Poemas de V. Khlébnikov (1885-1922)

1)

Из мешка
На пол рассыпались вещи.
И я думаю,
Что мир –
Только усмешка,
Что теплится
На устах повешенного.
(1908)

 

De um saco roto
Vazou quase tudo.
E eu penso
Que o mundo
É só um riso maroto
Luz fraca nos lábios
De algum enforcado.

 

2)

Девушки, те, что шагают
Сапогами черных глаз
По цветам моего сердца.
Девушки, опустившие копья
На озера своих ресниц.
Девушки, моющие ноги
В озере моих слов.
(1921)

 

Moças, estas que marcham
Nos coturnos de seus olhos negros
Pelas flores do meu coração.
Moças que baixam as lanças
De seus cílios sobre os lagos.
Moças que lavam seus pés
Nas águas das minhas palavras.
(1921)

 

3)
* Fragmento do longo poema épico Zanguézi, escrito entre 1920 e 1922, última obra de Velimir Khlébnikov:

А вы, сапогоокие девы,
Шагающие смазными сапогами ночей
По небу моей песни,
Бросьте и сейте деньги ваших глаз
По большим дорогам!
Вырвите жало гадюк
Из ваших шипящих кос!
Смотрите щелками ненависти.
Глупостварь, я пою и безумствую!

E vocês, mocinhas botinolhas?
Com suas botas ensebrilhadas da noite
Pelo céu das minhas canções,
Colham e semeiem a grana dos seus olhos
Pelas estradas!
Arranquem o ferrão de serpente
De suas sibilantes tranças!
Olhem pelas frestas do ódio.
Ferestúpida, eu canto e enlouqueço!

 

4)
Я И РОССИЯ

Россия тысячам тысяч свободу дала.
Милое дело! Долго будут помнить про это.
А я снял рубаху,
И каждый зеркальный небоскреб моего волоса,
Каждая скважина
Города тела
Вывесила ковры и кумачовые ткани.
Гражданки и граждане
Меня – государства
Тысячеоконных кудрей толпились у окон.
Ольги и Игори,
Не по заказу
Радуясь солнцу, смотрели сквозь кожу.
Пала темница рубашки!

А я просто снял рубашку –
Дал солнце народам Меня!
Голый стоял около моря.
Так я дарил народам свободу,
Толпам загара.
(1921)

 

Eu e a Rússia

A Rússia deu a liberdade a milhares de milhares.
Que bonito! Por muito tempo lembrarão disto.
E eu tirei a camisa,
E cada arranha-céu espelhado dos meus cabelos,
Cada fresta
Da cidade do corpo
Estendeu tapetes e rendas.
Cidadãs e cidadãos
De Mim, eu-Estado
De mil janelas de madeixas apinhadas nelas.
Olgas e Ígores
Alegrando-se ao sol,
E não por ordem de alguém, espiavam pela pele.
Caiu a prisão da camisa!

Tão só a camisa tirada,
Dei o sol aos povos de Mim!
Nu, junto ao mar, foi assim
A liberdade aos povos dada,
O bronzeado às multidões.
(1921)

 

5)
* Fragmento do poema épico (supernarrativa) Zanguézi (1921):

Иди, могатырь! [1]
Шагай, могатырь! Можарь, можар!
Могун, я могею!
Моглец, я могу! Могей, я могею!
Могей, мое я. Мело! Умело! Могей, могач!
Моганствуйте, очи! Мело! Умело!
Шествуйте, моги!
Шагай, могач! Руки! Руки!
Могунный, можественный лик, полный могебнов!
Могровые очи, могатые мысли, могебные брови!
Лицо могды. Рука могды! Могна!
Руки, руки!
Могарные, можеские, могунные,
Могесные, мошные, могивые!
Могесничай, лик!
Многомогейные, могистые моги,
Это вы рассыпались, волосы, могиканами,
Могеичи — моговичи, можественным могом, могенятами,
Среди моженят — могушищ, могеичей можных,
Вьется один могушонок,
Можбой можеству могес могатеев могатых.
В толпе моженят и моговичей.

