POESIA EM TEMPO DE GUERRA E BANALIDADE

POESIA EM TEMPO DE GUERRA E BANALIDADE
Encontro Internacional de Poesia: Campinas/CPFL: Maio/Junho 2006
Curadoria de Régis Bonvicino & Alcir Pécora

1. TEXTO-PROPOSTA:

O legado do século XX revela-se como um desastre contínuo e aparentemente irreparável. Deixou-nos como aporia a incapacidade de a poesia, como síntese da atividade intelectual e criadora, lidar com a estupidez e a barbárie. Evidenciaram-no os crimes nazifascistas, bem como a institucionalização da violência econômica, num mundo que se globaliza e desorganiza em iguais proporções, com repercussões catastróficas em conflitos locais, étnicos, movidos a ódios, sectarismos e tragédias domésticas. O que restou dos projetos nacionalistas tornou-se estratégia para reforçar interesses corporativos, enquanto o internacionalismo, longe de abrir-se para experiências humanas pluralistas e democráticas, reduz-se a estratégia de exploração econômica, turística, e de legitimação de preconceitos sociais e raciais.

Neste início de século, começa a aparecer um novo modo dessa violência, derivado justamente de seu aspecto continuado: trata-se do abafamento, do amortecimento do cenário de destruição. A criação impotente, à reboque da tecnologia, do mercado e da voracidade comunicativa e midiática, sem conseqüência política ou estética liberadora, sobrevive no encolhimento da visada poética ou da destinação da poesia. O ceticismo face à transformação revolucionária, à consistência das vanguardas ou ao dogmatismo ideológico, não resulta em ações mais livres, como gostaríamos de imaginar, mas apenas numa produção cada vez maior, mais prolixa, dentro de ambientes cada vez mais homogêneos. Condomínios de semelhantes, práticas corporativas de gênero segmentam e banalizam a produção poética. A atividade paroquial ofende-se com a crítica e o debate. Condescendência, pusilanimidade, pacto entre pares, perdão mútuo evidenciam a pouca seriedade com que se toma a poesia, bem como a descrença em sua ação transformadora. Mas que criação real pode renunciar à transformação?

Um efeito impressionante desse legado de continuidade catastrófica — que justamente abafa e absorve o desastre como normalidade –, é a conformidade da poesia com uma dimensão mediana de produção. Nesse âmbito, escrever se reduz a um hábito ligeiro, um hobby – isto é, uma atividade infanto-juvenil que se abandona tão logo se chega à vida adulta, ou se preserva depois disso como lazer de fim-de-semana –, ou então a uma atividade profissional entre quaisquer outras, um modesto ganha-pão associado a várias atividades editoriais e universitárias. Em tempos assim, já não há qualquer motivo para que o poeta seja expulso da cidade, o que não significa nenhum progresso do espírito: nele, ao que parece, nada resta de perigoso, desarrazoado ou arrebatador a ponto de afetar a ordem desordenada da vida incivil contemporânea.

Como responder a essa falta de perspectiva e de urgência particular à poesia, domínio por definição hostil à mediocridade? Como resistir a este encolhimento bárbaro de horizontes, proporcional à proliferação redundante e prolixa do escrito? Ou, ao menos, como desnaturalizar o desastre e reconquistar a dor diante dele? A poesia ainda pode ser mais do que uma afirmação de frivolidade, arrivismo e afetação intelectual, ou, na direção oposta do mesmo eixo, de modéstia boçal e sobrevivência sem esperança? Se já não temos planos para o futuro, é bom que se diga que tampouco o presente nos pertence: o amortecimento das expectativas resulta em indiferentismo, alienação e tédio, não na fruição de uma vida amena. O que a poesia pode contra esse estado de coisas que não parece ter fim? E se nada pode, como pode ser mais do que fatuidade?

 

