O mediano Antes de nascer o mundo de Mia Couto

Durante a leitura de Antes de nascer o mundo, por diversas vezes recordava com surpresa a entusiasmada recepção contemporânea em relação ao ambientalista e escritor branco de Moçambique, Mia Couto. De volta à leitura do romance, apartado do rumor circunstante, era a desconfiança que secundava a surpresa.

Com efeito, não consegui verificar em sua escrita motivos para toda essa admiração que alguns dos meus conhecidos faziam questão de manifestar ou, de lápis em punho, anotar em cadernetas guardando para depois. Por outro lado, uma constatação que encontrara, quase à mesma época, no artigo do escritor Nelson de Oliveira, intitulado “Entre o perigo e o conforto” (edição 112 do jornal Rascunho, agosto de 2009), embora não desse conta inteiramente de explicar a onda pró Mia Couto “pois não era este o escopo do texto”, ao menos contribuiu para tornar razoável minha crescente incredulidade. Segundo o “escritor” paulista, nos dias atuais: “Praticamente não há mais maus escritores, tampouco escritores geniais”.

Nelson de Oliveira afirma que esta “situação é global” e que surge da “combinação de diversos fatores virtuosos”, dentre os quais destaca “o aquecimento da economia”; a democratização ou o barateamento dos meios de produção; o interesse que o mercado brasileiro despertou nas multinacionais do livro; os prêmios em dinheiro; os cursos e oficinas; a pulverização de eventos e festas literárias. E neste rol, o crítico, tentando ilustrar o quadro de modo sintético e/ou otimista, ainda inclui o conhecido adágio do pensador Marx, que diz: “Da quantidade sempre brota a qualidade”.

Pois bem, se me for permitido aproveitar uma parte do que afirma Nelson de Oliveira, toda essa conversa acaba por situar o escritor moçambicano, me parece, dentro deste elenco de autores da atualidade que a rigor não fedem nem cheiram, pois os mesmos têm a seu favor (?) o pano de fundo da inflação sob controle, o crescimento econômico, o maior poder aquisitivo da população e a oferta crescente de bens culturais a um consumidor cada mais informado que, sei lá por que motivo, se preserva (expressão das mais infelizes) de maneira a não distinguir os maus artistas daqueles que de fato interessam, porque sua, agora, virtuosa capacidade de endividamento, permite-lhe passar um cheque em branco em nome do princípio especulativo. Ora, mas se não há os representantes nem de um lado nem de outro, não há, em fim de contas, mais escritores. Pois, queiramos ou não, sempre iremos topar maus, bons ou excelentes escritores. O que acontece é que estamos abdicando de avançar alguns julgamentos públicos a respeito dessa classe de produtores, embora no espaço indecoroso da privacidade não nos furtemos de, já nem digo julgar, mas sob a vestimenta cínica da maledicência, sentar o sarrafo, pelas costas, nas realizações dos nossos iguais.

A capacidade de juízo, no entanto, se alguns ainda a possuem, se esgarça cada vez mais a medida que subsome ante essa generosa acolhida temperada com a acídia traiçoeira. E o leitor-escritor, no trato e no traquejo com tanto texto imperito (inclusive com alguns que talvez sejam de sua própria lavra), percebe que tal capacidade já se perde por entre os seus dedos. O ambiente já não faz questão deste tipo de intervenção. Na verdade, o fato de não possuí-la lhe infunde até um grande alívio, pois se sentirá incompetente, impedido de emitir qualquer consideração sobre o valor destas obras suportadas pelo publicitário de plantão, e que talvez jamais digam a que vieram. E, a esta altura, como Mia Couto intervém no debate? Julgue o leitor por si.

“Terminara o universo sem espetáculo, sem rasgão nem clarão. Por definhamento, exaurido em desespero. E assim, vagamente, meu pai derivava sobre a extinção do cosmos. Primeiro, começaram a morrer os lugares-fêmeas: as nascentes, as praias, as lagoas. Depois, morreram os lugares-machos: os povoados, os portos”; “Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. Desperdiçamo-nos numa espraiada letargia a que, para o nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos apenas por breves intermitências”; “Não posso ter certeza, mas pareceu-me ver os olhos do meu pai serem invadidos por uma inesperada água. Dentro dele se rasgava um dique, borbotoavam velhos prantos que durante anos soubera conter? Nunca poderei estar certo”.

Dentro de tais condições de trabalho, o que resta a dizer sobre Antes de nascer o mundo poderia ser o seguinte. O romance tem parentesco com essa mesma espécie de qualidade que, segundo o parecer de Nelson de Oliveira, exsurge da quantidade e é encontrável a todo momento e em todos escritos do nosso tempo de homogeneidades líquidas e de relativa prosperidade não-excludente. Mia Couto se aplica com capricho numa ficção irritantemente mediana, à altura de um leitor cujo perfil retrata um sujeito apto a, graças à tolerância da mobilidade social, “acessar” essas obras belamente sumariadas pelos suplementos culturais.

Ao mesmo tempo, apesar da advertência do editor, reputando Mia Couto como “um dos maiores nomes da literatura africana de língua portuguesa”, algo do estilo do moçambicano entra na conta inflacionária do literário em tom pastel ou bege, que tem como maior virtude a de combinar com o que quer que se encontre na sala do cidadão cultivado e humanista de classe média alta. Por sua vez, mesmo a poesia ― um pouco cansada, talvez, de se mostrar sempre  intratável ―, e que até há pouco era “preservada” de tais circunstâncias, já agora começa a se sentir enfronhada e prestigiada nos debates onde as coisas são decididas, naturalmente, jamais levando em consideração os seus interesses. Mas isso é irrelevante, o que importa é cair dentro.

Se na década de oitenta, vale rememorar, a poeta Cora Coralina se tornou a representante a um só tempo pop e naïf do gênero, hoje quem preenche a lacuna deixada pela velhinha, é Manoel de Barros. Em poucas palavras: um lance bizarro bem editado. Sua poesia é inofensivamente estranha; faz uns barulhinhos que, de imediato, são memorizados e citados em colóquios pelos mais juvenis e pelos canastrões infantis. Mas, o bom senhor não passa de um nanico bracejando nos riachinhos bifurcados do consonantal Guimarães Rosa.

Porém, o que interessa para o assunto deste artigo é que ressonâncias dos cacoetes que vincam profundamente a poesia de Manoel de Barros rebatem de raspão na voz do premiado prosador africano. Não afirmo que Mia Couto sofra influência do poeta pantaneiro, nem ao contrário, que o simpático autor brasileiro tenha sido afetado pela escrita do romancista de Moçambique. O fato é que essas simplezas imaginativas de linguagem que ambos têm em comum, vão ao encontro do gosto do leitor meio culto da atualidade global-virtual. Todo o faz-de-conta da escrita sentenciosa, a metaforização em cima de paroxismos, a nomeação lisérgica do mundo e dos objetos, mais do que consagrar o terreno ambíguo e derrisório de uma auto-ajuda que afivela a sua máscara cult, têm inflado e autorizado a existência de sub-mia-coutos ou de sub-manés-de-barro militantes de uma literatura de inclinação xamânica ou canalha que permite ao leitor das redes sociais confinar menos com o texto do que com o autor que o escreve mirando a savana ou o pantanal. Alguns trechos em que o outro lembra um.

“Nessas longínquas paragens, até as almas penadas já se haviam extinto”; “Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje”; “Vitalício inspirava como se a resposta pedisse muito peito…”; “Ora, viver é cumprir sonhos, esperar notícias”; “Diminuído na ilusão, acabei apurando outras defesas contra a nostalgia”; “…foi ali, mais do que em outro lugar qualquer que apurei a arte de afinar silêncios”; “E eu passei a suceder por marés, sazonalmente me inundando de mulher”; “É assim que envelheço: evaporada de mim, véu esquecido num banco de igreja”.

Romancista de quatro costados, Mia Couto desenha em planta baixa na mente do leitor, um hospício-vilarejo alegórico chamado Jesusalém, dentro do círculo da palavra-trocadilho, carregada de sacralização e dessacralização ― equação verbal cujo gosto parafrástico se esgota nela mesma ―, o autor mantém confinados remanescentes tipos de um pequeno teatro do absurdo.  A tensão dramática entre eles se dá na afetação de semelhantes lances de linguagem. Antes de nascer o mundo tentacolocar em cenaesparsos símiles ideolinguísticos como homenagem à imaterialidade da enciclopédia oral de matriz africana. Em curso, o fetichismo da fala mestiça. Exemplares de um vocabulário crioulo: muchém, cubata, tando, carripana, etc., a música sedutora do “outro”, ouvida, lida aqui, em meio à algazarra da metrópole, antípoda das terras do sem-fim. Fetiche da fala mais do caapora (entidade mítica) do que do caipira, do homem da terra, do ribeirinho pensamentoso;  macunaíma sombrio preso em labirinto circular.

