A INVENÇÃO DESSE E DE OUTROS CARNAVAIS

Aliás, não sendo partidário nem da visão do conhecido cantor e tampouco da apetência científica do virtual scholar, o que me resta é proceder a uma interpretação cega, tateante e por esboços, compreendendo que a hipótese de um conteúdo comunicável, de um discurso pretensamente racional e completo em torno ao assunto em apreço — seja anterior ou posterior à fatura mesma deste ensaio —, seria um absurdo contraproducente na dinâmica desse modo de pensamento tão caro a Heidegger (e com que me afino), ou seja, pensamento este que não pretende produzir saber prático utilizável, nem nos dotar diretamente com o poder de agir ou de solucionar este ou aquele dilema.

Além disso, em mais de um ponto me sinto implicado nessas cogitações fragmentárias sobre o carnaval que a seguir levarei à consideração do leitor. Isto é, gosto do carnaval. Carnaval afro-brasileiro, de caso com o samba, e como se diz hoje “pró-ativo”. Deixo de parte o Carnaval naquela acepção em que a rubrica histórica o assinala como “período anual de festas profanas, originadas na Antiguidade e recuperadas pelo cristianismo…”, etc., e levo em conta apenas o nosso outro carnaval. E os outros carnavais da minha subjetividade. Espero, mesmo, que, entrando em estado de conjunção isomórfica com a coisa assediada, eu seja capaz de uma espécie de logopéia, vale dizer, de uma dança do intelecto. Mais mestre-sala do que mestre-fala. O carnaval não será um objeto; não há um objeto em si. Trata-se, aqui, de uma relação entre o meu desejo de interpretação e aquilo a propósito de que esse mesmo desejo se interroga. Aquilo que a análise considera como “o objeto de estudo”, não é senão um acontecimento, um ser e um compósito sígnicos, e as versões que se vão acumulando a seu respeito compõem a realidade fugidia desse acontecimento.

Não obstante o cunho de “visada contemplativa”, esta abordagem se projeta sobre um fato cultural que encerra corporeidades implosivas em ação, dentro — e, quem sabe, para além — dos marcos do estritamente ideológico. Se o carnaval e a sociedade brasileira formam uma continuidade, um todo coeso relativo e relacional, este breve ensaio tenta instaurar uma descontinuidade, um passo crítico em direção a uma carnavalização em negativo, um interrogar pelo reverso. Portanto, o carnaval aqui pode se converter num problema, em algo que pode ser posto em questão. Para esta visada interpretativa, o carnavalizar, reificado como positividade, soaria inócuo. A formação social brasileira está no cerne da semiótica do carnaval, aquela se projeta especularmente em seu modus faciendi, e o carnaval por seu turno inventa, em troca, essa sorte de brasilidade com a qual nós temos de lidar de modo um tanto psicótico, às vezes recusando-a, às vezes reconhecendo-a como condenação narcísica. No seio da instituição do carnaval, e de suas organizações, vamos encontrar todo um repositório de hábitos e de transmissão de valores, atitudes, modos e modas. Temos aí um espaço de socialização do sujeito e de exercício às vezes traumático dos papéis sociais. Carnaval de verso e reverso, perverso — em sua dupla acepção, ou seja, tanto a que vem do latim perversus = posto às avessas, quanto a que o define como algo “malévolo”, “cruel”.

O acontecimento religioso da raça

Uma evocação impertinente. No Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1923), podemos vislumbrar talvez as primeiras iluminações a respeito do carnaval enquanto sistema de signos e de comportamentos representativos, por assim dizer, da nossa diferença cultural exportável. Para Oswald, o carnaval opera a síntese espetacular e especular de nossa suposta brasilidade, conquistada — quem sabe como uma forma de auto-reparação — por meio de uma libidinosa performance musical, rítmica, coreográfica e visual, e que mais tarde se desdobrará na antropofagia ritual como traço de nossa formação.  Num certo sentido, o Manifesto do poeta do modernismo, é, ele mesmo, em diversos aspectos, um grande samba-enredo avant-la-lettre. Neste verdadeiro “samba do branco-doido”, Oswald de Andrade nos passa a sua falação de mitômano fazendo-nos cúmplices das suas ilusões e perplexidades. Engordamos esse corso que segue passando pela avenida.

