined toward the astonishment, the maximum fright, the skepticism, the apathy, the amnesia.
Who doubts all is named skeptical. What are those called who believe in everything? Those who believe that everything is possible? That every phantasmagoria has as much right to exist as the solid certainty of the taste of bread and the undetermined reality of the water that drips on the face of the thirsty in the rain?
Water, blood, wine: what god hid in the grape, the crazy wind of inebriation?
All in Chaos, all on earth, all in Tartarus, to all, Eros approximates and mixes, simulacras and metaphors, mimicry and spectacles, how many centuries my echoes take to cross the labyrinth?
Reason, Athena, is only a pain in the head of Zeus.
Como quando uma história tem dois finais, como quando uma história tem vários começos, como quando uma história conta uma outra história: fugindo de Minos e do labirinto, Dédalo, o artesão incomparável, o inventor dos inventores, foi dar às costas da Sicília, nas praias do rei Cócalo. Para Cócalo, o incomparável artesão arquitetou uma sala do trono onde se podia ver sem ser visto, ouvir sem ser ouvido e estar quando ausente. Minos, senhor do mar, veio reclamar seu prisioneiro. Temeroso, Cócalo lançou Dédalo num forno, onde morreu assado. Como conciliar este final com o vôo de Dédalo e Ícaro, do labirinto para a liberdade? Ou Dédalo teria sido morto depois da queda de Ícaro? Ou o cisne que possuiu Leda era apenas a metáfora de uma nave de velas brancas, uma nave, uma ave? Ou a imagem de Narciso é o rosto de um transeunte estranho? Toda fonte é uma moça bonita que foi amada por um deus, que disse não a um rio, que fugiu de um sátiro, nada é real, nada é apenas isso, tudo é transformação, todo traçado de constelação é o pedaço de um esboço de um drama terrestre, tudo vibra de tanto significar. Que é uma esfinge, uma quimera, uma medusa, uma górgona, comparada com um pai que mata os filhos e serve sua carne ao Pai dos Deuses? Última água, esta fonte é tudo que restou do dilúvio. Fatos não se explicam com fatos, fatos se explicam com fábulas. A fábula é o desabrochar da estrutura, arquétipo em flor. Uns são transformados em flores, outros são transformados em pedra, outros ainda, se transformam em estrelas e constelações. Nada com seu ser se conforma. Toda transformação exige uma explicação. O ser, sim, é inexplicável. Uns se transformam em feras, outros são mudados em lobos, em aves, em pombos, em árvore, em fonte. Só a ninfa Eco se transformou em sua própria voz. Em que língua falar com um eco? Uma uma língua língua lembra lembra uma uma lenda lenda, Narciso, Narciso Narciso. Que é um ciclope comparado com a história de um príncipe que matou o pai e casou com a própria mãe? Qual é o animal que de manhã anda de quatro patas, à tarde anda com duas e à noite anda com três? Consultem a Sibila, ouçam a pitonisa, leiam sinais nos céus, no movimento das águas, Narciso. O adivinho Tirésias tinha dito a Laio, rei de Tebas, vejo horrores, vejo trevas, terás um filho que vai te matar e casar com a rainha, sua mãe. Que horror a este horror se compara? Velho Tirésias cego, vítima e servidor de Apolo, deus luminoso, que dá o dom de adivinhação, senhor dos três tempos, deus que tudo vê, tudo acompanha, tudo sabe. Laio põe o menino Édipo dentro de uma caixa e a solta na correnteza do Nilo. A caixa com o menino vai dar numa praia, onde a encontra uma loba. Outros dizem pastores. Édipo o príncipe oculto, ignorante de sua origem, cresce, robusto, entre pastores. Um dia, decide ir a Tebas, a grande cidade, a cidade onde mora o grande rei. Édipo começa a realizar seu destino, o desejo da Moira, do fado, da fortuna, das potências cegas do acaso que tudo regem na terra e nos céus, na vida dos deuses e na vida dos homens, reflexo da ordem suprema. O rei Laio viajava incógnito pela estrada que sai de Tebas. Cruza com o pastor, desentende-se com ele, lutam, a juventude de Édipo prevalece, Édipo deixa para os abutres o cadáver do pai, a garganta aberta, por onde escorre sangue. A notícia chega rápido à cidade, a rainha Jocasta está viúva. Viajando incógnito, o rei foi morto por um desconhecido. A cidade está amaldiçoada. Na estrada que sai da cidade, um monstro, a Esfinge, cabeça e peitos de mulher, asas de pássaro, corpo e patas de leão, submete todos os passantes a uma pergunta, um enigma, decifra-me ou te devoro. Centenas de tebanos tinha devorado, ninguém mais se atrevia a sair da cidade. Édipo resolve enfrentar a Esfinge, o monstro interrogador, o monstro-pergunta, o proponente, o primeiro filósofo, o ser questionário.
