Brasília por Drummond e Cabral

A CRÔNICA DE DRUMMOND SOBRE UM “GIRAFO”

Publicado no Jornal do Brasil, em 09/05/1981, Carlos Drummond de Andrade escreve um texto intitulado: “A solidão do Girafo“. O tema é a necessidade de se enviar a girafa macho (Raio de Luz), do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro para o Jardim Zoológico de Brasília porque ele precisa de uma companheira e a única fêmea disponível se encontra lá.

 

A solidão do Girafo

“Vai, Raio de Luz, vai até Brasília e procura lá a tua namorada, que te dará prazer e filhos, e, com eles, voltarás ao Rio de Janeiro, onde não tens chance de casamento e multiplicação da espécie. Vejo-te passar, o esguio pescoço desafiando viadutos, passarelas e túneis, e sinto que o surrealismo é coisa de arquivo. Pintor que te pintasse viajando dessa maneira seria apenas um copista do cotidiano.

Não podias mais continuar no Rio, sem companheira prestante, e sujeito a equívocos escabrosos com os machos da tua espécie. Precisavas de uma girafa indubitável para o ofício do amor. Puseram-te em caminhão equipado com fiação elétrica e buzina de alarme, acionável ao menor indício de anormalidade, seja na rodovia seja no interior de tua silenciosa organização de girafo.

Sei que deformo teu nome, trocando a letra final, mas já é tempo de dissipar a ambigüidade das designações genéricas, em meio à indefinição crescente dos sexos, observada na sociedade humana. Quando já não se sabe ao certo quem é varão quem é varoa, pelo menos se saiba distinguir o pavão da pavoa ou pavona, o elefanto da elefanta, o sabiau da sabiá, o cisno da cisna, o tigro da tigra, em vez de nos socorrermos do aditamento macho e fêmea. Se distinguimos gato e gata, por que não foco e foca, tamanduó e tamanduá, tatu e tatua? (Deixo aos entendidos o levantamento da nominata completa.) Fica mais fácil e constitui merecida homenagem à pequena, mas divina, diferença que tornou viável o milagre da vida.

O Rio anda tão pobre que até lhe falta uma girafa para amar um girafo, e é preciso recorrer a Brasília, que de resto não consta ser pródiga em atendimento às necessidades nacionais. Mas que tenha uma girafa núbil e disponível já é coisa boa de se saber. Não ficarás solteiro, “Raio de Luz”. E procriarás e tua prole se desdobrará em girafinhos e girafinhas que enriquecerão os nossos zôos, para alegria da meninada curiosa de ver bichos originais, em confronto com a pouca ou nenhuma originalidade de tantos bichos por aí, quadrúpedes ou bípedes.

Por ser conveniente o otimismo, descarto a hipótese de a girafa brasiliana te recusar. Seria muito triste, além de muito oneroso, que a tua viagem, exigindo mil cuidados, tivesse como epílogo o desentendimento entre os parceiros. Não resta dúvida que, democraticamente, a moça girafa tem direito de escolha, e pode não ir contigo e com teu focinho. Mas, por outro lado, não consta que em alguma parte do Brasil os moços girafos sejam numerosos, e ela corre o risco de morrer solteira. Então, presumo que tudo contribui para um enlace feliz; o solitário carioca rejubila-se ao encontrar a solitária planaltina.

Casamento giráfico: não será tão pomposo quanto o do Príncipe Charles, mas em ocasião como esta, de nuvens escuras e bombas perversas, é um descanso para o espírito saber que todas as providências estão sendo tomadas para que um girafo encontre sua girafa e deste encontro resultem girafotes, ou girafelhos, que são fedelhos girafos. Eu, cândido de coração, me associo à expectativa amena de termos no futuro um zoológico bem provido de população girafista de dois sexos, graças à tua linhagem, “Raio de Luz”. Chego a delirar, e sonho um zôo exclusivamente dedicado ao animal mais alto do mundo e que, por isso mesmo, nos dê sugestões de altura, quer material quer moral. Essa fauna esplêndida, que efeito mágico produzirá! Cada um de nós há de sentir-se estimulado a crescer no mínimo alguns centímetros em dignidade cívica, abnegação, amor à verdade. Uma verdade que talvez esteja refugiada nas selvas mas que se entremostre, de relance, no simples e exato comportamento de um animal trazido para o nosso convívio.

A girafa parece que não consegue lamber o próprio corpo, quer dizer, ela pede que outros o façam. Expõe o corpo e confia na ação alheia. Defende-se menos do que se expõe. E, sendo animal exposto, sujeito à apreciação e ao julgamento gerais, é realmente de bom convívio. Não quer privilégios. E, mesmo calada, não é sigilosa. A mania de sigilo, que nós, supostos racionais, inventamos está longe de ser uma regra da natureza. Os bichos não mentem. São o que são, verificáveis. Eu gosto de girafa. Tem pescoço e não tem artimanha. Só não dou um abraço a Raio de Luz porque seria impraticável. Mas torço pelo seu feliz himeneu e prometo mesmo compor um epitalâmio para o casal.”

O autor deixa clara a analogia que faz entre o pescoço e à altura do animal com o comportamento social dos humanos… Também o seu (meu) sonho de se ter um zoológico dedicado a família dos girafídeos…

 

 

ACOMPANHANDO MAX BENSE EM SUA VISITA A BRASÍLIA, 1961

João Cabral de Melo Neto

Enquanto com Max Bense eu ia
como que sua filosofia
mineral, toda esquadrias
do metal-luz dos meio-dias,
arquitetura se fazia:
mais um edifício sem entropia,
literalmente, se construía:
um edifício filosofia.

Enquanto Max Bense a visita
e a vai dizendo, Brasília,
eu também de visita ia:
ao edifício do que ele dizia;
edifício que, todavia,
de duas formas existia:
na de edifício em que se habita
e de edifício que nos habita.

Do livro A Educação pela pedra (1966)

 

 

VIAGEM À EUROPA E DEPOIS

João Cabral de Melo Neto

Antes da Guerra, fora à Europa
Bebeu-a até a última hora.

Por cá, a poesia é sempre o dengue
Do falso índio, homossensualmente

No Nordeste, Freyre e a reação
Para trazer a bola ao chão.

Mas é coisa de romancista,
Não de política, polícia.

Volta da Europa ao “Lafaiete”,
Como se inda ontem lá estivesse.

Escreveu três poemas na Europa:
Dois se apagaram na memória.

Compõe alguns poemas, ainda,
Mas quase todos viram cinza,

Porque, completados, ninguém
Colhe-os da memória onde os tem.

Eis talvez o melhor momento
Para ele, de seu desempenho;

A Polícia, na mira, o tem;
Mas no “Lafaiete” entretém,

E enquanto entretém, entretece
Em sinal mais, quem lá aparece:

É sem pregação, manifesto
(e o gesto só o vê que de perto);

sabe o gesto sábio e ambíguo:
é sempre com o mesmo sorriso

que devolve o mau poema-sim
e o fascista-sim porque sim.

Assim viveu até que o Truão.
Até que Oscar pôs-lhe nas mãos

botar Brasília em pé. Qual a moeda?
Deu-nos um novo Frei Caneca.

Do livro Crime na Calle Relator