Música instrumental do Brasil

Atenção. Devido ao alto grau de volatilidade, você deve permanecer sentado. Vamos lá! Clique um: You Tube, digite “Nosso Trio e ‘O Barquinho’”. Clique. Ufa, não foi tão difícil. A música instrumental hoje é feita com extrema competência (volatilidade e urgência, é só ouvir “Partindo Pro Alto”) por pessoas como Nelson Faria na guitarra e o compositor do tema citado, Ney Conceição no baixo e Kiko Freitas, bateria. Tá ouvindo, vendo? Kiko, no auge de sua expressividade seca, o prato (3:23) faz da ausência (a pausa) um momento em que o nada é tudo (sorry, Tim Maia, viva Miles). A conversa aqui é “sobre isso”, expressividade.

O que acontece com a cabeça das pessoas que só podem ouvir “brazilian music” no exterior? No jardim do vizinho a grama é mais verde; but, você chega aos States e o que ouve é que temos os melhores músicos do mundo. Por que será que a gente tem que prestigiar somente a Ivete?? É o “mais do mesmo”, sempre?

Fui cumprimentar o Kiko em Miami num show do João Bosco e ele falou que me conhecia. Cool. Deve ter ouvido o melhor tecladista de samba do mundo (Cesar Mariano) em seu esforço pra fazer música instrumental. Atenção: o Cesar não era pago para ter essa iniciativa, mas o fez. Já fazia com o Cesar Mariano & Cia (São Paulo, Brasil) com Dudu Portes. Eu fui ver. O Dudu com uma batera preta (Rogers?) fazia um naipe de apitos com os músicos emulando o som das fábricas… Essa experiência resultou no Prisma. Me apresentei com o Cesar nos melhores teatros e ginásios do Brasil lotados. Isso sem falar na banda que acompanhou os cantores no Festival dos Festivais (Globo). Audiência nacional. Isso acontecia em 1985, 1986.

Flash Back. “O Fino da Bossa” 1966. Os cantores Elis Regina e Jair Rodrigues eram os apresentadores desse programa de auditório que fazia enorme sucesso e eram acompanhados por Hamilton Godoy, Luis Chaves e Rubinho Barsotti, o Zimbo Trio. Tamba Trio com Luisinho Eça (técnica apuradíssima ao piano), Bebeto e Hélcio Milito na bateria e Jongo Trio (Cido Bianchi no piano, Sabá no contrabaixo e Toninho “Calça Justa” Pinheiro na bateria) também se apresentavam regularmente no programa. A visibilidade da música instrumental na TV era incrível. Presenciar o Zimbo com sua musicalidade, os solos de Rubinho com a mão nos tambores, uma aula.

Um pouco antes, no “Beco das Garrafas”, Edson Machado apresentava o Samba Jazz (que o competente Daniel D’Alcântara, trompetista e autor do play a long com mesmo nome, chama de hard bop brasileiro) junto com o Milton Banana, criador da levada de Bossa (tão tentada pelos americanos, é duro eles pensarem em dois), imortalizada na voz de João Gilberto.

Por que a música instrumental brasileira não tem público? Porque às vezes ela gosta de posar de coitada e voltar pra casa se lamentando. O “fazer” é acontecer perante os olhos do público. Como, por exemplo, o Eumir Deodato. Foi para os Estados Unidos, gravou Zaratustra (1972, com Ron Carter no baixo e Billy Cobham na bateria) e vendeu milhões de cópias. Genial. Continua trabalhando com arranjos. Competência.

Quando o Nosso Trio posta o “Paca tatu cotia não” (tema do “extraordinaire” baixista Nico Assunção, que tocava regularmente com astros do jazz como Joe Henderson) no You Tube e tem mais de 100 mil acessos ao vídeo, está fazendo a coisa certa. Os canais de divulgação vão mudando e é preciso que o artista esteja ligado para que possa continuar falando com seu público. Particularmente, penso num novo formato e acredito que música e imagem sejam uma boa saída. Não o vídeo clipe, mas histórias musicais (curtas com enredo acompanhando a sonoridade). Cinema e música? Talvez.

