Poemas de miguel jubé

eu morto

eu morto, subjugado no centro
     da cidade, aguardando processo
 de reconhecimento dos órgãos
     enquanto dura a falácia feita
 do absurdo que é estar morto, pronto
     ao descarte infinito da pele.

três larvas se aproximam, me olham
     e decidem por quando começam.
 meu peito parece abrir-se ao meio
     e isso só poderiam as larvas
 fazê-lo com precisão sintética.

          mas aguardo e são mãos quem cortavam
     cada pedaço – lâmina, faca
falência dilatada, cingida.

coligidas

iii

garoa na cidade como um rio corresse calvo pela cabeça da rua
e calvo seguisse entre a madrugada
não se ligasse às esquinas nem às
quadras

e apenas por ser corte e o próprio continente da cabaça
estivesse em contorno da própria
cidade

até q um rasto brusco
­– sol de enseada –
fizesse se observar pela manhã

ali
os olhos da humanidade brilham
respiram a esperança das alvíssaras
de todo um tal cântico de incertezas

ii

uma incelença de chuva e
voici-là,
meia-noite lá no céu
parece mais um dia
enquanto o sereno cai
sobre o manto de maria.

era pedreiro era rei e sabem bem
a razão de os tijolos desmedirem os
deuses.

era uma vez
eu
gêni
o obliterad
o – o monumental momento da
sazonal idade;
eugênio, um pedreiro
depois rei, depois apenas dis
soluçã
o de toda a sant
a cruz

perdendo seus trapos entre trópicos
louvando um tânatos todo cheio de si.

i

se fosse o pesar dos pesares
[envolto em vendas vão veludo]
se fosse todo o pão amassado
[por vênus vertido em mero ocaso]
se fosse a extrema e vera unção
[ungida em óleo o mais santo]

não estaríamos na situação em que nos encontramos agora, as-
sim, violados pelo regozijo do tempo e as voltas que a vida

Sobre Miguel Jubé

Miguel Jubé é natural de Goiânia. