Junco, de Nuno Ramos

A capa de Junco, novo livro de Nuno Ramos, justapõe as imagens do cachorro e do tronco mortos; aquele em decomposição à margem da rodovia, e este, fungível, à beira da praia. “Junco” também é metonímia de embarcação, no mesmo sentido em que o são “lenho” e “madeiro”.  A tentativa de decomposição dos signos por meio da autorreflexividade, que surge já na capa, uma autorreflexividade insistente, quer do serialismo verbal almejado no desenho sintático dos poemas, quer do colecionismo na sequência de fotografias que estetizam as carcaças animal e vegetal (graças ao registro cotidiano de suas ocorrências), pode nos servir de ponto de apoio para a compreensão liminar do mais recente trabalho de Nuno Ramos.

Não obstante as objeções à possível impertinência do meu ponto de vista, não posso deixar de assinalar aqui que as séries de fotos entremeadas aos blocos de poemas se mantêm mais firmes do que eles, os poemas. Isto me leva à uma suspeita: nessa relação esperar-se-ia mais de protagonismo verbal, mas, se enxergo as coisas mais ou menos bem, Nuno Ramos parece não se preocupar com tal hierarquização. E nisso está correto. À certa altura, cheguei mesmo a considerar os poemas como grandes legendas, arranjadas e diagramadas nas páginas para fazer falar, a contrapelo da escassez informacional contida nas imagens, aquilo de que elas não podem falar de modo nenhum.

No entanto, os poemas de Nuno Ramos, versões legíveis, mas não inteligíveis do não verbal, não conseguem, ressalvando-se o erro de avaliação, vencer a margem de intransitividade em que se consomem a si mesmos. A interrupção intransitiva não é corolário de uma determinação, é antes uma sorte de escolha que está a caminho de algo e que obsta a linha e a linguagem. Só nesse ponto acho consequente estabelecer relações entre o autor de Junco e João Cabral de Melo Neto e seu, por exemplo, Cão sem plumas (1949-50). Com efeito, os poemas do artista são exemplos dessa poesia intransitiva que Cabral põe em questão.

Embora seja possível sondar alguns índices de contato e de contrastes entre os dois poetas, acho difícil, para o caso em tela, não lançar mão da conhecida advertência: “guardadas as devidas proporções…”. Flora Süssekind, uma crítica de respeito, por exemplo, pretende avizinhar a poesia de Ramos de certos estilemas cabralinos, mas para isso cunha uma metáfora que, a bem verdade, interpõe entre ambos um intervalo quase intransponível, já que, segundo a crítica, a linguagem de Junco faz um movimento “largamente expansivo” de assédio a Uma faca só lâmina (1955) —ou a Cão sem plumas —, conjunto evocado pela analista para proceder às correlações. Ora, esse aceno “largamente expansivo” de Nuno Ramos ao poeta João Cabral só cabe mesmo nesse advérbio e nesse qualificativo mercê do gesto mais comiserado do que generoso de Süssekind. A parábola de aproximação é tão ampla que, não raro, vemos Nuno Ramos sair da órbita do seu modelo. O objetivo de Flora Süssekind não deve ter sido operar uma despropositada subversão de um marco poético de nossa tradição, confrontando-o com um poeta jovem em progresso. Invocar a referência meramente nominal, a saber, relógio, bala e lâmina, senhas sem peso de que se servem os poemas dispersivos de Ramos, ou ainda, as carcaças de cachorros mortos, troncos-lenhos, despojos de árvores cuspidos e lixados pelas ondas na areia da praia; enfim, jogar estes fragmentos sobre a mesa a título de menção a um golpe de citações me parece muito pouco e forçado, além de denunciar uma desmedida boa vontade da ensaísta para com os esforços poéticos do consagrado artista plástico. O que teria tudo isso a ver com o rio-cão-sem-plumas, essa metáfora sinestésica cambiante — cujo ritmo prepara a narrativa-rio do livro O Rio (1953) publicado a seguir e onde Cabral, em parceria com o leitor, se propõe a compor “una prosa” —, essa estrutura verbal que já não é surrealismo, mas que ainda não chega à agudeza prolixa da lâmina mais pernambucana que matemática do poeta de Escola das facas?

