Natureza Morta com Batatas, Pérolas, Carne Crua, Lantejoulas, Gordura e Casco de Cavalo

[Still Life with Potatoes, Pearls, Raw Meat, Rhinestones, Lard and Horses’ Hooves]

Para Franco Mondini

Em espanhol é naturaleza muerta e de maneira alguma é vida.

E certamente não é natural. Mas o quê é natural?
Você e eu. Eu te compro um drinque.
A uma mulher que não se comporta como mulher.
A um homem que não se comporta como homem.

A morte é natural, pelo menos em espanhol, creio.

A vida? Fico na dúvida.

Veja o exemplo da Contessa, quem nos seus tempos era divina

e agora porta uma verruga do tamanho deste diamante.
Então ragazzo, você é Veneza.
A você. A Veneza.
Não aquela de Casanova.

mas a das pensões baratas, ao lado da rodoviária.
Eu recomendo uma cama estreita manchada de sêmen, mijos e pena
face à parede.
As manchas, os detritos são românticos.
Você é positivamente Pasolini.
Dançando tango e fandango até a morte.
Se deixarmos. Eu não deixo!
Ninguém me supera, sou Piazzola.

Dançarei o tango com você na minha calçinha fio dental de renda
manchada com fluxo de primeiro dia
e uma teta só pendurada do meu vestido como as cataratas do Niágara.
Você falou ‘duress‘ ou ‘dress‘?
Vamos cantar um dueto de Puccini – eu gosto de La Traviesa.
Serei teu macaco treinado.
Serei lantejoula e pulseira.
Serei Mae, Bette, Joan e Marlene para ti –
Serei qualquer coisa que você pedir. Mas peça algo glamuroso.
E que me faça rir.
Outro?
O que eu quero dizer, querido, é
que nada há de romântico na fome
para os famintos

O que eu quero dizer é que o medo não é emocionante
quando é você que tem medo.
O que eu quero dizer é que
a pobreza não é charmosa quando é a tua casa
da qual não se pode escapar.

A corrosão não é bela para os corroídos.
O que é beleza?
Batom num pênis.
Um beijo numa ferida purulenta.

Um salto agulha que pode perfurar um coração.
Um tijolo atravessando o pára-brisas que quer dizer eu te amo.

Certa mágoa que bate na porta.
Olha, eu preciso te confessar, aqui não é Veneza nem Buenos
Aires.
Que vivan las perras.
“Que me sirvan otro trago…”
É San Antonio.
O espelho não é uma feirinha.
É um incêndio. E estes são os vestígios
do que se pôde levar ou salvar.

As pérolas? Comprei na loja Winn’s.
Meu casaco de pele? Acrílico genuíno.
Graças a deus aqui não é Berlin.
Outro drinque?
Barman, outra garrafa, mas-
Ay caray e ah, meu deus!-
O loirinho bonito não quer mais nos servir.
Aos campos da morte! Aos campos da morte!

Que grosso. Que vulgar.
Beba até o fundo, meu docinho. Tenho a grana.
E ele, não sabe quem nos somos?
Que vivan los de abajo de los de abajo,
los de rienda suelta, as bruxas, as mulheres,
os perigosos, os bizarros.
Eu conheço um bar
onde nos pagarão os drinques

se eu botar minha saia na cabeça e você entrar vestindo nada mais
além do meu sutiã preto.

[do livro Loose Woman., New York: Vintage, 1995]

 



Versão em língua portuguesa: Miriam Adelman
Revisão: Marcia Cavendish Wanderley.