CAPÍTULOS EM DEFESA DA (IM)PERTINÊNCIA DA POESIA

1. A poesia, por representar uma espécie de cisão analógica no interior mesmo do discurso prosaico, mais propenso a uma lógica-analítica, acaba se constituindo numa linguagem de índole equívoca em relação a esse meio lingüístico que lhe serve de pano de fundo. A poesia é vista como um corpo estranho, um desregramento dentro da regra, signo sob suspeita.

Já a língua corrente requer outra abordagem; os fatos parecem indicar que essa língua praticada em todos os instantes, se vai desfazendo de sua vivacidade criativa e do seu frescor, na medida em que seus traços, significados e inflexões, em obediência a idéia de “termo médio”, se sedimentam pelo uso repetitivo. Noutras palavras, a fala cotidiana não está longe de tornar-se uma arenga monocórdia de publicitários filosofantes. Por conseguinte, ou simultaneamente, mesmo que não seja este o seu propósito imediato, a instabilidade da linguagem da poesia se transforma, pela diferença assinalável, numa crítica a esta fala cotidiana agora quase fática, que é, salvo erro, empobrecedora, haja vista os fins práticos aos quais está ela submetida, e que, invariavelmente, lhe exigem mensagens lineares e sinais com o mínimo de “ruído”. Vale dizer, para a existência “funcionar”, dentro de uma normalidade congenial às “condições modernas de produção”, nos especializamos em produzir enunciados tão erísticos, quanto estáveis, moldados pela lei do menor esforço, e que tendem, em suma, a apequenar nossa compreensão de mundo. Parece uma contradição entre termos, mas a poesia é uma arte de palavras que vai contra a maneira supostamente correta de mobilizar estas mesmas palavras para se obter tais e tais efeitos.

2. A (im)pertinência comunicativa da poesia volta a fazer sentido na mesma medida em que a pós-modernidade ou um suposto “pós-tudo” instauram a nulidade de qualquer reação moral e a defesa, na esfera estética, do novo pelo novo sem conexão com o passado. Enquanto os conceitos perdem consistência e clareza, a poesia persiste naquilo que sempre foi a marca de sua intrínseca originalidade transgressora, a saber, linguagem que beira o silêncio, silêncio na iminência de converter-se em linguagem desprovida de falantes. Som e pausa. Um mínimo de retórica, para um máximo de significação. O poeta, ao carregar a linguagem de significado, não objetiva outra coisa senão subverter a visão, não raro deturpada, da realidade que nos condiciona. Com esta ação simples, ordinária em se tratando de operação poética, sua tarefa já incorpora por si só uma pulsão contestadora. Portanto, a poesia que nos interessa, a poesia em sentido forte, mina as estruturas da nossa contemporaneidade que se compraz com o vazio enquanto repousa sobre cinismo, aborrecimento e amargura imobilizante. A estetização da angústia na transição inacabada de mais um fim-início de século. E o humor — pois é, o humor —, que em semelhante contexto talvez dispusesse de um repertório mais eficiente para perturbar a reificação da vulgaridade nos modos de pensar; mesmo ele, já há algum tempo deixou de ser inventivo e político, torna-se mais cínico a cada dia que passa. A charge reacionária atravessa o humor de entretenimento da classe média. Não merece, portanto, que se lhe conceda a última palavra.

3. Hoje, a condição marginal da poesia, relativamente ao prestígio gozado por outras formas de linguagem no âmbito do embate cultural — e malgrado o risco de desaparição que tal marginalidade pressupõe —, obriga o poeta a assumir uma postura de maior autonomia crítica que, por sua vez, envolve também maior coragem intelectual e um ouvido sempre atento aos transes da diferença e da fragmentação do verdadeiro. A literatura negra, o texto criativo que tematiza a condição feminina, a etnopoesia, a poética homoerótica, etc., se têm beneficiado desses novos panoramas. Não se trata, portanto, de fugir a uma certa marginalidade (já um ponto estratégico), mas antes, de tirar proveito dela; isto porque, os registros provenientes das zonas periféricas, quando metabolizados em conjunção com os traços distintivos da função poética da linguagem e de sua negatividade irredutível, fáustica, que objetivam a “desautomatização da vida psíquica” encravada na fala do sujeito, revestem-se de um poder de desvelamento bastante corrosivo. Inclusive porque, neste movimento de auto-reflexão, sequer seus próprios descompassos passam em branco. Consciência de linguagem supõe rigor e auto-ironia. Desta maneira, a possível utilidade da poesia emerge cada vez mais dessa inutilidade a que ela foi relegada pelo mundo da mercadoria. A multiplicação de meios e de novas tecnologias, e a inflação verbal subjacente a estas realidades, sugerem um contrapeso. E embora seu alcance seja bastante reduzido, a poesia, a par do seu silêncio, talvez ainda tenha algo a dizer sobre este estado de coisas.