Junco (os poemas de, e não as imagens) é um tanto leve em sua pretensão litúrgica no arranjo da linguagem: “Perder é uma argila”; “Perder é o selo de uma carta…”; “Irmãos da matéria/ no curso de volta/ à confraria/ cinza/ de antigos corpos.”; “Ama, disse meu olho/ os dois íntimos contrários/ areia e mar”; “O chão é a grande pergunta…”; “Um lugar não é um ganido…”; “Um lugar não é uma ave…”; “Não há trigo/ mas sal, escamas…”; “O que de mim se ouve/ em voz e canto não é sopro…”. “Nunca houve/ vácuo, nunca um/ nada vago”. Na perspectiva de tramar os fios informacionais de um aos fios do outro, não se pode com isso glamourizar o contemporâneo, nem muito menos dessacralizar o clássico a qualquer custo. Podemos, sim, reconhecer que a fruição estética exerce seu poder e se projeta sobre as aparentes disjunções entre o atual e o antigo, e torna tal oposição se não irrelevante pelo menos secundária. O leitor hedônico extrairá, talvez, uma grande satisfação desse diálogo, pois o que justifica a leitura não é a sua antiguidade ou novidade, mas o prazer que ele pode proporcionar a quem tiver apetite para experimentá-lo na fatura de múltiplas relações.

Os poemas de Junco são variações de certas constantes da arte contemporânea que têm matriz metafórico-objetual, isto é, que lidam com possibilidades imaginativas e associativas livres no intuito reificar uma imagem-pensamento em um particular espaço-evento, onde objetos se relacionam e acabam por materializar um símile mental na forma do trocadilho transitável. Por essa razão, a arte contemporânea se constitui como discurso cenográfico antes de tudo; cenografia performativa para uma justaposição de coisas e objetos. Nuno Ramos projeta a metáfora, digamos, relativamente ornamental sobre a metáfora interpretativa. Exemplos: “cadáver de uma árvore boiando”; “Ruga/ de um urubu na espuma”; “nuvem de camurça”; “asas de areia quente”; “pentes de terra, livros de cedro”; “noites de giz”; “os alicates das mandíbulas”; “coração de pedra, coração de musgo”; “a cartilha do sopro”; “a cusparada/ da chuva”; “meu sopro é de areia/ meu rim é de areia”.

João Cabral de Melo Neto em seu Cão sem plumas faz, por seu turno, um jogo de plano e contraplano entre metáfora e anáfora. O poema, embora calcado ferreamente sobre a analógica da similitude, nos impõe a sua cadência, sua figura rítmica, mais pela reiteração da conjunção adverbial comparativa “como” do que pelo inesperado das comparações. O andamento anafórico dos versos traduz o sentido em cadência. Quando não o vislumbramos ouvimos o rio espesso: “imagem de cão ou mendigo”. Um excerto: “Aquele rio/ está na memória/ como um cão vivo/ dentro de uma sala./ Como um cão vivo/ dentro de um bolso./ Como um cão vivo/ debaixo dos lençóis,/ debaixo da camisa,/ da pele”.

Entre Cujo (1993) e Junco (2011), Ramos publicou quatro títulos. Por outro lado, se já é complicado, como uma vez argumentou Ademir da Guia, “manter, em qualquer profissão, sempre o nível mais alto que se consegue alcançar”, que dirá o sujeito que se desdobra em duas ou mais expertises. Em algum momento, nesse processo de desequilíbrio dinâmico, a embarcação poderá eventualmente fazer água. E Ramos não é ainda um poeta pronto.

Não é novidade que um poema, em sua construção, incorpora achados, efeitos fônicos, trocadilhos, diatribes de sentido e som, enfim, esses elementos que Roman Jakobson chama de “equações verbais”. Um poema pressupõe esses insumos ou escapes, mas não se esgota neles. Junco é um livro que congela uma série desses recursos que, no entanto, não resultam em poemas contundentes.

 

Ronald Augusto: poeta, músico, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Dá expediente nos blogs: http://poesia-pau.blogspot.com e http://poesiacoisanenhuma.blogspot.com. É diretor associado do website http://sibila.com.br

 

Nuno Ramos na Sibila