Acerca do Tigre, de Blake

Acrescentaria algo às observações de Luis Dolhnikoff acerca do “The Tyger”, de Blake. O Cordeiro (the Lamb) pode ser tanto a representação do bem na obra do Criador como a evocação de um poema anterior do próprio Blake, intitulado “The Lamb”, de Songs of Inocence (1789). A este conjunto sucedeu, em flagrante simetria, Songs of Experience (1794), escrito após a Revolução Francesa para alterar o próprio modo ingênuo de ele mesmo William Blake perceber o mundo, no qual The Tyger corresponde, por antagonismo, justamente a The Lamb.

Assim, a pergunta-chave do poema “Did he who made the Lamb make thee?” [Aquele que fez o Cordeiro te fez?] tem evidente duplo sentido. Ou seja, além de se dirigir desafiadoramente à divindade, ao Criador, a pergunta também se refere, num exercício reflexivo, ao criador do poema “The Lamb” [O Cordeiro], ou seja, ao próprio Blake: o poeta que criou The Tyger seria o mesmo que criou o inocente The Lamb? Augusto de Campos, ao traduzir Lamb por “ovelha”, acaba não somente com a conexão bíblica como com a grande indagação do poema, baseada nas leituras que William Blake (1757-1827) fez do sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772) durante aquele período de superexploração dos assalariados na Inglaterra – se Deus criou o mundo e o bem (The Lamb), criou também as guerras, a miséria e o mal (The Tyger)? Acaba com a pergunta que coloca o próprio Blake em cena, seguramente algo bastante inovador para a época.

Não é um poema fácil de traduzir, mas as dificuldades são de outra ordem. Recriar o quarteto inicial com algo dessa sonoridade que o faz ser eleito um dos trechos mais sonoros da poesia de língua inglesa. Obter uma rima que imite os sons da oficina em que aquele Tigre está sendo forjado, perspectiva claramente ausente na tradução analisada por Dolhnikoff.

The Tyger” foi uma das minhas primeiras experiências de tradução. Dei equivalência a determinados sons, busquei manter o sentido menos superficial, mas não considero, entretanto, a minha tradução exemplar. Uma das razões é que, diante da contagem diferenciada de sílabas do português e do inglês (longas e curtas neste último) e, portanto, da inexistência de um verso de tal métrica na nossa língua, não me preocupei em buscar correspondências, no sentido baudelairiano do termo, como hoje o faria.  Um pouco depois traduzi “The Lamb”. Ambos os poemas, junto a outros de Blake, foram publicados no jornal Rascunho nº 63, Curitiba, julho de 2005.

Há uma grande quantidade de traduções de “The Tyger”na revista catalã sèrieAlfa: http://seriealfa.com/tigre/tigre1/blake.htm#The Tyger

 

THE LAMB

Little Lamb, who made thee?
Dost thou know who made thee?
Gave thee life, and bid thee feed,
By the stream and o’er the mead;
Gave thee clothing of delight,
Softest clothing, woolly, bright;
Gave thee such a tender voice,
Making all the vales rejoice?
Little Lamb, who made thee?
Dost thou know who made thee?

Little Lamb, I’ll tell thee,
Little Lamb, I’ll tell thee:
He is callèd by thy name,
For He calls Himself a Lamb.
He is meek, and He is mild;
He became a little child.
I a child, and thou a lamb,
We are callèd by His name.
Little Lamb, God bless thee!
Little Lamb, God bless thee!

 

William Blake (1757-1827)
Songs of Inocence (1789)

 

O CORDEIRO

Cordeirinho, quem te fez?
Sabes quem é que te fez?
Deu-te vida, deu-te pasto,
Um riacho no campo vasto;
Deu-te roupa que delicia,
Lã clara, fina e macia;
Deu-te também terna voz
Para alegrar os vales sós?
Cordeirinho, quem te fez?
Sabes quem é que te fez?

Cordeirinho, eu o direi,
Cordeirinho, eu o direi:
Teu nome tomou inteiro,
Também se chama Cordeiro;
Humildade meiga e mansa,
Que se tornou uma criança.
Eu, menino, tu, cordeiro,
Temos Dele o nome inteiro.
Cordeirinho, que Deus rei
Te abençoe, como o farei!

 

Sidnei Schneider – Fev. 2001
Canções da Inocência (1789)

 

THE  TYGER

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wing dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water’d heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful simmetry?

 

William Blake (1757-1827)
Songs of Experience (1794)

 

O TIGRE

Tigre! Tigre, ardendo grave
Pelas florestas do entrave,
Que mão ou olho imortal
Modulou-te simetria tal?

Em abismos ou céus quais
Forjou teus olhos fatais?
A qual asa ousou imitar?
Que mão pôde o fogo apanhar?

Diga-me, qual braço, e qual arte,
O cárdio-tendão veio trançar-te?
Quando ele começou a bater,
Que terrível mão, e que ser?

Que martelo? Qual corrente?
Que fornalha forjou-te a mente?
Que bigorna e que tenaz
Tuas unhas tornou capaz?

Quando as estrelas com suas lanças
Cobriram de lágrimas as crianças,
Sorriu ao ver o seu trabalho?
Quem fez o Cordeiro, deu-te talho?

Tigre! Tigre, ardendo grave
Pelas florestas do entrave,
Que mão ou olho imortal
Ousou dar-te simetria tal?

 

Sidnei Schneider – Mar. 2000
Canções da Experiência (1794)

Ensaio de Luis Dolhnikoff: