No Dia da Eleição

Eu ouço o gemido da democracia, no dia da eleição.
As ruas estão cheias de promessas falsas, no dia da eleição.
Os canalhas votam, os santos votam, no dia da eleição.
Os mortos disparam sua fúria, no dia da eleição.
Meu irmão, afogado em mágoas, no dia da eleição.
A irmã lava a roupa suja, no dia da eleição.
Lentamente, eu me aproximo das vozes sombrias, no dia da eleição.
Os homens se preparam para morrer, no dia da eleição.
A manhã silente defende sua ninhada, no dia da eleição.
Ainda assim, doce, vacilante, no dia da eleição.
No dia da eleição, os gatos tomam chá com o sagui.
No dia da eleição, a mãe recusa seu leite.
No dia da eleição, as rãs coaxam ferozes: parece até que Marte
despencou na Terra.
No dia da eleição, o homem de ferro emite gemidos femininos.
O ar podre, vermelho, intercalando, quixotesco, vulnerável, torpe,
no dia da eleição.
Seus olhos deslizam, no dia da eleição.
As carpideiras carpem, os gementes gemeram, as crianças
dormem, sós, na cama, no dia da eleição.
Sem dúvida, um cometa veio me ver, ígneo, desavindo, tórrido, dedilhado,
no dia da eleição.
No dia da eleição, a transgressão do alarme fátuo e aspiração ignominiosa
abate o salto dourado a um corset degradê de cristas.
O tirano se torna príncipe, no dia da eleição.
Nem amigo ou inimigo, medo menos ainda destino, no dia da eleição.
O mendaz mente para o carneiro, no dia da eleição.
O ultimo poderá ser o primeiro e o primeiro o último da fila, no
dia da eleição.
O mendigo feito rei, no dia da eleição.
“Deixe aquele que não está com os meus poemas ser assassinado!” no dia da eleição.
Deixe o puro pecar, no dia da eleição.
Os fantasmas se vestem com ternos, no dia da eleição.
No dia da eleição, o enxofre cheira a cerveja.
No dia da eleição, o ministro se caga de medo.
No dia da eleição, o polaco e o judeu dançam o foxtrote.
No dia da eleição, o sapato não se encaixa no pé, o tiro sai pela culatra,
o garçom faminto se rebobina antes de inteirar-se dos fatos.
A grade não degrada o violinista, no dia da eleição.
Galochas e lágrimas, no dia da eleição.
O esperma não encontra o ovo, no dia da eleição.
O tambor retumbante se torna gorjeio de sabiá, no dia da eleição.
Eu sinto como se um pesadelo findasse, mas não consigo me levantar, no dia da eleição.

Tradução: Régis Bonvicino


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Sobre Charles Bernstein

Poeta e professor, nascido em 1950 em Nova Iorque, onde vive, é uma das principais forças das letras norte-americanas. Autor de vários livros de poesia e de crítica literária, é o co-fundador e co-editor de PennSound, o maior arquivo de leituras de poetas do mundo todo e do pioneiro Electronic Poetry Center. No Brasil, publicou o livro Histórias da guerra em 2008. Para ele, “a poesia é alguma coisa em longo prazo”. Nome de alcance mundial, ele afirma que o melhor suporte para sua poesia é o diálogo: “Tenho tido a sorte, desde quase o primeiro momento, de contar com bons companheiros”.