PERLLOF: CONTRA AS ROTINAS

Entrevista de Marjorie Perloff a Régis Bonvicino e Odile Cisneros

A norte-americana, de origem austríaca, Marjorie Perloff está seguramente entre os melhores ensaístas vivos de literatura e artes do mundo. No Brasil, por ora há apenas um de seus livros publicados: O momento futurista (Edusp, 1993). Não há como discordar do juízo de Augusto de Campos, na apresentação da edição brasileira: “Três livros de ensaios publicados entre 1983 e 1986 – The dance of the intellect: studies in poetry in Poundian tradition, The poetics of indeterminacy: from Rimbaud to Cage e este The futurist moment – justificam que se considere Perloff a maior revelação da crítica literária norte-americana das últimas décadas”.

Perloff, que reside em Pacific Palissades, na grande Los Angeles, estudou no Barnard College, de Columbia, Nova York, e na Catholic University of America, em Washington. Em 1999, aposentou-se como Sadie Derham Patek Professor Emerita of Humanities da Universidade de Stanford, Califórnia, onde lecionou por uma década.

Estreou em 1970, com um estudo a respeito do irlandês William Butler Yeats. Após ensaios sobre a vanguarda européia e sobre William Carlos Williams, Ezra Pound, Wallace Stevens, Frank O’Hara, Robert Lowell, Perloff voltou-se intensamente às questões da produção contemporânea, a ponto de, por exemplo, tornar-se interlocutora do movimento language poetry, desencadeado na década de 80, nos Estados Unidos. Entre seus mais recentes volumes, estão Poetic license: studies in modernist and postmodernist lyric (1990), Radical artifice: writing Poetry in the Age of Media (1991) e Wittgenstein’s ladder: poetic language and strangeness of the ordinary (1996). Neste, estuda o universo de Ludwig Wittgenstein em relação à obra de Gertrude Stein, Samuel Beckett e Robert Creeley, entre outros. Seu último trabalho intitula-se Poetry on & off the page (1999).

O que distingue o olhar de Perloff, além da incomparável força teórica, é a disposição em compreender, com independência na avaliação crítica, a arte que se produz agora. Em 1998, numa entrevista que fiz com ela para a revista Cult (ano II, n. 17) quando estávamos em Florianópolis, disse-me:

“Toda forma de afirmação artística tem algo de político. Acredito haver uma relação próxima entre arte e política, mas isso não significa que essa relação deva pautar a arte. O multiculturalismo produziu efeitos terríveis em nossa poesia. Se não se pode criticar um poeta afro-americano ou latino, tampouco se pode criticar um poeta branco, e isso elimina a possibilidade de um debate consistente. Além disso, o multiculturalismo exacerbou o ‘multinacionalismo norte-americano’: ou seja, nos Estados Unidos o interesse pela poesia de outros países é muito reduzido. Não se falam outras línguas e o termo ‘poesia estrangeira’ é algo dúbio. Espero corrigir isso de alguma maneira.”

Eis Marjorie Perloff, membro do Conselho Editorial de Sibila, nesta entrevista feita em parceria com Odile Cisneros, em julho de 2001.

Régis Bonvicino

 

Sibila: Qual é sua avaliação sobre a qualidade da crítica de poesia hoje? Há bons trabalhos?

MP: Na verdade, nos últimos tempos as resenhas têm melhorado. A revista Verso, editada por Brian Henry, oferece resenhas detalhadas e surpreendentes. Assim como a Boston Review. Todavia, a maior parte dos ensaios e livros a respeito de poesia é espantosamente acrítica. Na maior parte das vezes, é explicativa, com “críticos” louvando ou atacando os autores, sem diálogo real nem debate. Atribuo parte da responsabilidade desse fenômeno à existência de um número demasiado de poetas que não corresponde a demandas de nenhum tipo, nos dias de hoje.

Sibila: O que você acha da crítica publicada nos jornais para os leitores em geral? Ela forma opinião?

MP: Nos Estados Unidos, a imprensa não fala de poesia. O New York Times Book Review publica ocasionalmente artigos sobre poesia. Na revista Time, Philip Roth foi nomeado há pouco como “melhor romancista” ao lado de Julia Roberts, que no mesmo contexto era eleita “melhor atriz”. E mesmo numa lista desse tipo não se apontaram poetas! O jornal The New York Times, aos sábados, tem uma seção intitulada “Arts and Opinion”, na qual apareceu um artigo sobre Julia Kristeva, em julho ou junho [de 2001]. Era um artigo tolo. Então, eu diria que o “leitor” de jornais sabe muito pouco sobre poesia e crítica. No entanto, há leitores de poesia espalhados pelos Estados Unidos, formados, por assim dizer, pela cultura das pequenas revistas.

Sibila: O que você pensa dos estudos culturais como método? A poesia está “além” dos propósitos deles?

MP: Os estudos culturais poderiam ser – e às vezes são – excelentes. Porém a maior parte do que se produz, infelizmente, sob esse rótulo, refere-se às “políticas da identidade”. Assim, aprendemos que a poeta X tem valor porque “ela” é marginalizada pelos brancos. Os estudos culturais podem oferecer perspectivas importantes, em especial para que se compreenda o passado da literatura. Mas, no caso da literatura contemporânea, a meu ver a questão é: o que conta culturalmente? O que é cultura? Quais são as “culturas”? Tais respostas quase nunca são dadas quando se aplica esse método, e os resultados são pobres.

