Sextina: Altaforte

Sextina: Altaforte

Ezra Pound, 1885-1972

Loquitur: En Bertrans de Born
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por tratar-se de um provocador de desordens.

Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?

A cena é em seu castelo, Altaforte. “Papiols” é seu jongleur.
“O Leopardo”, a device de Ricardo Coeur de Lion.

I

Tudo pros diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda, cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.

II

Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.

III

Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!

IV

E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.

V

Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as espadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.

VI

Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra “O Leopardo” nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite “Paz!”

VII

Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento “Paz!”

Poema integrante da série “Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound”. In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introdução de Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977.

Sestina: Altaforte
Ezra Pound, 1885-1972

Loquitur: En Bertrans de Born.
Dante Alighieri put this man in hell for that he was a stirrer-up of strife.

Eccovi!
Judge ye!
Have I dug him up again?
The scene in at his castle, Altaforte. “Papiols” is his jongleur.
“The Leopard”, the device of Richard (Cúur de Lion).

I

Damn it all! all this our South stinks peace.
You whoreson dog, Papiols, come!  Let’s to music!
I have no life save when the swords clash.
But ah!  when I see the standards gold, vair, purple, opposing
And the broad fields beneath them turn crimson,
Then howl I my heart nigh mad with rejoicing.

II

In hot summer have I great rejoicing
When the tempests kill the earth’s foul peace,
And the lightnings from black heav’n flash crimson,
And the fierce thunders roar me their music
And the winds shriek through the clouds mad, opposing,
And through all the riven skies God’s swords clash.

III

Hell grant soon we hear again the swords clash!
And the shrill neighs of destriers in battle rejoicing,
Spiked breast to spiked breast opposing!
Better one hour’s stour than a year’s peace
With fat boards, bawds, wine and frail music!
Bah!  there’s no wine like the blood’s crimson!

IV

And I love to see the sun rise blood-crimson.
And I watch his spears through the dark clash
And it fills all my heart with rejoicing
And pries wide my mouth with fast music
When I see him so scorn and defy peace,
His lone might ’gainst all darkness opposing.

V

The man who fears war and squats opposing
My words for stour, hath no blood of crimson
But is fit only to rot in womanish peace
Far from where worth’s won and the swords clash
For the death of such sluts I go rejoicing;
Yea, I fill all the air with my music.

VI

Papiols, Papiols, to the music!
There’s no sound like to swords swords opposing,
No cry like the battle’s rejoicing
When our elbows and swords drip the crimson
And our charges ’gainst “The Leopard’s” rush clash.
May God damn for ever all who cry “Peace!”

VII

And let the music of the swords make them crimson!
Hell grant soon we hear again the swords clash!
Hell blot black for always the thought “Peace!”