No segundo parágrafo do Manifesto da Poesia Pau-Brasil nos deparamos com a seguinte afirmação: “O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça”. A imagem proposta pelo poeta parece entrar em conflito com o estágio recente alcançado pelo carnaval carioca, carnaval-escola-de-samba lido, hoje, por muitos em termos de turismo e de festa sexuais em cujo avesso se debate um moralismo carola, pentecostal; festival do elogio perdulário da genitália mulata e dos peitos alvos e siliconados oferecidos ao voyeurismo da arquibancada popular e do camarote novo-rico. Tudo leva a crer tratar-se de um espetáculo de perversões romanas. Mas esse carnaval não é mais religioso, e nem mesmo participa da ordem do artesanato, isto é, há muito abandonou seu talhe naïf. De outra parte, apontar o carnaval carioca, como pretendem os estetas das revistas semanais, em termos de que seria a versão contemporânea, a transculturação da ópera wagneriana, só atende aos interesses das convenções da anomia e à idéia subalterna de conceder ao carnaval o direito a uma espécie absurda de mobilidade social, pois no gozo desse novo status de “ópera moderna”, nossa maior realização cultural se tornaria merecedora de uma compensação, de uma mudança, e para melhor. O cabelo “ruim” se beneficiando da chapinha e das modernas técnicas de alisamento cosmético.Realmente, a categoria do religioso já na cabe mais aqui. A pobreza é o encosto a ser exorcizado. O carnaval já não liga tanta importância à relação dialética, de mútua dependência e de interpenetração entre o luxo e o lixo. Digamos que até certo ponto a função estrutural do lixo é tida como relevante pelos sujeitos envolvidos. Mas no momento em que entra em jogo a gramática do espetáculo, a ascensão e a inflação do luxo fake chega a um ponto tal de pertinência que é tomado por verdade sem derivação. É como o livro ricamente encadernado ou o best-seller que se compra porque se vende. Ou, ainda, como em culturas com uma alfabetização insuficiente (lixo), onde a escritura (luxo) representava ou ainda representa um indício de veracidade: o simples fato de constar por escrito parecia garantir por si só a realidade (o verismo) de uma notícia ou de um relato. A alma não está na pobreza e sim na opulência. Levando em conta as transformações ocorridas ao longo do tempo, poder-se-ia dizer que o carnaval idealizado da estética pau-brasil está mais rente do modelo clássico onde o emprego do substantivo é acompanhado de um adjetivo definidor. Por outro lado, o carnaval dos sambódromos é afetado pelo apetite barroco que perturba este equilíbrio, exaltando in extremis a importância do adjetivo definidor até fazê-lo assumir a própria função do substantivo.

Os componentes cada vez mais brancos e forasteiros da escola de samba —desconhecidos de largos sorrisos cansados — numa coreografia tão monumental quanto mecânica, se anulam ou passam em branco por dever do ofício durante a hora e pouco em que põem em cena esse reality-show em que se converteu o desfile da sua escola. O filme e a fotografia dos seus meneios performáticos têm o poder de substituí-los. Eles não existem, uma cenografia faraônica empurrada por homens-de-força é que lhes atribui uma existência como fantasmagoria. A este respeito vale lembrar um comentário de Abel Martín que consegui desentranhar de uma leitura, por incrível que pareça, sem a menor relação com o assunto do qual me ocupo aqui: “El hombre masa no existe: las masas humanas son una invención de la burguesía, una degradación de las muchedumbres de hombres basada en una desacalificación del hombre, que pretende dejarle reducido a aquello que el hombre tiene de común con los objetos del mundo físico: la propriedad de poder ser medido con relación a unidad volumen”. Um mar de gente; um rio na cheia que já passou antes de passar. Mas, eles não brincam mais o carnaval, não obstante a maré montante com que introduzem na avenida o teatro de uma euforia afetada, ficta.