Вода в клюве! Крылья шумят ворона.
Тороплюсь, не опоздать бы!

Лицо, могатырь! Могай, моган!
Могей, могун!
Могачь, могай!
Иду можарищем, можарю можарство можелью!
Могачь, могай! Могей, могуй!
Иди, могатырь!
Мог моготы! Можар можавы!
Могесник, мощник!
Можарь, мой ум! Могай, рука! Могуй, рука!
Моган, могун и могатырь!

 

Vai, poderói!
Marcha, poderói! Possarda, possardor!
Possaz, eu podo!
Poderudo, eu posso! Podei, eu podo!
Podei, meu eu. Prumado! Aprumado! Podei, posseidor!
Poderandai, olhos! Prumados! Aprumados!
Desfilai, podeidades!
Marcha, posseidor! Mãos! Mãos!
Possálico, podivinoso semblante, cheio de pondorações!
Poderardentes olhos, posselhonários pensares, pondereiros sobrolhos!
O rosto dos podentreiros. A mão dos podentreiros! Possenvasores!
Mãos, mãos!
Possublimes, possálicas, podivinas,
Portenteiras, potenciosas, poderousadas!
Posserga-se, semblante!
Onipodentes, posserosas podeidades,
Vocês espalharam-se, cabelos, possindígenos,
Poderanos: poderdeiros, pelo possenhor podivinoso, por podescendentes,
No meio dos possinfantes: o potentaço, dos poderozes proverossímeis,
Enrosca-se um sapoderoso,
Possencantado por podivineiros podencantos de possentes posselhardários.
Na multidão de possinfantes e poderdeiros.

Água no bico! As asas da gralha fazem ruído.
Tenho pressa, não posso atrasar!

O rosto, poderói! Possai, poderoz!
Podei, possaz!
Possereiro, possai!
Em poderardor, possincendeio com potentochas o podereino!
Possereiro, possai! Podei, Possaz!
Vai, poderói!
Poderarde a podreria! O poderardor do possincêndio!
O possencanto, potentante!
Possarda, minha mente! Possai, mãos! Possejam, mãos!
Possaz, poderoz e poderói!

 

6)
* Fragmento do poema épico (supernarrativa) Zanguézi:

Они голубой тихославль,
Они голубой окопад.
Они в никогда улетавль,
Их крылья шумят невпопад.
Летуры летят в собеса
Толпою ночей исчезаев.
Потоком крылатой этоты,
Потопом небесной нетоты.
Летели незурные стоны,
Свое позабывшие имя,
Лелеять его нехотяи.
Умчались в пустыни зовели,
В всегдаве небес иногдава,
Нетава, земного нетава!
Летоты, летоты инес!
Вечернего воздуха дайны,
Этавель задумчивой тайны,
По синему небу бегуричи,
Нетуричей стая, незуричей,
Потопом летят в инеса,
Летуры летят в собеса!
Летавель могучей виданой,
Этотой безвестной и странной,
Крылом белоснежные махари,
Полета усталого знахари,
Сияны веянами дахари.
Река голубого летога,
Усталые крылья мечтога,
Широкие песни ничтога.
В созвездиях босы,
Там умерло “ты”.
У них небесурные косы,
У них небесурные рты!
В потоке востока всегдава,
Они улетят в никогдавель.
Очами земного нетеж,
Закона земного нетуры,
Они в голубое летеж,
Они в голубое летуры.
Окутаны вещею грустью,
Летят к доразумному устью,
Нетурные крылья, грезурные рты!
Незурные крылья, нетурные рты!
У них небесурные лица,
Они голубого столица.
По синему небу бегуричи!
Огнестром лелестра небес.
Их дико грезурные очи,
Их дико незурные рты.

