Os oitenta anos do poeta francês Henry Deluy

Manuscritos inéditos, 2011

Henri Deluy

Tradução: Solange Rebuzzi
Rio, 9 de abril de 2011.

7

Hôtel Baross Budapest
Funiculaire à l’horizon
Non loin du Danube
Rangements
Foie d’oie frais poêlé sur tranches
De pommes et rondelles de
Pommes de terre hachées recomposées

Et ailleurs sans doute
Un lendemain
Le ciel
Qui n’était plus qu’un silence

7

Hotel Baross Budapeste
Funicular no horizonte
Não longe do Danúbio
Arranjos
Fígado de ganso fresco frito em fatias
Maçãs e rodelas de
Batatas cortadas em pedaços rearrumadas

E por outro lado sem dúvida
Um amanhã
O céu
Que era só silêncio

 

8

Les feuilles étaient à peine
Vertes
Plutôt violines
Et commençaient à peine
À se déplier

Le froid s’étalait
Et grandissait au soleil

8

As folhas estavam meio
Verdes
Quase violetas
E mal começavam
A se abrir

O frio se espalhava
E crescia ao sol

 

9

Laisser venir
Les évènements un à un
Une berline noire
Une femme robuste

Et puis lentement
Roder après les mots

9

Deixar vir
Os acontecimentos um a um
Uma berlinda negra
Uma mulher robusta

E em seguida lentamente
Rodar em torno das palavras

 

10

Pâquerettes ou marguerites
Un seul amour profond
Et singulier
Ce matin où la marjolaine
Partout
Fleurit

L’échafaudage
L’initiale et le ciel
D’une autre couleur

10

Margaridas ou marguerites
Um único amor profundo
E singular
Esta manhã na qual a manjerona
Em toda parte
Floresce

A treliça
A primeira e o céu
De outra cor

 

11

Ce qui tombe sous la main

Et à quel moment
Une langue écrite devient-elle
Une langue étrangère

11

O que cai sob a mão

E em qual momento
Uma língua escrita se torna
Uma língua estrangeira

12

Ou une géographie affective
Une adresse très courante
Un seul petit matin
Une enveloppe très blanche
Très irrégulière

Une couleur elle-même
Émeraude ou encore

Rechercher
L’heure la plus courte
C’était ce que tu disais

12

Ou uma geografia afetiva
Um endereço bem conhecido
Uma madrugada apenas
Um envelope muito branco
Muito irregular

Uma cor
Esmeralda ou ainda

Procurar
A hora mais curta
Era o que dizias

13

Au bas d’un mur
Cette zone uniforme
Un sol d’arbres dénudés

L’arrière d’une fumée
Très légère

Le mouvement des doigts
Devant et
La parole
Que suit une parole

13

Embaixo de um muro
Esta zona uniforme
Um solo de árvores desnudadas

Atrás de uma fumaça
Muito leve

O movimento dos dedos
Na frente e
A palavra
Que persegue uma palavra

 

14

Le jour et la nuit
Ensemble
À peine plus tard

Sur les tôles
Le scintillement poursuivi
D’un reflet

Cependant que le matin gagne
La terre
Gagne la mer
Le genre de chose inconnue
Ou peu connue

À découvrir
De soi-même

14

O dia e a noite
Juntos
Apenas mais tarde

Sobre as placas
O brilho perseguido
De um reflexo

Enquanto a manhã ganha
A terra
Ganha o mar
O tipo de coisa desconhecida
Ou pouco conhecida

A descobrir
por si mesma

15

À dire sans
Jeter les mots ne pas
Les conserver
Jamais par la fenêtre
Jamais sur le nu

Sueur mauvaise
Rebord

Poitrine des mots

15

Para dizer sem
Lançar as palavras não
As conservar
Nunca pela janela
Nunca sobre o nu

Suor ruim
Borda

Tronco de palavras

 

16

L’identique au corps
L’identique à la lettre

Fatalités géographiques
Symboles ratatinés
Vitesse fausse fonction
Fable disloquée
Fiction proche

Ou peupler les mots
De mots nouveaux

16

O idêntico ao corpo
O idêntico à letra

Fatalidades geográficas
Símbolos enrugados
Rapidez falsa função
Fábula deslocada
Ficção próxima

Ou povoar as palavras
Com palavras novas

 

17

L’heure était
Entièrement bleue
Des deux côtés

La nuit protégeait
Les yeux

C’était ce que tu disais
Une première fois
Une deuxième fois
Devant le grand espace
Derrière la porte

Et ce qui restait

17

O momento era
Inteiramente azul
Dos dois lados

A noite protegia
Os olhos

Era o que dizias
Uma primeira vez
Uma segunda vez
Diante do enorme espaço
Atrás da porta

E o que restava

Foto: José Eduardo Barros

Sobre Henri Deluy

Nasceu na cidade de Marselha em 1931 e vive em Val-de-Marne, nas proximidades de Paris. Ativo divulgador da poesia que circula no mundo, é diretor da revista Action Poétique desde 1955, que acaba de lançar seu número 205. E fundou, em 1990, o Festival “Biennale Internationale des Poètes en Val-de-Marne”. Traduziu, só ou em colaboração, poemas de portugueses (Pessoa, Adilia Lopes), do tcheco (Jaroslav Seifert), de espanhóis (Saül Yurkievich, Reina Maria Rodriguez), de russos (Alexandre Tvardosky, Marina Tsvétaïeva, Anna Akhmatova, Maïakovski), do grego (Constantin Cavafy), e alguns outros. Sua poesia está traduzida em diversas línguas, inclusive no Brasil, e ele é um importante representante da poesia contemporânea francesa. Trabalha com imagens, em movimento (e contramovimento), em uma mistura de sabores, cores e texturas: uma circulação de geografias no tempo. Publicou inúmeros livros de poesia, sendo alguns mais recentes: Premières suites, Flammarion, 1991. Je ne suis pas une prostituée, j’espère le devenir, Flammarion, 2002. Les arbres noirs, Flammarion, 2006. Au blanc de neige, Éditions Virgile, 2007.