Esse carnaval, mesmo quando não se restringe aos muros do sambódromo, isto é, quando se passa na rua (cada vez mais raro) ou no clube cheio de celebridades e proxenetas (e que vai parar nas telas de TV durante as madrugadas insones) ainda é simulação e dever. Perpetuação insidiosa, auto-referencial do carnaval enquanto commodity da nossa vocação de mestiçagem paradisíaca. No entanto, ninguém mais brinca o carnaval. Hoje se diz: eu vi o carnaval.  Dirigir-se para o lugar onde acontece o carnaval significa apenas assisti-lo, às vezes em condições bastante desagradáveis. E mesmo para quem aparentemente o brinca, a presença massiva das lentes fotográficas e das câmeras de vídeo em registro indecoroso e voraz, buscando dar visibilidade ao que não pode ser quantificado nem plasmado na visibilidade se fundo da imagem televisiva, resta a sensação de que o que está em causa é a simulação da simulação: todos brincam, em fim de contas, um carnaval intransitivo. Assim, ao contrário do que aprendemos num poema de Manuel Bandeira, esse carnaval sem contato lato sensu, nos diz que paradoxalmente os corpos não se entendem, assim como as almas. A atitude daqueles que participam dessa farsa, isto é, dos que estão supostamente dentro da coisa, é curiosamente “de fora”, se vêem a si mesmos, em abismo, brincando em telões e monitores. Carnaval de pornógrafos entre serpentinas.

Invariavelmente brancos, caras cor-de-fiambre, os presidentes da maior parte das entidades carnavalescas se parecem com empresários bem-sucedidos do neo-liberalismo periférico. O modelo completo exige que vistam a moda da roupa social em sua vulgaridade mais roçagante. O chapéu ao estilo malandro não faz mais parte do seu traje paisano ou de passeio, e exceto no período oficial de carnaval foi quase que abolido. Os puxadores de samba com seus cortes de cabelo máquina zero, à maneira dos rappers endinheirados, pedras reluzentes na orelha, em nada se assemelham ao mestre Jamelão da Estação Primeira da Mangueira. Admiráveis os centenares de atílios usados por Jamelão à guisa de pulseiras e que sempre esticava, tirava e colocava um ou outro em transtorno algo maníaco, e com os quais conseguia talvez se entreter diante da alternância ansiosa e ociosa de fracassos e sucessos experimentados por todas as escolas do chamado Grupo Especial. Turrão, soltava os cachorros em quem o interpelava como “puxador de samba”: era cantor. E, nisso, estava coberto de razão e realeza.

Ao longo do tempo o carnaval carioca estetizou a arquitetura e o urbanismo aflitos da favela. A competência caiu em suas graças e nas vergonhas saradas de suas mulatas. Quem acha que esse carnaval de matriz banto se liga por sinonímia com o caos ou a mera baderna reativa, levou pela frente um golpe de capoeira e não percebeu o estágio atual desse festejo globalizado cada vez menos afro-brasileiro. Não se trata mais daquele carnaval (embora lhe deva seus fundamentos) no sentido em que foi balizado em fins do século 19 por Hilário Jovino Ferreira, esse pernambucano filho de pais forros, criado em Salvador e que mais tarde se estabelece no Rio de Janeiro (Roberto Moura, Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro, 1983) experimentando as características organizacionais das novas instituições populares. Mesmo esse remoto carnaval de cordões multiconsagrados pelo dicionário de suas marchinhas e pelos sambas classudos de Paulinho da Viola, passa longe daquela acepção que o enquadra como algo desorganizado, confuso, sem governo, produto de espaços onde o estado se ausenta, etc. É que o carnaval-escola-de-samba se tornou um negócio muito dispendioso, por esta razão nos últimos anos, talvez décadas (para alguns, desde sempre), as escolas de samba passaram a ter governos estaduais e municipais como seus financiadores parciais. É comum ficarmos sabendo de sambas-enredo que homenageiam cidades, estados, e até instituições. Carnaval de propaganda e chapa-branca. Carnaval se tornou coisa séria, isto é, dá dinheiro. Portanto, deve ser tocado e administrado por não-negros, ou, no mínimo, a esses pálidos cidadãos de prol recém-chegados deve ser reservada uma política reparativa-participativa de gordas cotas.