4. Dentro desta perspectiva, o amplo espaço reservado às celebridades ou aos artistas da cultura pop, e não aos poetas, para “comentar” os assuntos relevantes do nosso tempo, fato que causa indignação a alguns intelectuais, se justifica pela seguinte razão: no mundo da mídia não há assuntos, de fato, relevantes — aliás, para iniciar ou acabar com o debate, basta examinar os exemplos à disposição em qualquer banca de revista —, ou melhor, digamos que haja “assuntos relevantes”, mas, apenas, para os interesses desses meios.

5. O que se quer das celebridades, do Caetano Veloso, do rapper ou da modelo da ocasião e dos políticos do “mundo cão”, não é uma contribuição significativa, sequer uma palavra reveladora que explique ou (orfandade de mentores messiânicos?) mitigue as nossas contradições e perversidades sócio-culturais, mas sim, uma tirada, um pronunciamento rápido, uma frase entre espirituosa e revoltada que se preste como o bordão das discussões da semana, mas que, por outro lado, não seja muito profunda a ponto de adiar o surgimento do “comentário” da semana que entra, já com ares de retardatária. Reino da estupidez, círculo dos fast thinkers.

6. O que sai da boca dessas pessoas “emblemáticas”, não obstante a boa intenção que tenham, acaba por se transformar na linguagem pasteurizada desses meios, isto é, o espaço que, eventualmente, nos é oferecido para metermos a boca no trombone, se converte, em fim de contas, no espaço narcísico onde a mídia e apenas ela, através de nossa persona, se dá a ver em toda a sua generosa crueldade. Máscara: “soar através de”. Ventriloquismo dos despojos ideológicos.

7. Questão crucial: toda a visibilidade exigida pelo ser, o aparecer no mundo, entorna, escoa, ao fim e ao cabo, para este buraco negro. Quanto mais visibilidade, ou mais existência relevante se busca tão-só através desses meios, mais carnes e idéias moídas se obtém do outro lado.

8. Então, por vezes, se cobra ao poeta as responsabilidades que ele teria como personalidade pública. Pode ser. Mas esta cobrança é até certo ponto indevida, quando não um chiste, pois ao contrário do prosador — que tem uma noção mais ou menos clara da clientela a que serve —, o poeta quando se dispõe a apresentar sua identidade como “a voz” por detrás da linguagem, mesmo assim costuma apreciar mais o solilóquio do que qualquer outra coisa. Ou seja, o leitor lhe parece uma entidade excessiva ou um mal necessário com o qual ele tem de se haver muito a contragosto já que, à revelia da sua vontade, o texto só se completa no instante da leitura. Assim sendo, para o poeta, pouco importa quem é e como reage esse leitor frente aos seus estímulos. O poeta o despreza por secundário, pois do seu ponto de vista o que está em jogo, em primeiro lugar, é o sucesso estético e não comunicativo do poema. Portanto, quando ouço alguém invocar a “responsabilidade social” do escritor, isso sempre me faz lembrar uma foto jornalística da década de 1960, na qual Manuel Bandeira figura participando de uma solenidade pública: lá está ele, mais dentuço do que nunca, colocando a faixa na vencedora do concurso de Miss Brasil do momento. Homem público, mulher pública (Zé Paulo Paes, dixit).

