O pão dos insanos de Christine Lavant

Christine Lavant (1915-1973) é o pseudônimo de Christine Thonhauser (nome de casamento: Christine Habernig), uma poeta austríaca. Christine nasceu na aldeia de Großedling, no Vale do Lavant (Lavanttal), em uma família de origens humildes. Mais tarde, ela adotou como pseudônimo o nome desse vale.  Recém-nascida, Lavant sofreu de uma infecção nos gânglios linfáticos submandibular e cervical (Linfadenite cervical, também conhecida como tuberculose linfática ou escrófula), condição essa que quase a tornou cega. Durante a infância, a poeta contraiu pneumonia, e, desde os três anos de idade, passou por intervalos regulares de internação hospitalar. Uma infecção prolongada ocasionou-lhe uma deficiência auditiva em um dos ouvidos. Após contínuas interrupções, Lavant concluiu a escola primária, em 1929, na Volksschule de St. Stefan. Todavia, devido à saúde precária, deixou, posteriormente, de frequentar a escola secundária inferior (Hauptschule). A partir de 1933, a poeta passou a sofrer períodos de depressão. A saúde instável, o sofrimento físico e as cicatrizes (nos braços, ombros, peito e rosto) marcam também a poesia de Lavant.

Confinada em casa, Lavant ocupava-se com a escrita, a leitura, o tricô e a pintura. Ainda no início dos anos 30, ela enviou um romance para publicação por uma editora em Graz. Após a rejeição da obra, em 1932, a poeta destruiu completamente todos os seus demais escritos, e, em 1935, foi novamente internada em um sanatório, em Klagenfurt. Após o falecimento sucessivo de seus pais, em 1937 e em 1938, Lavant, que fazia e vendia peças de tricô, passou a receber ajuda financeira dos irmãos. Logo depois, casou-se com Josef Habernig, um pintor cerca de 35 anos mais velho do que ela. Após a Segunda Guerra Mundial, Lavant voltou a escrever e começou a compor poesia lírica. Em 1948, publicou as novelas Das Kind (‘A criança’) e Das Krüglein (‘O jarro’), pela editora Brentano, de Stuttgart. Uma coletânea de seus poemas (Die unvollendete Liebe, ‘O amor inacabado’) foi publicada, em 1949, pela mesma editora. Lavant recebeu, em 1954 e em 1964, o Georg-Büchner-Preis. Publicou, entre outros livros, as coletâneas de poemas: Die Bettlerschale (1956), Spindel im Mond (1959), Sonnenvogel (1960), Der Pfauenschrei (1962), Hälfte des Herzens (1967). Também escreveu contos e novelas. Em 1970, ganhou o Großer Österreichischer Staatspreis für Literatur (Prêmio Nacional de Literatura da Áustria).

Profundamente influenciada por Rainer Maria Rilke, Friedrich Hölderlin e Georg Trakl, e marcada igualmente pelo arcaísmo, pelo hermetismo e pela iconografia cristã, a poesia de Lavant tem sido descrita como catártica, atormentada, mística. Seus poemas encenam variações sutis das relações entre o homem, a natureza e Deus. O tema da maternidade, associado à ideia da morte e à sublimação da vida, é também um leitmotiv da escrita de Lavant. A poeta apropria-se da simbologia cristã, a fim de explorar uma mitologia pessoal que abarca também elementos pagãos. Anjos, Deus e a Virgem Maria misturam-se a demônios e magos, em poemas que se estruturam como ‘orações blasfemas’. Os limites entre Bem e Mal nunca são nítidos nesses poemas, e Christine Lavant parece flertar com os hereges e condenados. “Os poemas de Lavant me lembram (…) igrejas de madeira norueguesas, com cabeças de dragão do lado de fora e símbolos cristãos do lado de dentro”,[i] afirmou o estudioso Lothar Jordan. Se, de um lado, o eu-lírico implora a Deus pela salvação, de outro, logo em seguida, recusa qualquer resgate e se defende com uma agressão aberta contra a injustiça divina. Deus, com quem o eu-lírico parece ter uma relação quase corporal, transmuta-se em lobisomem, carniceiro, torturador. O martírio físico e certa predileção pelo abismal perpassam os poemas de Lavant, e se perdem no espaço ambíguo entre a encenação e o êxtase. Apesar do reconhecimento público que passou a receber a partir do início da década de 50, Lavant continuou a levar uma vida reclusa. Após o falecimento de seu marido, em 1964, a poeta sofreu um colapso e foi internada. Morreu, aos 57 anos, em Wolfsberg. O original do poema “Quero repartir com os insanos o pão” (“Ich will das Brot mit den Irren teilen”), de Christine Lavant, foi extraído da coletânea Gedichte (Suhrkamp Verlag, 2011).

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Original:

Ich will das Brot mit den Irren teilen,
täglich ein Stück von dem grossen Entsetzen,
auch die Glocke im Herzen,
dort, wo die Taube nistet
und ihre winzige Zuflucht hat
in der Wildnis über den Wassern.
Lange habe ich als Stein gehaust
am Grunde der Dinge.
Aber ich habe die Glocke gehört
leise von deinem Geheimnis reden
in den fliegenden Fischen.
Ich werde fliegen und schwimmen lernen
und das Steinerne unter den Steinen lassen,
die Schwermut betten in Perlmutter,
doch den Zorn und das Elend erheben.
Meine Flügel sind älter als deine Geduld,
meine Flügel flogen dem Mut voraus,
der das Irren auf sich nahm.
Ich will das Brot mit den Irren teilen
dort in der furchtbaren Wildnis der Taube,
wo die Glocke das grosse Entsetzen drittelt
zum dreifachen Laut deines Namens.

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Tradução:

Quero repartir com os insanos o pão,
a cada dia uma migalha do imenso horror,
também o sino dentro do peito,
ali, onde a pomba faz ninho
e encontra seu pequenino refúgio
no deserto sobre as águas.
Por anos vivi como pedra
no chão das coisas.
Mas ouvi o sino
sussurrar teu segredo
no voo dos peixes.
Aprenderei a voar e a nadar,
deixarei o pétreo sob as pedras,
deitarei em madrepérola a melancolia
e erguerei raiva e miséria.
Minhas asas são mais velhas que tua paciência,
minhas asas seguiram à frente da coragem
que carregou consigo o errar.
Quero repartir com os insanos o pão,
lá no terrível deserto da pomba,
onde o sino divide por três o imenso horror
ao volume triplicado do teu nome.

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A tradutora: Juliana Brina (1981) nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais (Brasil). Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Traduz textos do alemão, francês, italiano, inglês e holandês. É uma leitora comum. E escreve poemas para respirar.

[i] JORDAN, Lothar. „Zur literaturgeschichtlichen Situierung Christine Lavants zwischen geistlicher Dichtung und moderner Lyrik“. IN: Rußegger, A.;  Strutz, J. (Orgs.). Die Bilderschrift Christine Lavants. Studien zur Lyrik, Prosa, Rezeption und Übersetzung, 1995, p. 86. Tradução livre. No original: “Lavants Gedichte erinnern mich (…) an norwegische Stabkirchen mit Drachenköpfen nach außen und christlichen Symbolen im Inneren”.