1.1. Proposta (forma reduzida):

O legado do século XX revela-se como um desastre contínuo. Deixou-nos como aporia a incapacidade de a poesia, como síntese da atividade criadora, lidar com a estupidez e a barbárie. O ceticismo face à transformação revolucionária, à consistência das vanguardas ou ao dogmatismo ideológico, não resultou em ações mais livres, mas apenas numa produção mais prolixa, dentro de ambientes cada vez mais homogêneos. A atividade paroquial ofende-se com a crítica e o debate. A condescendência generalizada evidencia a pouca seriedade com que se toma a poesia, bem como a descrença em sua ação transformadora. Mas que criação real pode renunciar à transformação? Um efeito impressionante desse legado de continuidade catastrófica – que abafa e absorve o desastre como normalidade -, é a conformidade da poesia com uma dimensão mediana de produção. Escrever se reduz a um hábito ligeiro, um hobby – isto é, uma atividade infanto-juvenil que se abandona tão logo se chega à vida adulta, ou se preserva depois disso como lazer de fim-de-semana -, ou então a uma atividade profissional entre quaisquer outras, um modesto ganha-pão associado a várias atividades editoriais e universitárias. Como responder a essa falta de perspectiva e de urgência particular à poesia, domínio por definição hostil à mediocridade? Como resistir a este encolhimento de horizontes, proporcional à proliferação redundante do escrito? Ou, ao menos, como desnaturalizar o desastre e reconquistar a dor diante dele? A poesia ainda pode ser mais do que uma afirmação de frivolidade, arrivismo e afetação intelectual, ou, na direção oposta do mesmo eixo, de modéstia boçal e sobrevivência sem esperança? Se já não temos planos para o futuro, é bom que se diga que tampouco o presente nos pertence: o amortecimento das expectativas resulta em indiferentismo, alienação e tédio, não na fruição de uma vida amena. O que a poesia pode contra esse estado de coisas que não parece ter fim? E se nada pode, como pode ser mais do que fatuidade?

 

 

2. ARTISTAS CONVIDADOS E CONTATOS

Para debater essas questões e ler os seus próprios poemas, com suas questões e alternativas, convidamos 8 poetas de primeiro time: 5 poetas internacionais, de diferentes línguas e experiências poéticas, e 3 brasileiros, a saber:

 

 

3. DATAS — SEMPRE ÀS QUARTAS-FEIRAS

Maio:
Abertura. Dia 10. Arkaddi Dragomoshenko
17. Roberto Piva
24. Eduardo Milán
31. Leevi Lehto

Junho:
7. Yao Jing Ming
14. Paulo Henriques Britto
21. Nuno Ramos
Encerramento. Dia 28. Charles Bernstein

 

 

4. TÍTULOS E RESUMOS

Arkadii Dragomoshchenko

Título da comunicação:
“Sobre o Supérfluo”

Resumo:
O processo da escrita é um processo de leituras intermináveis e contínuas, isto é, de uma revelação do “ser” nas margens da experiência, no qual a poesia mesma, como um tipo de “fala”, é impossível, mas que, no entanto, revela a possibilidade do “devir”.

Currículo breve:
Meu nome é Arkadii Dragomoshchenko. Estou aposentado mas ainda coordeno um seminário intitulado “Uma Outra Lógica da Escrita” no Instituto Smolny de Artes e Ciências (afiliado ao Bard College de Nova York, em São Petersburgo, Rússia). Também trabalho como editor na “Academic Project Press” e como jornalista para algumas revistas mensais. Para concluir, sou membro do Sindicato de Escritores Russos.

 

Leevi Lehto

Título da comunicação:
“Poesia, Poder, Liberdade”

Resumo:
Estou interessado na poesia como uma forma peculiar e talvez crucial de crítica—das ideologias e estruturas de poder—e como isto se torna possível através de, e requer, uma certa liberdade absoluta de conteúdo e forma. Isto é especialmente importante em nosso tempo que, com certeza, é um tempo de Guerra e Banalidade. Em face às ideologias feitas (ou “ready-made”), a poesia pode oferecer um método de questionamento constante e aberto.

Currículo breve:
Leevi Lehto nasceu em 1951 e é finlandês. Poeta, ativista da poesia, e tradutor de, entre outros, Keats, Bernstein, Althusser, Deleuze & Guattari, e Joyce. Seu primeiro volume de poesia em inglês será publicado em setembro de 2006 pela editora Salt. Para mais informações, veja: http://www.leevilehto.net.

 

Eduardo Milán

Título da comunicação:
“Algumas Palavras Sobre o Assunto”

Resumo:
Uma reflexão sobre o estado atual da poesia latino-americana (em espanhol e em português) à luz de suas perturbações herdadas (o final da “tradição” das vanguardas, a falta de espírito, a escassa ou nula resistência de uma concepção poética de mudança) e a devastadora contingência histórico-social, não apenas para a poesia mas também para qualquer manifestação humana íntegra. A fala será entrecortada por uma leitura de meus poemas.

Currículo breve:
Eduardo Milán é poeta e ensaísta. É também professor de teoria literária e poesia latino-americana na Universidad del Claustro de Sor Juana na Cidade do México. Também leciona em outras universidades do México como a UNAM, a Casa Lamm e a Universidad Iberoamericana.

 

Yao Feng

Título da comunicação:
“A Poesia Chinesa e a Internet”

Resumo:
Num país como a China, que caminha a largos passos para a globalização econômica, a poesia já deixou de desempenhar o mesmo papel na vida social e cultural que dantes, tendo-se já tornado uma modalidade literária reservada para poucas pessoas. No entanto, a poesia nunca chegou tão perto dessas pessoas como presentemente. Com mais liberdade de criação e generalização da internet, os poetas escrevem mais à vontade e podem “afixar” logo as suas obras em sites. Existem na China centenas de sites e numerosas revistas poéticas “civis” (não governamentais) que se dedicam exclusivamente à poesia. Incentivada pelos novos meios de comunicação e pelas circunstâncias cada vez mais abertas, a poesia chinesa revela uma vida vigorosa, apresentando variados estilos e novas tendências.

