Yao Feng: Dois poemas

Silêncio

Ao cabo

pusemos o silêncio no centro,

como se põe a mesa,

para a qual nada foi servido.

 

O banquete tinha já acabado

E, nunca mais,  a mesa,

deixaremos florir a língua.

 

Silêncio. Apenas o canto eventual

o desperta.

O que murmuram os pássaros

nos ramos do sonho?

Não sonhamos de novo,

nesta noite menos nossa.

Ainda o silêncio. O vento sopra

a abundância do teu cabelo

o grito, o uivo

 

 


 

Viagem

Torci a sombra atrás de mim

para fazer uma corda.

Caminho em silêncio

levando a corda à estrada, este cavalo velho.

 

Todos os dias o pôr-do-sol é um aborto

e o relógio tem em si a suficiência do tempo.

No fundo da noite, não há direção

só o redor, o além.

 

Um por um, tiro do corpo os fósforos

cuja cabeça encarnada

rompe com o muro escuro.