As when a story has two ends, as when a story has several beginnings, as when a story tells another story: escaping from Minos and from the labyrinth, Daedalus, the incomparable artisan, the inventor of inventors, came to the Sicilian coast, on the beaches of king Cocalo. For Cocalo, the incomparable artisan designed a room for the throne where one could see without being seen, hear without being heard, and be when absent. Minos, lord of the sea, came to reclaim his prisoner. Fearful, Cocalo threw Daedalus into an oven, where he died roasted. How to reconcile this end with the flight of Daedalus and Icarus, from labyrinth to liberty? Or Daedalus would have been killed after the fall of Icarus? Or the swan who possessed Leda was only a metaphor for a vessel with white sails, a fleet, a flock. Or the image of Narcissus is the face of an unknown transient. Every fountain is a beautiful woman who was loved by a god, who said no to a river, who fled a satyr, nothing is real, nothing is only this, everything is transformation, every trace of a constellation is a part of a sketch of a terrestrial drama, signifying so much that everything vibrates. What is a sphinx, a chimera, a medusa, a gorgon, compared with a father who kills his children and serves the flesh to the Father of the Gods? Last water, this fountain is all that remained from the deluge. Facts are not explained by facts, facts are explained by fables. The fable is the blossoming of the structure, archetypal in flower. Some are transformed into flowers, others are transformed into stone, still others transformed into stars and constellations. Nothing in its being conforms to itself. Every transformation demands an explanation. The being, yes, is inexplicable. Some transform themselves into beasts, others are changed into wolves, into birds, into doves, into a tree, into a fountain. Only Echo, the nymph, transformed herself into her own voice. In which language to speak with an echo? A a language language recalls recalls a a legend legend, Narcissus, Narcissus, Narcissus. What is a cyclops compared with the story of a prince who killed his father and married his own mother? Which animal in the morning walks with four legs, in the afternoon walks with two, and at night walks with three? Consult the Sibyl, listen to the pythoness, read the signals in the heavens, in the movement of the waters, Narcissus. The seer Tiresias had told Laius, the king of Thebes, I see horrors, I see darkness, you will have a son who will kill you and marry the queen, his mother. To which horror can this horror be compared? Old Tiresias blind, victim and server of Apollo, luminous god, who gives the gift of divination, lord of the three ages, god who sees all, who accompanies all, knows all. Laius places the boy Oedipus inside a box and releases it in the currents of the Nile. The box with the boy washes up on a beach, where it is found by a she-wolf. Others say shepherd. Oedipus, the occult prince, ignorant of his origin, grows robust among the shepherds. One day, he decides to go to Thebes, the big city, the city where lives the great king. Oedipus begins to realize his destiny, the desire of the Moira, of fate, of fortune, of the blind potencies of chance that rule all in heaven and on earth, in the life of gods and in the life of men, reflex of the supreme order. King Laius was traveling incognito on the road that leaves Thebes. Crosses the shepherd, has a misunderstanding with him, they fight, Oedipus’ youth prevails, Oedipus leaves for the vultures his father’s cadaver, open throat, from which the blood flows. The news arrives fast in the city, queen Jocasta is a widow. While traveling incognito, the king was killed by a stranger. The city is accursed. On the road that leaves the city, a monster, the Sphinx, head and chest of a woman, wings of a bird, body and legs of a lion, submits all passers-by to a question, an enigma, decipher me or I devour you. Hundreds of Thebans it had devoured, nobody dared leave the city. Oedipus decides to confront the Sphinx, the interrogator-monster, the question-monster, the proponent, the first philosopher, the questionnaire being.