Etiqueta da boa convivência multicultural

Mia Couto dá continuidade ao traço modernista de fundação das literaturas africanas de expressão portuguesa, um dos primeiros passos, em âmbito estético, em direção à utopia da libertação nacional dado por muitos escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau no alvorecer da década de 1970. O romancista encarece em seu estilo alusões ao crioulo (compósito lingüístico formado a partir do contato do português com línguas autóctones, e que se tornam línguas maternas ou dominantes de certas comunidades socioculturais), e, por este meio, afirma uma fraturada identidade pós-colonial cuja intenção do gesto faz eco ou, de certa maneira, atende às demandas da dinâmica social em curso, votada a reparar injustiças e exclusões, nem tanto de um ponto de vista politicamente correto, mas a partir de sua versão diluída, a saber, reificando uma espécie de etiqueta da boa convivência multicultural. Antes de nascer o mundo é sinédoque romanesca de alguns aspectos da justiça restaurativa.

Não obstante essas perspectivas sobre o texto literário representarem o reconhecimento da legitimidade de uma série de questões suscitadas pelo espírito de nossa época, cujo recorte de inclusão das diversidades se associa a um relativismo hipoteticamente progressista, não resta dúvida de que, sob tal rubrica, as linguagens analógicas tendem a ser reduzidas, por assim dizer, a dois modos de ser: a) num caso, restam como um sistema autista que mais se presta à omissão alienada ou à reprodução dos discursos hegemônicos; e b) emprestam eventualmente seu caráter melífluo às causas ideológicas otimizando o desempenho destas na efetivação dos seus resultados. Isto é, de um lado ou de outro, a palavra é considerada como sobra e/ou sombra da ação. Despojo dos conflitos político-sociais. No entanto, mesmo concordando com a eventual pertinência dessas pulsões ideológicas envolvidas na abordagem do texto criativo, não se pode perder de vista que isto ainda é uma parcela do problema ou um dos muitos meios de acesso ao indeterminado do discurso literário.

A remissão à oralidade se entranha no texto de Mia Couto à maneira de um imperativo telúrico, neologismos não muito inspirados, marioandradinos, inclusive, tais como: “sacerdotar”, “abutrear”, “ladainhar”, são abonados, por um lado, pela pedra-de-toque da verossimilhança. O artesanato do romance, ser de linguagem que infla fantasmagorias através de um corso operístico de falas e subtextos, requer tais efeitos para fisgar a confiança, bem como a curiosidade do leitor, de modo a conduzi-lo com o mínimo de esforço até o desfecho da trama.  Infelizmente, poucos prosadores têm colhão para sacudir o leitor da hipnose romanesca, arrastando-o para fora do tépido entretenimento no qual investe longos momentos de evasão, deleitando-se enquanto se ilustra. Somos leitores intolerantes aos piparotes machadianos.

Mas, Antes de nascer o mundo não frustra o leitor-seguidor.  Os personagens encarnam e se tornam um pouco mais plausíveis quando desembestam a desfiar  sua discursividade um tanto marrenta e maçante, afetada por provérbiosque, de resto, se constituemnum piscar de olhos previsível à tradição oral das culturas africanas. A semiótica do romance é inspirada pelo inóspito dessas terras e savanas do sem-fim. Em seu “Livro Um: a humanidade”, Antes de nascer o mundo localiza o leitor diante de personagens que se encontram aquém de qualquer compreensão do desígnio a que estão sujeitos. Ocupam uma espécie de waste land, metáfora de um derradeiro campo de refugiados inventado pelo fanático Silvestre Vitalício e “desbatizado” por ele como Jesusalém. As estradas que conduzem até o lugarejo foram apagadas. A cena é atravessada por um permanente estado de retardo em que nada acontece exceto as falas messiânicas do pai, que interpõem sucessivas e reativas cláusulas de sabedoria falaciosa e reacionária às dúvidas e aos enseios de partir dos filhos, Mwanito e Ntunzi. E esta prática de Vitalício é reiterada a tal ponto que acaba por conferir ao personagem uma condição de títere ou de clichê ambulante. Depois de umas 30 páginas lidas, as reações do pai Silvestre Vitalício deixam de ser toleráveis e condizentes com o entrecho da narração e passam a ser dispensáveis. Aliás, o andamento de Antes de nascer o mundo é marcado por uma circularidade obsedante, o preço do confinamento. Invariantes de teor tanto discursivo quanto de ritmo dos episódios da história fazem a leitura se arrastar. Mia Couto transplanta aos grotões africanos a clicheria do fantástico. Pisa esse terreno seguro onde boa parte das experiências ficcionais desde meados do século passado até aqui também costumam ficar algumas das suas raízes. Em Antes de nascer o mundo as coisas começam e findam pela boca de Silvestre Vitalício, o pai, menos fundador mítico do que mitômano desta morada do sem-fim, à beira de um desenlace teleológico supersticioso, continuamente retardado. Vejamos uma cena. Depois de aplicar uma surra furiosa em Ntunzi como paga à sua tentativa de fuga de Jesusalém, Vitalício, debruçado sobre do filho que por pouco não matara, volta atrás e opera um gesto divino de misericórdia. Mwanito, o narrador, descreve assim a cena:

“Quando Ntunzi já estava vazio, meu pai se inclinava até lhe roçar o rosto, e sussurrava, solene:

― Este é o sopro da vida.

Aspirava uma generosa golfada de ar e soprava forte sobre a boca de Ntunzi. E quando o filho já estrebuchava, ele concluía triunfante:

― Eu é que vos pari.”

O suporte poético do lugar-comum bíblico. Tropo que serve de alicerce à construção de Jesusalém, lugar-exílio onde o fracasso do adulto macho Silvestre Vitalício, mescla teatral de déspota e deus, normatiza a misoginia e os maltratos contra a infância como práticas pedagógicas.  Mia Couto tenta descobrir algum lirismo de sabor onírico, mas que se revela retrô, por exemplo, na bizarra situação de sexo zoológico que Silvestre Vitalício protagoniza veladamente com a jumenta Jezibela, único rastro de feminilidade que o fundador de Jesusalém admite no lugar. O narrador Mwanito revela nas primeiras linhas do livro que jamais vira uma mulher naquele estirão de soledades masculinas. Só no “Livro Dois: a visita”, em que pese sua participação in absentia seja marcante em todo o livro anterior, Mia Couto introduz a figura da mulher. Marta, a portuguesa que partiu de Lisboa movida por um amor (bah!) entra em cena para revolucionar a vida dos homens, grupo de apenados a meio caminho de nada. Sem esperança e sem temor; sem passado e sem futuro. Manietados por este Silvestre Vitalício que bem poderia ser um dos seguidores do Conselheiro, o profeta da Jerusalém de taipa, tal como Euclides da Cunha metaforizava o arraial de Canudos.  Antes de nascer o mundo alegoriza aspectos da guerra de libertação da colônia, transe decisivo na existência de qualquer moçambicano. Além do sexo cego e beligerante dos homens, e seu crepúsculo. Corte: o menino de engenho fode com um pé de bananeira (imagem fílmica que atribuo à prosa de Zé Lins do Rego). Mia Couto senta-se à mesa com fantasmas e fragmentos da guerra e escreve um poema sentimental sobre as suas verdadeiras vítimas, isto é, as crianças e as mulheres. Mas, a contrapelo, acho mesmo que o prosador não é um bom-moço, não obstante a fala edulcorada que Mia Couto concede ao narrador Mwanito no momento em que a narrativa chega ao seu fecho:

“A ternura daquela mulher me confirmava que meu pai estava errado: o mundo não morreu. Afinal, o mundo nunca chegou a nascer. Quem sabe eu aprenda, no afinado silêncio dos braços de Noci, a encontrar minha mãe caminhando por um infinito descampado antes de chegar à última árvore”

Mesmo que esta cena final comporte uma temperatura fake, típica do cinema  provincianamente tolerável e comprometedor, me parece que a indignação contida, demonstrada pelo o escritor moçambicano ao logo do livro com relação aos reflexos da barbárie em sua história e cultura, não participa da simulação. Sua fraqueza (para muitos talvez seja o seu “grande diferencial”) é a confiança num procedimento de linguagem excessivamente poético, e correto, mas tão-só, pelo lado da convencionalidade que o espírito da época sublinha.

 


Ronald Augusto – Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro (2007). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com