E o carnaval baiano, que situações e elementos poderiam caracterizá-lo? Carnaval do abadá, a vestimenta dos adeptos de carteirinha dos trios soteropolitanos, moeda e moralidade de troca de um período onde está em causa uma tensão de inclusão-exclusão no tocante a participação na folia. Carnaval conformado à errância do laissez-faire de um mercado sem prumo, que naturaliza o apartheid ecônomico na comunidade dos foliões: aquele que veste o abadá e portanto brinca o carnaval baiano é aquele que consegue pagar por isso. A classe melhor sucedida transpõe para o reinado de momo o seu modo de ser: as grades e as cercas dos condomínios fechados são agora os cordões no interior dos quais se deixam flagrar em transe elétrico, porém apartados do populacho e de seu bodum. As banalidades da baianidade instituídas como reserva de mercado, manifestadas através de um vago budismo nagô e onde as grandes empresas & os blocos do Pelô se encontram de maneira a reprisar como pastiche as idéias de Gilberto Freyre. O semba(depois: samba)do escravo como agente civilizador. A tão estimada afro-brasilidade que suporta o carnaval-tipo concede o peso do corpo e seus humores à imaterialidade cínica das meias idéias que se deterioram numa ideologia da tolerância. O contributo in absentia do africano com sua recepção afetiva, sua participação sexual e a filosofia adquirida nos trópicos, desempenha uma função legitimadora dessas relações sociais e transferência de valores que pavimentam a impostura de uma cordialidade racial.

Carnaval e tolerância. O treino social encerra forte carga afetiva. A visibilidade dos negros durante o período momesco é tolerada e inflacionada (masoquismo), apenas para confirmar a regra de deflação da sua existência-presença (sadismo) subalterna no restante do ano fiscal. A mulata transfere sua “natureza” à categoria de um rendoso “emprego temporário” durante os dias de folia. O passista-gari confirma a impossibilidade de que um convencional “ócio criativo” possa vir a ser gozado um dia pelos representantes meio brancos da classe média-alta brasileira que se penaliza por não possuir a ginga, por não ser cool, etc. Portanto, só lhes resta mesmo abandonar-se ao trabalho, à especulação, aos seus privilégios históricos e à defesa da meritocracia no livre embate da mobilidade sócio-econômica. Dizem que o gari, tolerado enquanto celebridade (e posam ao lado dele!), é o Othello (shakespeariano e não o pequeno Grande Otelo) sem ressentimento da nossa brasilidade de “cadinho de raças”.

A imagem já estabelecida de que o carnaval do Recife — inclusive pela impressão de intensa participação popular que nos infunde, ficando nas antípodas do modelo carioca —, é o lugar de usufruto do verdadeiro folião, começa a me parecer uma impostura tão grande quanto a das manifestações com que todos concordam que ele não coincide, porquanto no esforço algo competitivo em direção ao prazer vencedor estampado no rosto de cada folião militante, está em jogo a conquista de uma originalidade mitológica cujo resultado (indecidível e nunca sabido) promete apontar quem tem o melhor e o mais genuíno carnaval.

Mas, há outros carnavais além desses que acabam figurando como os “únicos” de nota por se situarem sob a atenção desmedida da mídia e das grandes redes de televisão. De outra parte, o carnaval não é baiano, não é paulista (onde se diz que corre risco de morte), não é gaúcho (onde já morreu e ninguém se deu conta), não é carioca. O carnaval não é de ninguém, aliás, isso me faz lembrar uma das suas divisas: ninguém é de ninguém. Finalmente, como canta e diz — a propósito do samba — Fred Zero Quatro, do grupo Mundo Livre S.A., tudo isso não passa de uma “grande invenção”.

 

* Ronald Augusto poeta, músico, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kanhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Dá expediente nos blogs: www.poesia-pau.blogspot.com e www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com