9. A poesia é, por definição, linguagem em crise (em outras palavras, criativa), ser de linguagem, coisa-pensamento com vocação metalingüística, lugar em que os dilemas fundamentais de uma época são problematizados a partir dos seus estratos sígnicos. Ou seja, a realidade não é algo apreensível, capturável; não cabe na imagem de um bloco monolítico. O real se assemelha a algo em construção, em processo; um campo de possibilidades e sempre mediado por signos. A realidade, então, precisa ser lida, decodificada. E a cada leitura obtemos um sentido provável para o instante precário. Revogação e re-evocação. O real faz sentido ou desdobra seus limites, apenas quando — entre os parênteses do pensamento — o suspendemos como interpretação. Portanto, o entorno estimulante da máquina do mundo é produto de um ou mais pontos de vista. Pressupõe o concurso das subjetividades e dos esquivos e equívocos jogos de linguagem.

10. Hans Magnus Enzensberger, em ensaio cuja referência já não sei mais onde recuperar, põe em causa a pretensa periculosidade e os índices de subversão por meio dos quais se representa a poesia. E, talvez, como crença nesse meio-entendimento que nos foi legado por Platão — hoje um lugar-comum —, de que o gênero em questão seria perturbador da ordem e que por isso mesmo se justificaria, por exemplo, a expulsão do poeta da república do poder, acabamos por não dar o devido crédito à problematização irônica levantada pelo poeta e crítico cultural alemão. Inclusive porque, ao longo da história, não são raros os episódios, patrocinados pelo estado ou pela sociedade, em que poetas e escritores são submetidos à censura, às perseguições judiciais e políticas, ao exílio, etc.

11. Segundo Enzensberger, isto não prova, no entanto, o efetivo conteúdo periculoso, insurgente, da linguagem poética, ou artística, contra o pano de fundo do controle social. Na verdade, esses fatos nos revelam como certas superstições, encontráveis à primeira vista, apenas em algumas culturas ditas primitivas, persistem de maneira transformada na trama mental das assim consideradas altas e modernas civilizações. O que se pretende dizer é que os argumentos favoráveis à existência de uma metafísica força explosiva congenial à arte da poesia, capaz de dissolver — se fosse essa a sua intenção —, o objeto representado, são tão questionáveis quanto à “convicção” compartilhada por alguns povos de que o mero ato de deixar-se fotografar significaria a perda, o aniquilamento da alma do indivíduo que posasse, como modelo, para a realização de tal registro.

12. Ao pôr em cheque a presunção de subversão que se atribui à poesia, Hans Magnus Enzensberger, por meio dessa suspeita irônica, nos convida a fruir as idiossincrasias do gênero a partir de uma dimensão menos altissonante, ou menos ingênua em relação ao seu poder transformador.

13. Na invenção verbal greco-latina, a imagem da poesia entendida como um discurso quase que definitivo seja de condenação, seja de absolvição de personalidades ou de acontecimentos, pode ser verificada com facilidade. O poeta consagra e dessacraliza, ele se antecipa ao julgamento dos poderes divinos e terrenos, e pretende ler o pensamento de Deus antes de destruí-lo. Algo parecido se dá na poesia oral africana. Na poética peregrina dos griots, por exemplo, esta característica é marcante. O epíteto de “Boca do inferno”, pelo qual também nos referimos ao poeta barroco Gregório de Matos, é exemplar a propósito do assunto aqui discutido.

14. O poder, a cultura média e as idéias feitas do senso comum reivindicam para a poesia tanto o direito à periculosidade, quanto a condição de “droga estética que paralisa a vontade de resistir”.

15. Um mundo fundado na palavra grafada — quer pelo calígrafo, quer pelos tipos gutenberguianos —, que admite e infla livros inspirados divinamente, isto é, livros sagrados, é que, ao fim e ao cabo, fez com que superestimássemos a poesia tanto em termos de corrupção e revolta, quanto a partir de uma recepção onde ela surge como drogadição anestésica de fundo alienante.

16. Finalmente, desde um ponto de vista semiótico, de um lado temos a parataxe da poesia: uma precipitação para a analogia, a arte, a forma, a síntese, etc. De outro, a hipotaxe, seja à direita ou à esquerda do leque ideológico: um pendor para os aspectos lógicos, a ciência, o “conteúdo”, a análise, etc. Em outras palavras, em relação ao policiamento hipotático dos poderes estabelecidos, sempre ciosos de seus acordos e interesses — sejam estes corretos ou não —, a inutilidade da poesia continuará sendo tolerada, mas sempre como linguagem sob suspeição.

 

* Ronald Augusto poeta, músico, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kanhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Dá expediente nos blogs: www.poesia-pau.blogspot.com e www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com