 

Eles são a azul silencidade,
Eles são a azul quedad’olhos.
Eles voam pra nunquidade,
Suas asas rugem como foles.
Voaderos voam pros céuguros
Com os noturnos desapareseres.
Na corrente de aladas estasas,
Na torrente celeste de outralas
Voavam lamúrias liberaladas,
Esquecidos do próprio nome
A acarinhar malquereres.
Chisparam por ermos chamantes,
No semprante dos céus de asvezentes,
Da negante, terrestre negante!
Voasentes dos celementos!
A brisa, à noite, em secreditos,
Estérea triste em misterínios.
Passam no céu os correndicos,
Desaseiros bandos, liberalindos,
Na torrente voam pros celementos,
Vão pros céuguros em voamento!
O voaral das vistas potentes,
Com o estranho estaquele indigente,
De asas de neve, os marretadeiros,
Cansados do voo, os curandeiros,
De aureolantes soprenúncios dadeiros.
O rio azul do vôlo,
As asas cansadas do sônholo,
As grandes canções do nádalo.
Nas constelações descalças
A morte do “tu” se alça.
Têm firmamenteiras tranças,
E firmamenteiras bocarras!
Na corrente do leste semprante,
Voaram pro nuncamente.
Com os olhos terrestres da neguez,
Das terrestres leis negandeiras,
Eles vão pro azul em voarez,
Eles vão pro azul em voadeiras.
Envoltos em prefecias em vão,
Voam à foz da pré-razão,
Desaleirasas e roandeiras bocas!
Liberalasas, desaleiras bocas!
Têm firmamenteiras caras,
São a capital azulada.
Correndicos no azul altaneiro!
Afagosos faisqueiros do céu.
Seus olhos bem roandeiros,
Seus lábios liberaleiros.

 

7)
* Fragmento do poema épico (supernarrativa) Zanguézi:

Иверни выверни,
Умный игрень!
Кучери тучери,
Мучери ночери,
Точери тучери, вечери очери.
Четками чуткими
Пали зари.
Иверни выверни,
Умный игрень!
Это на око
Ночная гроза,
Это наука
Легла на глаза!
В дол свободы
Без погонь!
Ходы, ходы!
Добрый конь.

 

Solta a sapátada,
Sábio pocó!
Côcheda núveda,
Mórtida nôitida,
Pôntida núveda, tárdida vístada.
Contas num cântaro
Caem as manhãs.
Solta a sapátada,
Sábio pocó!
Bate na cara
Noturno toró,
Ciência tão clara,
Nos olhos, sem dó!
Livre é o vale
Rédeas na mão!
Marche, marche!
Bom alazão.

 

8)
* Fragmento de Zanguézi:

Верхарня серых гор.
Бегава вод в долину,
И бьюга водопада об утесы
Седыми бивнями волны.
И сивни облаков,
Нетоты туч
Над хивнями травы.
И бихорь седого потока
Великой седыни воды.
Я божестварь на божествинах!

 

A altinaria dos montes cinzentos.
A corrandeira das águas nos vales,
A nevarrasca caindo do abismo
Em grisalhos marfins de ondas.
E o agrisalhado das nuvens,
Outrasas nubladas
Sobre circundulantes matas.
E o pancar da corrente grisalha,
O grande grisalhar d’água.
Eu sou um divinomem em divinestâncias!

 

9)

Мне мало надо!
Краюшку хлеба
И каплю молока.
Да это небо,
Да эти облака!
(1912, 1922?)

 

A mim basta pouco!
Um naco de pão
E um tanto de mel.
E as nuvens que vão
No azul deste céu.
(1912, 1922?)


