O suicídio de Amélia Rosseli

Amelia Rosselli( 1930-1996). Poeta italiana, filha de um teórico italiano do Socialismo liberal e de uma ativista inglesa ligada ao Labour party nasceu em Paris, onde os pais haviam-se exilado. Isso não impediu, entretanto, que as milícias fascistas matassem o pai e o tio, na França, em 1940. Após estudos literários e musicais realizados nos EUA e na Inglaterra, voltou com a mãe, à Itália, em 1940. Durante a década seguinte dedicou-se à tradução literária do inglês, a estudos de teoria musical e ensaística. Frequentou intelectuais romanos  do Gruppo 63 (Nanni Balestrini e outros), inscreveu-se no PCI e, em 1963, começou a publicar seus versos  e textos em prosa em várias revistas italianas, atraindo a atenção de Zanzotto, Raboni  e Pasolini, entre outros poetas importantes. Escreveu também em francês e inglês, tendo traduzido grande parte da obra de Sylvia Plath, a quem admirava.

A morte da mãe, em 1949, causou-lhe profunda depressão. O mal de Parkinson que a atacou desde seus quarenta anos, e outras depressões, levaram-na ao suicídio em Roma, em 1996.

Em suas composições tentou fundir a forma poética com a musical, de forma muito original. “Se, na  música e na pintura, dos elementos reconhecíveis  salientam-se apenas os ritmos (durações ou tempos) e as cores ( timbres ou formas), na escritura e na leitura  as coisas funcionam de maneira um pouco diferente: contemporaneamente, nós pensamos. Nesse caso, a palavra não apenas tem som (ruído) — por sinal, às vezes ela não tem som nenhum, ressoa, apenas como ideia, na mente […]. A língua em que escrevo é uma só, enquanto minha experiência sonora lógica associativa é, com certeza, a de muitos povos, de muitas línguas”. Com essas preocupações a poeta passou, desde a adolescência a procurar “formas universais”.

“Ao escrever a primeira linha de um poema, fixo a largura do quadro, ao mesmo tempo espacial e temporal. Os versos seguintes devem se adaptar com medida e formulação iguais. […]Interrompia o poema quando se esgotava a força psíquica e significativa que me impelia a escrever, ou seja, a ideia ou a experiência ou a lembrança ou a fantasia que deslocavam o sentido, o espaço […] com efeito, a ideia era lógica, mas o espaço não era infinito, mas sim preestabelecido, como a comprimir a ideia ou a experiência ou a lembrança […] . A realidade é tão pesada que cansa a mão, e nenhuma forma pode contê-la.  A memória corre, então, às empresas mais fantásticas (espaços versos rimas tempos)” .

AmeliaRoseli

De alívio em alívio

da “Série Hospital” (1969)
De alívio em alívio, papéis brancos, listras brancas
um alívio,  de passagem em passagem, uma bicicleta nova,
lixívia pulveriza cemitério.

De alívio em alívio, jaqueta branca desponta gris
no abismo, tatuagens e crença e telefones num ramal, enquanto,
esperando pelo deputado Rivulini, abro os botões. De casa em casa

telegrafo, uma bicicleta a mais se puderem por favor de algum
modo empurrar.  De alívio em alívio empurrem a bicicleta
amarela o meu fumar transitivos. De alívio em alívio todos

os papeis espalhados pelo chão ou sobre a mesa, lisos a pensar
que o futuro me espera.

Que o futuro me espere! Que me espere, o futuro bíblico,
sua grandeza, não alcancei, todavia, um destino torto
fazendo a ronda dos açougues.

Tradução: Régis Bonvicino e Aurora Bernardini

Di sollievo in sollievo

da “Serie Ospedaliera” (1969)
Amelia Rosselli

Di sollievo in sollievo, le strisce bianche le carte bianche
un sollievo, di passaggio in passaggio una bicicletta nuova
con la candeggina che spruzza il cimitero.

Di sollievo in sollievo on la giacca bianca che sporge marroncino
sull’abisso, credenza tatuaggi e telefoni in fila, mentre
aspettando l’onorevole Rivulini mi sbottonavo. Di casa in casa

telegrafo, una bicicletta in più per favore se potete in qualche
modo spingere. Di sollievo in sollievo spingete la mia bicicletta
gialla, il mio fumare transitivi. Di sollievo in sollievo tutte

le carte sparse per terra o sul tavolo, lisce per credere
che il futuro m’aspetta.

Che m’aspetti il futuro! Che m’aspetti che m’aspetti il futuro
biblico nella sua grandezza, una sorte contorta non l’ho trovata
facendo il giro delle macellerie.

As flores vêm em dom e se dilatam

da “Documento” (1966-1973)

As flores vêm em dom e se dilatam
um vigiar agudo as silencia
jamais cansar-se dos dons.

O mundo é dente arrancado
não me perguntem por quê
hoje tenho tantos anos
a chuva é estéril.

Mirando às sementes destruídas
eras a união emurchecida que buscava
roubar o coração de outro e se servir.

A esperança é um dano talvez definitivo
as moedas ressoam cruas no mármore
da mão.

Convencia o monstro a se apartar
nos quartos limpos de um hotel imaginário
havia nos bosques viborazinhas embalsamadas.

Maquilei-me de padre da poesia
mas morta estava à vida
as vísceras que se perdem
num bafafá
disso morres varrido pela ciência.

O mundo é plano e pouco espesso:
nele poucos elefantes circulam: obtusos.

Tradução: Aurora Bernardini

I fiori vengono in dono e poi si dilatano

da “Documento” (1966-1973)

I fiori vengono in dono e poi si dilatano
una sorveglianza acuta li silenzia
non stancarsi mai dei doni.

Il mondo è un dente strappato
non chiedetemi perché
io oggi abbia tanti anni
la pioggia è sterile.

Puntando ai semi distrutti
eri l’unione appassita che cercavo
rubare il cuore d’un altro per poi servirsene.

La speranza è un danno forse definitivo
le monete risuonano crude nel marmo
della mano.

Convincevo il mostro ad appartarsi
nelle stanze pulite d’un albergo immaginario
v’erano nei boschi piccole vipere imbalsamate.

Mi truccai a prete della poesia
ma ero morta alla vita
le viscere che si perdono
in un tafferuglio
ne muori spazzato via dalla scienza.

Il mondo è sottile e piano:
pochi elefanti vi girano, ottusi.