[…]

Que é um eco senão a transformação de uma voz em pedra, no eternamente idêntico a si mesmo, como fazem as letras do alfabeto, inventadas por aquele Cadmo, filho de Agenor, rei da Fenícia, e da rainha Telefasse? Cadmo, o protegido de Palas Atena, o herói que vem do Oriente para encontrar a irmã, Europa, raptada por Zeus sob a forma de um touro e matar o dragão? Inspiração da deusa, arranca os dentes do dragão e os semeia. Dos dentes, brotam guerreiros furiosos que atacam o herói. Cadmo consegue que se destruam entre si. Letras do alfabeto, dentes do dragão, vindas da Ásia, o aleph, o beit, o gama, delta, zaleth, sementes, poeiras de sons, átomos soltos, épsilon, dzeta, yod, ômega. Que diriam os Sete Sábios dos Doze Trabalhos de Hércules? Cada um tem significado preciso, como a cabeça da Medusa no escuro da deusa Atena. Omnia mecum porto, tudo o que é meu carrego comigo. Ninguém vê meu rosto e continua vivo, diz o Senhor, diz a Medusa. Por que nos moldou do barro o Titã Prometeu? Por que roubou para nós o fogo de Zeus? Ontem, estava tentando interpretar a guerra de Tróia, o significado de Ulisses, de Agamenon, o rapto de Helena, a ira de Aquiles, a loucura de Ajax, o cavalo de madeira, que coisa
querem dizer essas histórias, nós górdios do lembrado e do esquecido? Aterra pensar que não são histórias, não são portadoras de um sentido recôndito. Só o mais fantástico jamais aconteceu. Tudo aconteceu. Tudo aquilo aconteceu. Pelos cem olhos de Argos tudo aquilo. Zeus quis a filha de Ínaco, rei e rio, Io, sacerdotisa de Hera, Io a transformada em novilha, guardada por Argos de cem olhos, cinqüenta abertos, enquanto os outros cinqüenta dormiam. Quem para fazê-los todos fechar senão o deus astuto, Hermes, senhor das estratégias e falcatruas? Argos, cem olhos, O, Argos, cem olhos, O, o, o, Argos, O, O, O, olhos. Que significam fábulas, além do prazer de fabular? Amor é aquilo que subsiste mesmo depois de você dizer, não te amo mais. Num sonho, sonhei, viver tudo em espelho. Se espelho existe, ser não existe. Esta fonte é uma fossa, esgoto, lixo, cloaca de mitos. Mitos mortos fedem, o cheiro dos reis mortos, deuses mortos, rios estrangulados por Hércules. Este mito está morto e sobre este mito morto construirei o novo mito. Déia, idéia. Erra uma vez. Durar, o maior dos milagres.

(Metaformose – uma viagem pelo imaginário grego, 1994)

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What is an echo but the transformation of a voice into stone, eternally identical to itself, as the alphabet letters, invented by that Cadmus, son of Agenor, king of Phoenicia, and of the queen Telefasse? Cadmus, the protégé of Palas Athena, the hero who arrives from the Orient to find the sister, Europe, kidnapped by Zeus in the form of a bull, and to slay a dragon? Inspiration of the goddess, pulls the dragon’s teeth and sows them. From the teeth sprout furious warriors who attack the hero. Cadmus manages to make them destroy each other. Alphabet letters, dragon teeth, originating in Asia, the aleph, the beit, the gama, delta, zaleth, seeds, dust of sounds, free atoms, epsilon, dzeta, yod, omega. What would the Seven Wise Men of the Twelve Works of Hercules say? Each one has a precise significance, like the head of Medusa in the dark of the goddess Athena. Omnia mecum porto, all that is mine with me I carry. Nobody sees my face and lives, says the Lord, says Medusa. Why did he mold us from clay, the Titan Prometheus? Why did he steal for us the fire of Zeus? Yesterday I was trying to interpret the war of Troy, the significance of Ulysses, of Agamemnon, the kidnapping of Helen, the anger of Achilles, the madness of Ajax, the wooden horse, what do they mean those stories, gordian knots from the remembered and the forgotten? It’s frightening to think that they are not stories, they are not carriers of a recondite meaning. Only the most fantastic never happened. Every thing happened. All of that happened. By the one hundred eyes of Argos all of that. Zeus wanted the daughter of Inachus, king and river, Io, priestess of Hera, Io transformed into a calf, guarded by Argos of one hundred eyes, fifty open, while the other fifty sleep. Who would force them all closed but the astute god, Hermes, lord of strategies and trickery? Argos, hundred eyes, E, Argos, hundred eyes, E, e, e, Argos E, E, E, eyes. What do fables mean, besides the pleasure of fabling? Love is that which subsists even after you say, I don’t love you any more. in a dream, I dreamed, to live all in a mirror. If the mirror exists, being does not exist. This fountain is a ditch, sewer, garbage, cloaca of myths. Dead myths stink, the smell of dead kings, dead gods, rivers strangled by Hercules. This myth is dead and above the dead myth I will build a new myth. Dea, idea. Error upon a time. To endure, the greatest miracle.

(Tr. Marta Bentley and Scott Bentley)