Notas

[1] No poema será criada uma série de neologismos e associações de sentido com base em três formas radicais: motch (“мочь”) e mog (“мог”), além de moj (“мож”) e mochtch (“мощь”).
De motch (o verbo “poder”, em sua forma infinitiva), nasce a raiz de sua conjugação interna em primeira pessoa, mogú (“могу”, ou “posso”, em português), e da terceira pessoa do plural, mógut (“могут”, ou “podem”). Esta mesma raiz se expandirá, no texto, para sua função nos adjetivos mogútchii (“могучий”, que significa “potente”, “vigoroso”, “forte”) e também mogúchtchestvennyi (“могущественный”: “poderoso”, “potente”), além do substantivo moguchtchéstvo (“могущество”: “poderio”, “força”).
Moj , além de participar nas formas da conjugação do verbo “poder”, da segunda pessoa do singular à segunda do plural do presente do indicativo (por exemplo, em “tu podes”/ ty mójech/ “ту можешь” ou “nós podemos”/ my mójem/ “мы можем”), também está presente nas palavras mójno (“можно”: “pode-se”, “é possível”) e vozmójnost (“возможность”: “possibilidade”).
Mog e moj estarão fortemente associadas, na formação de neologismos no poema do Plano X, entre outros casos, à raiz da palavra bog (“бог”: “deus”) e suas variantes, como, por exemplo, bojéstviennyi (“божественный”: “divino”) e bojestvó (“божество”: “divindade”). Etimologicamente, esta palavra está ligada, na língua russa, à formação do substantivo bogátstvo (“богатство”: “riqueza”), do adjetivo bogátyi (“богатый”: “rico”) e de bogátch (“богач”: “muito rico”, “ricaço”, “milionário”). Esta união gerou neologismos como mogátch (mog + bogátch) e mojéstviennyi (moj + bojéstvienny).
O neologismo que abre o poema é de grande importância não só para o fragmento, mas para Zanguézi como um todo. Trata-se do neologismo mogatýr (“могатырь”), resultado da aglutinação de mog e bogatýr . Bogatýres eram os heróis das canções épicas antigas russas. Para o neologismo, utilizamos a construção “poderói”.
No caso de palavras nas quais ocorre a união das raízes associadas à idéia de “poder” (verbo ou substantivo) com outras palavras ligadas a “deus”, “divindade”, “divino”, como mojéstviennyi (“можественный”), mojestvó (“можество”), mog (“мог”), foram utilizadas as formas “podeidade(s)”, “podivino(so)”, “possenhor” e outras.
As uniões constantes formadas por “poder” associadas a “riqueza”, “rico”, “ricaço” e outras, como mogátch (“могач”), mogátyi (“могатый”), mogátstvo (“могатство”), a opção foi pelas variantes, entre outras, “posselhonário(s)”/ “posselhardário(s)”, “posseidor(es)”, “podereza”.
Também foi necessária a criação de formas verbais. Khlébnikov trabalha com ao menos três tipos distintos de neologismos que formam imperativos, a partir do verbo “poder”: moguéi (“могей”), mogái (“могай”), mogúi (“могуй”). As variantes possíveis de neologismos em português que mantivessem o mesmo sentido, na segunda ou terceira pessoa do singular (Khlébnikov utiliza a segunda pessoa do singular), não resultaram adequadas, seja por se assemelharem a formas já existentes em outros modos do verbo (como em “possa”), seja por simplesmente fazer recordar outros verbos (como na possibilidade de “poda”, que lembraria o verbo “podar”; esta possibilidade foi considerada inicialmente devido à relação com a criação do neologismo “eu podo”, em primeira pessoa). A opção adotada foi a criação de imperativos na segunda pessoa do plural, com as formas, por exemplo, “possai”, “podei”.

Sobre Mario Francisco Ramos

Docente de Literatura Russa na USP. Tradutor, publicou artigos sobre literatura russa e tradução de poema de Khlébnikov (revista Cadernos de Literatura em Tradução, no 2), traduziu a peça teatral "À Saída do Teatro...", de Nikolai Gógol (Paz e Terra, 2002) e participou com a tradução de seis contos na recente Nova Antologia do Conto Russo (editora 34, 2011), com contos de Arkádi Aviértchenko, Velimir Khlébnikov, Boris Pasternak, Evguénii Zamiátin, Serguei Dovlatov e Vladimir Sorokin.