Poemas de Ernst Jandl

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dão
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e   v   a d ã o

conteúdo

para fazer um poema
eu não tenho nada

uma língua inteira
uma vida inteira
um pensamento inteiro
uma memória inteira

para fazer um poema
eu não tenho nada

mutilado de guerra 1955

ele poderia, em breve,
tornar-se capitão.
pena a sua perna.

cristão católico que sou,
insisto no
despropósito da
vida humana

dois gestos distintos

eu me benzo
em frente a cada igreja
eu me ameixo
em frente a cada pomar

como faço o primeiro
qualquer católico sabe
como faço o último
só eu
metrô, na superfície

imóvel no assento estofado do metrô
vejo durante três minutos, entre cinza e cinza
e jornais que se desdobram
e passageiros de pé que seguram longos canos
nas mãos,
verdes e azuis indefinidos

imóvel no assento estofado do metrô
o mundo me (co)move.

Tradução: Fabiana Macchi

Ernst Jandl (1925-2000)