Pablo Neruda em Rangum, Burma

O poema “Rangum” consta de Memorial de Isla Negra, publicado em 1964, por ocasião do sexagésimo aniversário de Pablo Neruda. Neruda escreveu, em parte, Residencia en la tierra, de 1935, em Rangum, então capital de Burma, onde viveu em 1927, na condição de cônsul chileno. Em seguida, como diplomata, oficiou no Ceilão, em Singapura e pôde conhecer o Oriente – tão fundamental para os melhores momentos de sua escritura. Na cidade de Rangum, com 23 anos, liga-se a uma prostituta, a qual nomeia como Josie Bliss, sem nunca revelar seu nome birmanês. Ou dar a público uma foto sequer de sua amante, que o persegue, entretanto, como “memória”, a partir de 1928, para o resto da vida. Josie Bliss é igualmente a musa de alguns dos poemas de Residencia en la tierra.

O poema “Rangum”, de cunho evocativo, bastante posterior aos de Residencia en la tierra, é, para muitos, o que se poderia chamar de peça “bakhtiniana”, explorando as partes baixas do corpo. Sem deixar de perceber a força enorme de suas imagens e um tateio da realidade como nos versos: “as ruas leprosas/onde um hotel branco para brancos/e um pagode de ouro para pessoas douradas”, penso, no entanto, que ele pertence ao gênero, digamos, colonial, que os modernismos herdaram, como se pode ver hoje, sem senso crítico, de autores do século 19. Josie Bliss é basicamente um objeto sexual exótico, irresistível (representando então Burma), que Neruda disfarça sob alegação de “solidão” ou “desespero” na “cidade tropical”: “eu e ela caminhamos até mergulhar/ no prazer amargo dos desesperados”. O tema social, que surge em “ruas leprosas”, é rapidamente abandonado e serve em consequência para mascarar seus desígnios principais.

O interesse por este poema se dá, em um paroxismo, pelo fato de ele ser tão politicamente incorreto ao repetir e ao acumular preconceitos no que se refere ao estrangeiro e a um país materialmente pobre, que se tornou independente da Inglaterra em 1948 e submergiu, pouco depois, em uma longuíssima ditadura. “Rangum”, além de repisar a lógica do “conquistador”, rememora, de modo mais bruto, “Mandalay” (1882), de Rudyard Kipling. A percepção de uma terra dominada e explorada pelo Reino Unido não existe no texto – ao contrário, Neruda encontra em Kipling o modelo “literário” para abordar, do mesmo modo conservador, a exótica colônia britânica, mesmo sendo um chileno, um latino-americano, o que deveria lhe conferir sensibilidade diversa.

Em 1939, George Orwell escreve o birmaniano “Ironic Poem About Prostitution” , um poema pífio, arrogante, no qual ele apenas mantém a tradição do “turista sexual avant la lettre”, como nos outros poetas, afastando-se também dos conflitos violentos e reais daquele país. Cecília Meireles, em 1953, escreve, na Índia, “Marinha” na qual menciona Burma – peça pictórica geométrica, telúrica, com visão bem distinta da de Kipling (romântica e imperial) ou da visão “alienada” (sim, alienada em 1964), post card sexista, de Neruda: “O barco é negro sobre o azul/ Sobre o azul, os peixes são negros/ Desenham malhas negras sobre as redes, sobre o azul/ Sobre o azul, os peixes são negros./Negras são as vozes dos pescadores,/atirando-se palavras no azul./É o último azul do mar e do céu./A noite já vem dos lados de Burma,/toda negra,/ toda azul./molhada de azul./ — a noite que chega também do mar”. O poema de Cecília– uma cena corriqueira de pescadores, um cartão postal mais delicado –reporta, ao menos, a dificuldade de contato com um mundo tão diverso do dela. Entretanto, e não se fala aqui de Meireles, o gosto pelo exótico (e não pelo outro ou pela investigação do outro), pelo exótico decorativo, diga-se, orienta ainda, muito, a criação poética até hoje. Martaban é o nome do golfo no qual deságua também o rio Irauádi. Preferi usar o nome do rio, para situar melhor o poema nerudiano.