Quando não te dão opção você cria. Foi isso que pensou o Antonio Adolfo, cansado de bater em porta de gravadora (ditavam as regras na indústria do disco, Napster e downloads acabaram com isso). Ele arregaçou as mangas e resolveu produzir o próprio disco. Deu origem a um movimento na década de 80 que se chamou “Independentes”. Estávamos saindo dos anos de chumbo (ditadura), e as pessoas começavam a querer se mexer de novo. Em São Paulo muita gente aproveitou esse formato e botou a cara na rua. Arrigo Barnabé, Pé ante pé (Teco Cardoso), Grupo UM (Zé Eduardo & Lelo Nazário), Freelarmonica (Fábio Oriente), Divina Increnca (Félix, Rodo e eu) foram alguns dos grupos a surfarem nessa onda. A maioria tocava num teatrinho (porão) em Pinheiros, na Rua Teodoro Sampaio, que virou o templo dessa música. Essa conexão toda ficou sendo chamada de “Vanguarda Paulista” e contava com o Premeditando o Breque e Grupo Rumo, que tinham cantores. O sucesso do Premê lá era enorme. Ficávamos em temporadas que duravam meses. O teatrinho era tão ruim que, quando consegui uma capa da “Ilustrada” (Folha de S. Paulo) pro Pau Brasil (Bye bye, Brasil – iríamos pra Europa mais uma vez), minha tia mandou o chofer com a Mercedes comprar ingressos. Ao ser informada onde exatamente eu iria tocar, ela desistiu da ideia. Foi um lugar importante e deu origem ao selo mantido pelo “Gordo” (Wilson Souto) na Continental. É dessa época também o selo criado pelo Walter Santos e Tereza Souza, o “Som da Gente”, onde gravaram Medusa (Chico Medori na bateria, Hamilson Godoy piano, Claudio Bertrami baixo, Heraldo do Monte guitarra), o Cama de Gato (com o Arthur Maia, Paschoal Meirelles, Mauro Senise), Nelson Ayres (“Mantiqueira”, que tive o prazer de gravar), o Metalurgia (Bocato) e vários do Hermeto, sempre gravados pelo competentíssimo Marcos “Vinicão” Vinicius. O Prisma 1 de Cesar Camargo Mariano, que saiu pela gravadora Pointer, também foi gravado lá.

… Destaque pra frase no hi hat de Kiko no 9:02 do “Partindo pro alto”.

Flash Back II. Festival Internacional da Canção no Rio de Janeiro, Maracananzinho. Um sujeito meio tímido, mas ao mesmo tempo determinado, apresenta uma música cheia de nuances, cromatismos, dissonâncias e, me parece, ganha o prêmio de melhor arranjo. Era o Egberto Gismonti ainda moleque e falando que ia estudar na Europa. Deu no que deu. Pra você, que tem só dezoito anos, ele junto com o Hermeto Pascoal fazem a dupla que é o pulmão da música instrumental do Brasil. Assim como a floresta Amazônica, a importância deles é vital. O Hermeto é o sol, Egberto a lua.

Procure ouvir o trabalho de Egberto, “Nó Caipira”. Um tema chamado “Frevo”.