Sibila: Qual é, então, seu “método”?

MP: Tento combinar, da melhor maneira possível, estudo histórico com formalismo – estilo russo, e não new criticism. Penso que, com essa combinação, podem-se situar as poéticas de agora em relação às do passado e ver o que as poéticas de agora, sobretudo, respondem. É preciso ter base teórica. O crítico deve, no entanto, ser capaz de dar e prestar contas de suas predileções. Creio que nada substitui, a contento, a análise cerrada de um aspecto do poema, da forma do verso às convenções poéticas, das convenções ao gênero. Com freqüência, percebo-me sem saber o que penso sobre esse ou aquele texto. Então, volto a ele e o leio exaustivamente.

Sibila: Você é acusada de defender os language poets. Concorda com essa acusação?

MP: Defendi, sim, a language poetry em 1984, num ensaio agora republicado em The dance of the intellect. Naquele tempo, eu queria explicar a um público ignorante o que os languages estavam tentando fazer. Mas de uns anos para cá creio que a expressão language poetry não se aplica mais a nada, e os poetas do grupo não precisam mais de defesa. Além disso, o movimento – como todos – dissolveu-se: alguns se firmaram, outros desapareceram. Language poetry permanece como um termo “sujo” para a maior parte do cenário mainstream norte-americano, o que não é bom. No entanto, os próprios poetas perpetuaram essa situação, por serem totalmente acríticos – e entre eles mesmos. Qualquer novo livro de X ou Y que seja/fosse “membro do clube” é/era saudado com estupefação e o autor era solicitado para leituras… Nesse sentido, os opositores dizem: “Se isso é language poetry, não gosto”.

Sibila: A poesia hoje é pior do que a crítica que lhe é ou não feita?

MP: Não. Não creio, porque de fato não há quase crítica. Existe boa poesia sendo feita. E ela surge, geralmente, de lugares de onde não se espera.

Sibila: Num ensaio sobre Duchamp, você disse que ser avant-garde significa reconfigurar o material do passado de um modo original, para que as gerações mais novas possam avaliar a cultura por meio desse novo corpo de trabalho. Como a definição parece retrospectiva, é possível falar hoje de vanguarda?

MP: Vanguardas não se movimentam em linhas retas. Sim, existe uma poesia de vanguarda hoje, mas ela não está sendo inventada pelos estudantes dos language poets ou pelos alunos dos cursos de escrita criativa nas universidades… Discípulos nunca são bons poetas. Você pode verificar isso estudando o imagismo ou, no caso brasileiro, o primeiro momento do concretismo. A nova poesia só pode aflorar como afrontas aos precursores, ou como “desvios”, para usar a expressão de Harold Bloom. Já que estou falando para brasileiros, por primeiro momento do concretismo entendo o movimento original, dos anos 50. As invenções de Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Eugen Gomringer e Décio Pignatari. Elas foram muito mais importantes do que algumas das imitações feitas na geração seguinte, nas quais a poesia visual tornou-se mera rotina.

Sibila: Dos Estados Unidos, que poetas lhe interessam?

MP: Aprecio a produção de alguns membros do primeiro momento da language poetry, como Bruce Andrews, Ray Armantrout, Charles Bernstein, Clark Coolidge, Lyn Hejinian e Susan Howe. Da geração seguinte, aprecio o trabalho dos Ubu Boys and Girls, do Canadá e de Nova York: Darren Wershler-Henry, Christian Bök, Kenneth Goldsmith, Brian Kim Stefans, Karen Mac Cormack e Lisa Robertson. Gosto de independentes, como Mary Jo Bang e Peter Gizzi. É um cena muito ativa. Valorizo também certas antologias, como From the other side of the century: a new American poetry, 1960-1990, organizado por Douglas Messerli (1994), mas elas se tornaram tão comuns, banais e indiscriminadas… Acho que no mundo todo.

Sibila: O que você acha do papel da internet e das novas tecnologias em relação à experimentação e à inovação?

MP: A internet faz diferença pela descentralização da divulgação, por exemplo, através da UbuWeb (ubu.com) e do site da Coach House Press (www.chbooks.com), e pela busca de novos públicos. Mas há aspectos horríveis, como a linguagem superficial usada pelos grupos de bate-papo e o “vale-tudo” que esse pessoal promove, inclusive no que toca à poesia. No plano da palavra escrita, esse fenômeno equivale ao da expansão das pequenas editoras: qualquer um pode publicar um livro e se intitular poeta. Isso corresponde a que demanda? No fundo, não existem leitores exigindo mudanças. Em lugar do antigo lema, “publique ou pereça”, hoje prevalece o “publique e pereça”.

Sibila: O que você pensa de John Ashbery e Robert Creeley?

MP: Considero que são os dois maiores poetas de sua geração (composta hoje de pessoas com mais de 70 anos). Mas o “culto” a Derek Walcott e Seamus Heaney me confunde totalmente… Walcott e Heaney são muito convencionais e não “fizeram o novo” (“made it new”). Também não compreendo o “culto” a Jorie Graham. Sua poesia é maneirista, confessional, ritmicamente feia, extremamente pretensiosa…

 

Jorie Graham: poesia maneirista

 

Acaba de ser lançado no Brasil, agora, em setembro de 2008,
A Escada de Wittgenstein / A Linguagem Poética e o Estranhamento do Cotidiano,
de Marjorie Perloff
EDUSP