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Rangum 1927
Pablo Neruda

Cheguei tarde em Rangum.
Tudo já estava feito:
uma cidade
de sangue,
sonho e ouro.
O rio descia
da selva selvagem
até a cidade quente,
as ruas leprosas
onde um hotel branco para brancos
e um pagode de ouro para pessoas douradas
era tudo
o que se passava
e não se passava.
Rangum, rampas feridas
pelas cusparadas
dos mascadores de bétele
as donzelas birmanas
atando nudez
à seda
como se o fogo acompanhasse
com línguas de amaranto
a dança, a suprema
dança:
o baile dos pés no Mercado,
o balé das pernas nas ruas.
Luz suprema que abriu em meu cabelo
um globo zenital e entrou em meus olhos,
e varreu minhas veias
os cantos recônditos de meu corpo
até outorgar soberania
a um amor desmedido e desterrado.

Foi assim que a encontrei perto
dos navios de ferro
junto às aguas sujas do Irauádi:
olhava:
pegando homem
ela com sua cor
dura de ferro
seu cabelo, de ferro
o sol a marcava como uma ferradura.

Era meu amor, que eu não conhecia.

Me sentei ao seu lado
sem olhar para ela
porque eu estava só
e eu não buscava rio ou crepúsculo
não buscava leques
mulher, queria uma
mulher para minhas mãos e para o meu peito,
mulher para algum amor e para o meu leito,
mulher prateada, negra, puta ou pura,
carnívora celeste, alaranjada,
qualquer uma,
queria para amar e para não amar
queria para tigela e para colher,
queria perto, muito perto
para morder seus dentes com beijos,
queria fragrante mulher só,
queria tanto com olvido ardente.

Ela talvez quisesse
ou não quisesse o que eu queria
mas ali junto ao Irauádi, junto a água de ferro,
quando a noite chegou, que ali sai do rio,
como uma rede repleta de pescados imensos,
eu e ela caminhamos até mergulhar
no prazer amargo dos desesperados.

Tradução: Régis Bonvicino, 2015

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Rangoon 1927

En Rangoon era tarde para mí.
Todo lo habían hecho:
una ciudad
de sangre,
sueño y oro.
El río que bajaba
de la selva salvaje
a la ciudad caliente,
a las calles leprosas
en donde un hotel blanco para blancos
y una pagoda de oro para gente dorada
era cuanto
pasaba
y no pasaba.
Rangoon, gradas heridas
por los escupitajos
del betel,
las doncellas birmanas
apretando al desnudo
la seda
como si el fuego acompañase
con lenguas de amaranto
la danza, la suprema
danza:
el baile de los pies hacia el Mercado,
el ballet de las piernas por las calles.
Suprema luz que abrió sobre mi pelo
un globo cenital, entró en mis ojos
y recorrió en mis venas
los últimos rincones de mi cuerpo
hasta otorgarse la soberanía
de un amor desmedido y desterrado.

Fue así, la encontré cerca
de los buques de hierro
junto a las aguas sucias
de Martabán: miraba
buscando hombre:
ella también tenía
color duro de hierro,
su pelo era de hierro,
y el sol pegaba en ella como en una herradura.

Era mi amor que yo no conocía.

Yo me senté a su lado
sin mirarla
porque yo estaba solo
y no buscaba río ni crepúsculo,
no buscaba abanicos,
ni dinero ni luna,
sino mujer, quería
mujer para mis manos y mi pecho,
mujer para mi amor, para mi lecho,
mujer plateada, negra, puta o pura,
carnívora celeste, anaranjada,
no tenía importancia,
la quería para amarla y no amarla
la quería para plato y cuchara,
la quería de cerca, tan de cerca
que pudiera morderle los dientes con mis besos,
la quería fragante a mujer sola,
la deseaba con olvido ardiente.

Ella tal vez quería
o no quería lo que yo quería,
pero allí en Martabán, junto al agua de hierro,
cuando llegó la noche, que allí sale del río,
como una red repleta de pescados inmensos,
yo y ella caminamos juntos a sumergirnos
en el placer amargo de los desesperados.