O que acontece quando grandes músicos podem se expressar motivados por uma grande composição? Zeca Assumpção, Mauro Senise, Zé Eduardo Nazário e Egberto dignificam aquilo que se chama de música de “ponta” (Alguém já falou isso? Não? Reivindico o termo para qualificar a música de qualidade, atemporal). Eu tinha um amigo que era músico, conseguiu fazer uma banda que teve relativo sucesso e por esse motivo preferia ser chamado de produtor. Ele pensava que estava galgando uma posição dentro da “cadeia alimentar” social. Não aconteceu, ficou no meio do caminho. Perdeu a substância ao se preocupar em “parecer” deixando de lado o “fazer”. Não é fácil o trabalho do músico. Mas talentos como Egberto mostram direções. Assim como o Hermeto. Radical em suas invenções, sempre buscou com rigor a melhor performance para sua música. Os músicos que trabalhavam com Hermeto acabavam morando perto da casa dele (me parece que era Bangu, quente pra caramba) no Rio, só para estarem o tempo inteiro ensaiando e tocando. Fazem parte dessa leva Márcio Bahia (bateria), Alfredinho Dias Gomes (bateria, que gravou “Cérebro Magnético”), Jovino dos Santos (piano), Itiberê Zwarg (baixo), Carlos Malta (sopros). Duas boas referências para o trabalho do Hermeto: a faixa “Suíte Norte, Sul, Leste, Oeste” do álbum Zabumbe-Bum-Á (com um xaxado mortal tocado pelo Nenê) e o bis em Montreux com Elis Regina (You Tube). A capacidade de invenção do “bruxo” (os cabelos brancos enormes de albino) é inesgotável e deixaram a Elis surpresa com tantas inversões harmônicas e nuances rítmicas. Pude presenciar a mágica de Hermeto na Europa (tocava com o Pau Brasil e tínhamos o mesmo empresário). O público delirando e ele dando mais um bis de dez minutos. Que maravilha! Sucesso e música instrumental, por que não?

Tudo depende de como você toca, música é uma linguagem, tem que “dizer”.

Como “diz” o baixo do Ney, no “Barquinho” do Menescal e sua Bossa Nova (como ela é querida lá fora, representante maior da nossa música de qualidade capitaneada pelo maestro eterno Tom Jobim). O que não me diz muito é a música na TV, hoje.

O Serginho Groisman não direciona muito bem o talento da Vera Figueiredo, a coisa fica no meio do caminho. E o que dizer do Jô Soares, com aquelas piadas repetidas à exaustão: “Você já tem outro emprego?”, referindo-se aos músicos. Eu falei antes, “mais do mesmo”, agora com direito a sorriso amarelo. Sorry, não dá. São conhecidos como “vida inteligente”, mas o mau gosto é lamentável. Falando em Vera Figueiredo, ela tem uma importância enorme. Promove todo ano um festival trazendo os melhores bateristas do mundo para se apresentarem em grande estilo aqui em São Paulo. Produtora que preza qualidade. Assim como a Léa Freire com seu selo Maritaca (um celeiro de craques batendo um bolão), que deu voz a talentos como Arismar do Espírito Santo, Teco Cardoso, Bocato, Proveta, Toninho Ferraguti.

….Ouvindo o solo (melodia) de baixo do Ney Conceição em “Eu sei que vou te amar”.

Aqui em São Paulo, a Mantiqueira e o Proveta seguem em busca de qualidade, assim como o Trio Corrente (com Edu Ribeiro), o Nenê Trio e talentos como Guilherme Ribeiro (piano), Thiago Espírito Santo (baixo), Michel Leme (guitarra) e o RTD (Baggio, Brambilla e Nery) vão fazendo seus trabalhos e tocando em frente a música inquieta de hoje. Cito a Léa Freire em seu trabalho Cartas Brasileiras: “Há muita coisa a ser feita a sério no Brasil que toca e compõe… dá pra notar que nossa música sempre atua na mistura… criou-se aqui uma terra musical fantástica, onde seres meio instrumentos passeiam entre bichos músicos fazendo uma música que é brasileira e que acontece aqui, mas não é só Brasil… Para além de classificações e rótulos… Essa é a música em que acredito”. Eu também, Léa.

Obrigado a Modern Drummer (e Christiano “Stonehenge” Rocha) pelo espaço, ao Nosso Trio pela inspiração e a vocês que estão lendo por me permitirem falar da música, vida. Hoje a música instrumental é isso. Pode melhorar? Pode. Depende de nós.

P.S.: Kiko, D + !

Vídeos

Nosso Trio – O barquinho

Zimbo Trio – A felicidade

Egberto Gismonti e Charlie Haden – Palhaço

Hermeto Pascoal e Elis Regina – Corcovado

Bocato – Living in Jaçanã