Cabral e o marxismo

Cabral [João Cabral de Melo Neto, 1920-1999] apareceu rápido no horizonte. Tínhamos praticamente acabado de realizar o Dau al Set [1948]. Ele estava aqui, acho, desde 1946, 1947. Nós nos distinguíamos por ser um grupo inquieto, que incomodava e ofendia, que não era conveniente. Essa era a nossa atitude. E acho que foi por isso. Rafael Santos Torroella [1914-2002] disse a ele que havia uns jovens que faziam coisas curiosas e acabamos nos conhecendo. Também através de García Vilella [Francisco García Vilella, 1922-?], um artista que morreu há pouco, mas que ilustrou alguns poemas, alguns dos Livros Inconsúteis feitos por João Cabral de Melo Neto.

Quando nos conhecemos, ele se interessou muito por dois motivos, por duas posturas. Uma porque, através de nossos contatos, ele conheceu Joan Miró [1893-1983]. Entrou logo em contato com Miró através de Joan Prats [1922-2008] e acabou escrevendo aquele magnífico livro sobre Miró, editado na época aqui em Barcelona [Joan Miró. Barcelona: Edicions de l’Oc, 1950].

O outro motivo foi por sermos, como diziam, jovens inquietos e revolucionários. Ele viu em nós alguma possibilidade de implantar e desenvolver, à sua maneira, à maneira de Cabral, o marxismo na Espanha. Esta é a realidade.

Ainda guardo alguns livros que ele me deu. Um em inglês, de Georges Politzer [1903-1942], um filósofo francês que apreciava muito e que, graças a ele, eu conheci – um filósofo extraordinário com o azar de ter estado no lado errado deste mundo. Mas sua crítica do inconsciente de Freud é de uma profundidade tão extraordinária que até hoje não foi rebatida [Crítica dos fundamentos da psicologia. Lisboa: Presença, 1975-1976 (original de 1928)].

Outro livro foi um com discursos de Stalin. Ele deu a mim, não aos outros, porque eu era o intelectual do grupo Dau al Set. Ele viu que com os artistas ele devia falar de maneira diferente. Comigo podia falar de outros problemas. À sua maneira, ele quis orientar a poesia de Brossa [Joan Brossa, 1919-1998]. No prólogo do livro Em va fer [Em va fer Joan Brossa. Barcelona: O Livro Inconsútil, 1951], diz querer introduzir não precisamente um realismo socialista, mas um realismo social. No prólogo, Cabral orienta Brossa a desviar-se do realismo místico, estranho, de bruxas, que há nos seus poemas.

Cabral viu em nós, sobretudo em mim, a possibilidade de nos orientar na direção do marxismo. Lembro-me de que ele me falava sobe Luís Carlos Prestes, dirigente do Partido Comunista Brasileiro, que era o grande Stalin brasileiro dos anos 1940, 1950. Para Cabral, o representante máximo, como Maurice Thorez [1900-1964] na França e Palmiro Togliatti [1893-1964] na Itália.

Cabral falava muito de estratégia. Era muito interessante porque estávamos em pleno conceito de que o capitalismo queria destruir o mundo socialista, e por isso era necessário fortalecer a estrutura hierárquica soviética dentro do partido. O Partido Comunista tinham um líder, um dirigente no topo, e do topo emanam todas as diretrizes que os de baixo temos de cumprir. Parecia que assim se preservava a integridade do comunismo, não o contrário. Tudo isso aprendi com Cabral, sem a crítica que agora faço. A força para a revolução não é proporcionada pela cúpula do partido, mas pelo proletariado. Isso é o que se vê em Marx. Mas com a revolução daquele tempo, a coisa tinha mudado.

Eu compreendo ter feito a opção por um dos lados. Assim como hoje temos de tomar posição, ficar contra ou a favor da globalização. Para Cabral, a estratégia da vida consistiria em um navegar. Pessoalmente, ele fazia isso, um pouco, porque, como cônsul do Brasil em Barcelona, ele gozava de imunidade diplomática e ninguém podia fazer nem dizer nada a ele, nem a polícia podia persegui-lo. Com a gente era o contrário.

Título: Suíte, instrumentos de tortura
Autor: Joan Ponç

Um cônsul em Castelldefels

Aqueles também foram anos muito difíceis, anos de fome. Passamos fome. De 1936, quando começou a Guerra Civil, até os anos 1951 ou 52, foi uma situação difícil, muito dura. Jovens como eu, em idade de formação, não comíamos o suficiente, muito menos o que queríamos. Lembro-me da primeira vez em que Cabral me convidou para sua casa de verão em Castelldefels, perto de Barcelona. Fui lá para conversar e ele me convidou para comer. Sentamos à mesa e apareceu a criada com pratos de comida e Cabral fez um gesto de que não estava satisfeito. Disse que não queria e completou:

“Pegue, coma, Arnau”.
Como ele não tinha comido, também recusei. E ele:
“Como quiser”.
Levam aquele prato e trazem outro. Ele faz outra careta e diz:
“Não me apetece”.
Eu também não comi, então ele falou:
“Coma, coma. Eu posso me permitir não gostar”.
Essa história ilustra o contraste entre seu bem-estar e a nossa situação real.

Filosofia e política

Cabral era uma pessoa extraordinária, muito delicada e atenciosa. Sempre tivemos uma relação muito próxima, mesmo quando ele partiu de Barcelona, não sei se em 1953 ou 54, quando foi transferido para Londres. Então eu me encontrava em situação política muito difícil. Eu, é claro, claro, tinha me comprometido, e disse: “Cabral, não posso sair do país”.

Então ele me fez um documento registrado em cartório de que me contratava como secretário em Londres para que eu pudesse sair da Espanha. As circunstâncias não permitiram e só um ano depois consegui uma bolsa do governo francês e fui para Paris.

Quando estávamos preparando alguns textos impressos, mantive com ele conversas filosóficas e políticas que me afetaram muito, me convenceram. Custou-me muito livrar-me dessa verdade que se converteu posteriormente em um erro. Sempre associei essa inquietude por uma questão social a partir de Cabral. Também entendo que Cabral me levou a compreender que as coisas são vivas por elas mesmas, não objetos fixos externos, nem objetos para qualquer projeção, mas objetos com autonomia própria. Sem dúvida isso era o que ele queria encontrar e a direção em que queria orientar a poesia de Brossa.

A poesia de João Cabral

Cabral tinha um interesse pelo mundo imediato, mas sua visão era poética, não era, em absoluto, com pregava, marxista. Era uma visão poética e sentida da realidade, a partir de lembranças.

Para exemplificar isso, lembro-me de como ele falava que em Pernambuco, em sua cidade, o Recife, ainda se podia assistir a como a Terra era uma coisa viva. Como era um organismo ativo porque a cidade de Pernambuco, fundada pelos holandeses, estava naqueles anos 1940, 1950, a muitos quilômetros da costa. Em 300 anos o rio ia levando terra e a cidade inicial cresceu mar adentro com o tempo. Porque a Terra é um organismo vivo, e a união entre água e terra gerava aquela presença viva. Assim ele entendia a natureza, não como objetos fixos e estáticos como representados pela poesia clássica, ou como os objetos de projeção da alma da poesia romântica. Eram como objetos vivos por si mesmos. Essa foi a impressão que tive da poesia de Cabral.

“Por que Neto?”

Quando eu o conheci, perguntei:

“Por que Neto?”

“Porque sou o neto, e no Brasil é como o son dos ingleses em Erickson, Magnuson. Neto é para distinguir de outras pessoas familiares”.

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Dau al Set foi um grupo artístico de vanguarda espanhol criado em torno da revista homônima, em Barcelona, ​​em setembro de 1948. Dau al Set significa a sétima face do dado, isto é, algo de novo, vinculado à invenção. Membros fundadores: o poeta Joan Brossa (que criou o nome do grupo e da revista), o filósofo Arnau Puig e pintores Joan Ponç (diretor da revista), Antoni Tàpies, Modest Cuixart, Alberto Saura,  e e o editor Joan-Josep Tharrats. João Cabral de Melo Neto foi um dos líderes do grupo, quando serviu com Cônsul em Barcelona.  Dau al Set, a revista, foi editada de 1948 a 1951.

No entanto, há duas etapas na história deste movimento: a primeira, de setembro de 1948 até 1951, etapa marcada especialmente pelo surrealismo, em que o líder foi Brossa, e uma segunda, que se caracterizou por uma busca de mais e novos estilos, liderada por Tharrats.  Apesar da existência efêmera, Dau al Set é considerado um dos primeiros benchmarks do pós-Guerra Civil Espanhola. Régis Bonvicino

Saiba mais:  http://sibila.com.br/cultura/dau-al-set-uma-filosofia-da-existencia-sobre-arnau-puig/5063

Sobre Arnau Puig

Arnau Puig i Grau (Barcelona, ​​1926) é um sociólogo e crítico de arte espanhol. Formou-se em filosofia na Universidade de Barcelona, ​​e, em 1956-1961, formou-se em sociologia da cultura e da arte na Sorbonne (Paris), onde foi influenciado pelo existencialismo. Ele foi um dos principais motores do modernismo na Catalunha. É fundador da revista histórica Dau al Set, veículo porta-voz do movimento artísitco de mesmo nome. Puig foi um dos teóricos do grupo. Foi também diretor do Instituto de História e Arqueologia do Conselho Superior de Pesquisas Científicas em Roma. Em 1992, ele recebeu a Cruz de São Jorge da Generalitat da Catalunha, em 2003 o prêmio da Associação Catalã de Críticos de Arte e em 2004 a Medalha de Mérito Cultural da Cidade de Barcelona.