Currículo breve:
Yao Feng (nome literário de Yao Jingming) é professor auxiliar no Instituto das Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Macau.

Yao Feng no Encontro Internacional de Poesia, na CPFL em Campinas.

 

Roberto Piva

Título da comunicação:
“Estranhos Sinais de Saturno”

Resumo:
Poesia como arte de minorias e de inconformismo. A transgressão como valor absoluto da poesia. Leitura de passagens escolhidas de sua obra recentemente reeditada, incluindo Paranóia, Piazzas, Abra os olhos e diga ah!, Coxas, 20 Poemas com brócolis, Quizumba, Ciclones, e de poemas inéditos.

Currículo breve:
Roberto Piva é paulistano, vive em S. Paulo, não tem qualquer vínculo institucional, e vive de sua atividade como poeta e conferencista.

 

Charles Bernstein

Título da comunicação:
“Poéticas das Américas”

Resumo:
Partindo do ensaio “Nossa América” de José Martí, tento articular afinidades de forma e projeto num eixo Norte-Sul, sem perder de vista a especificidade das poéticas que surgem em inglês, português, espanhol, francês, e em relação às línguas indígenas.

Currículo breve:
Charles Bernstein nasceu em Nova York em 1950. Publicou mais de vinte livros de poesia e três de ensaios, entre os quais destacam-se My Way: Speeches and Poems [Meu Caminho: Discursos e Poemas] and With Strings [Com Fios], ambos pela University of  Chicago Press, assim como Republics of Reality: Poems 1975-1995 [Repúblicas da Realidade: Poemas 1975-1995], pela Sun & Moon Press. O seu trabalho mais recente é o libreto para uma ópera do compositor Brian Ferneyhough, intitulado Shadowtime [Tempo de sombras] (publicado pela Green Integer). Editou a coletânea Close Listening: Poetry and the Performed Word [Escutas Detidas: Poesia e Performance Verbal] (Oxford University Press). De 1978 a 1981, co-editou a revista L=A=N=G=U=A=G=E, o ponto focal de um movimento de poesia e poética radicalmente inovadoras. Na década de 1990, co-fundou e dirigiu o Programa de Poética da State University of New York–Buffalo, onde foi reconhecido como SUNY Distinguished Professor. Bernstein é também o diretor executivo do Electronic Poetry Center (http://epc.buffalo.edu/) e co-diretor do projeto PennSound (http://www.writing.upenn.edu/pennsound/). A página de Bernstein encontra-se no EPC. Atualmente, Bernstein é Regan Professor of English na Universidade de Pensilvânia.

 

Paulo Henriques Britto

Título da comunicação:
“O lugar do poeta e da poesia hoje”

Resumo:
Algumas considerações a respeito do papel desempenhado pelo poeta e pela poesia num tempo caracterizado por Octavio Paz como “pós-utópico”: todo um ciclo histórico iniciado pelo Romantismo parece ter chegado ao fim, e os poetas e artistas em geral são obrigados a abrir mão da auto-imagem hiperbólica que lhes foi atribuída nos últimos dois séculos.

Currículo breve:
Professor do Departamento de Letras da PUC-Rio, onde atua nas áreas de língua portuguesa, tradução e criação literária. Tradutor, poeta e ficcionista. Obras mais recentes: Macau (2003) e Paraísos artificiais (2004) (ambos Companhia das Letras).

 

Nuno Ramos

Título da comunicação:
Poesia vista desde a matéria de que é feita.

Resumo:
Literatura pensada como coisa, como peso, como voz, como corpo, como sopro, como vento.
Como música de um fole de barro, que quebra quando é tocado.

Currículo breve:
Nuno Ramos nasceu em 1960, em São Paulo, onde vive e trabalha. Formou-se em filosofia na USP. É artista plástico e escritor.  Suas mais recentes exposições são: Instituto Tomie Othake (São Paulo, 2006), Morte das Casas (CCBB, SP, 2004), Pinacoteca do Estado de São Paulo (SP, 2004) e Encontro com a arte: Nuno Ramos e Frank Stella (Nave 5, São Paulo, 2004). Publicou os livros Cujo (1993) e Pão do Corvo (2002), ambos pela Editora 34, e Minha Fantasma (edição do autor).

 

Espaço Cultural CPFL
Cárita Abdal / (19) 3256-2500 / 9192-0907
carita@cpfl.com.br

 


Leia os PDFs de Sibila 10 e 11, com o material de todo o seminário