Dois poemas

Cinq le Choeur, Anne-Marie Albiach’s collected poems, 1966-2012

Extraído de “La ligne la perte”, de Figurations de l’image, publicado em 2004 pela Flammarion:

le récit serait aveugle

les spasmes de l’oracle        structure 

dans le travail des couleurs

la marge astreint le cercle

sur la terre les indices 

dans une liquidité parfaite 

                                         où se dédit

la langue

le cœur au rythme de la dénégation

la lumière renoue avec la faiblesse 

                                                       dans l’énoncé antérieur

le corps du délit s’abstrait à l’horizon 

terme pris en défaut

accusation motrice de l’air empli de gestes

dédiés à l’étreinte

                                   le sujet s’amenuise

le sommeil les porte dans la clairière

   Dans les draperies écarlates

   ils officiaient sur le thème 

   d’une absence 

o relato seria cego

os espasmos do oráculo       estrutura

no trabalho das cores

a margem constrange o círculo

sobre a terra os índices

numa liquidez perfeita

                                         onde se abjura

a língua

o coração ao ritmo da denegação

a luz se renova com a fraqueza

                                                       no enunciado anterior

o corpo do delito se abstrai no horizonte

termo tomado por falta

acusação motriz do ar pleno de gestos

dedicados ao aperto

                                   o sujeito se esculpe

o sono os leva na clareira

Nas tapeçarias escarlates

eles oficiam sobre o tema

de uma ausência

Tradução: Aurora Bernardini

Blancheur et sédiments

la voix distincte,

la voix mortelle parmi les sédiments – dans

les interstices vocaux une rumeur persiste.

           Blancheur et le roc maintient l’ascendance –

la disponibilité de l’écrit : ce qui se dédit

a lieu. Dans une déperdition du sol, la terre

œuvre sur la page, s’élabore, se démultiplie

en une cécité seconde ou ternaire.

           Telle rectitude dans les éclats: plusieurs

niveaux s’adonnent à une apparente répétition.

           Le minéral cerne une réplique de l’incertain –

du “il” qui s’efface pour apparaître à nouveau.

           Une courbe saisit la parole acquise et

réitère une absence corporelle – l’invocation

se fait matière, se révèle dans une mémoire

immédiate.

           Épiant des formes lointaines, éblouissement

circonscrit ou aléatoire de la récidive et l’air

s’irradie: bouche fermée.

Brancura e sedimentos

voz distinta,

a voz mortal em meio aos sedimentos – um boato persiste

nos interstícios vocais.

           Brancura e a rocha se mantém alta –

pronta à escrita, que se recusa

a acontecer. O chão se perde, a terra se

abre sobre a página, se refaz, se multiplica

em uma segunda ou ternária cegueira.

           Explosões em linha reta: vários

níveis incluídos se entregam a uma aparente repetição.

           O mineral encontra uma réplica de incerteza –

do “ele”, que se apaga para aparecer de novo

           Uma curva captura a palavra, subjugada,

e reitera: palavra em si não há – o apelo

se faz matéria, e se propaga em memória

imediata.

           Espreitando formas distantes, brilho intenso

restrito ou aleatório de uma recaída e o ar

irradia: boca fechada.

Tradução: Régis Bonvicino

Obtuário de Anne-Marie Albiach

Le Monde, 6 nov. 2012

Sobre a poesia de Anne-Marie Albiach, morta no domingo, 4 de novembro de 2012, depois de longa doença, Patrick Kéchichian escreveu no Le Monde que ela era uma das poetas “mais exigentes das últimas décadas”. Este adjetivo volta continuamente quando se evoca essa figura, ao mesmo tempo cardinal e secreta, da poesia francesa contemporânea, com sua aspereza, seu rigor extremo quase obsessivo, que constituíram um modelo para muitos de seus pares. A autora de Mezza Voce (Flammarion, 1984) era tão exigente em sua vida quanto em sua obra, até A impossibilidade de viver. Nascida em 9 de agosto de 1937 em Saint-Nazaire (Loire-Atlantique), ela passou o resto de sua vida em Neuilly-sur-Seine e, mais tarde, em Paris, sem outra atividade conhecida a não ser a escritura. Sua discrição beirava uma forma de invisibilidade social que pode lembrar a desaparição completa de um Maurice Blanchot. Com efeito, suas aparições eram tão raras como se a escritura tivesse absorvido qualquer possibilidade de presença para os outros e, sem dúvida, para si própria.

Ela participou, no entanto, durante a década de 1960, da aventura da revista Siècle à Mains, que ela fundou com Michel Couturier e Claude Royet-Journoud, o qual foi, até o fim, um de seus companheiros mais próximos de criação e de vida. Entre 1963 e 1970 saíram doze números da revista, em que podiam ser encontrados tanto Jean Daive e Alain Veinstein quanto o americano Louis Zukofsky, que ela traduziu (em Vingt poètes américains, Gallimard, 1980). O nome dela poderá ser encontrado, durante anos, no sumário de numerosas outras revistas, como Action Poétique, The American Poetry Review, Bulletin Orange Export Ltd, Cahiers de l’Herne, Change, Esprit ou Nioques. Publicou poucos livros, uns doze em quatro décadas, de Flammigère (Siècle à Mains, 1967; reed. Al Dante, 2006) a Figurations de l’image (Flammarion, 2004), passando por Figure vocative (Lettres de Casse, 1985; reed. Al Dante, 2006) ou Travail vertical et blanc (Spectres familiers, 1989). Quando, em 1971, saiu Etat (Mercure de France), Claude Royet-Journoud escreveu que Anne-Marie Albiach acabava de “mudar o rosto da poesia”.

A julgar por aquilo que se chamou “poesia branca”, seu trabalho revelou desde então uma recusa da sedução imediata, uma vontade de se furtar aos encantos da imagem poética, sem que a poeta tenha, contudo, jamais participado das discussões formais de seu tempo: não se tratava de uma posição estética, mas sim de afirmar, cada vez mais fortemente, a vontade de dizer, de puxar a língua até suas capacidades mais remotas. Jean-Michel Maulpoix falava, a esse propósito, de um “dom inteiro”, de um “gesto de escrever, cuja urgência responde a uma tensão assustadora, a uma deportação de nosso ser”.

Entretanto, se alguma coisa de absoluto parece estar em jogo a cada página dessa obra intensa e tensa, “seu lirismo primevo, agrário [fundiário]”, escreve Jean-Marie Gleize no livro que consagrou a ela (Le Théâtre du poème. Vers Anne-Marie Albiach, Belin, 1995), “torna-se objeto de um controle rigoroso, de um trabalho que visa a integrá-lo, sem deixá-lo dominar, proliferar, arrebatar”.

Dali decorre esta definição, necessariamente negativa, de uma escritura que terá sido, até o fim, um caminho único, incomparável: “trata-se de uma poesia musical sem musicalidade, pessoal-impessoal, lírica-não lírica, ou de uma poesia que teria chegado a algo como uma neutralidade ou uma objetividade lírica”. Em 2006, Jean Davie publicou Anne-Marie Albiach, l’exact réel (Eric Pesty ed.).

Anne-Marie jovem

Foto: cortesia de Claude Royet-Journoud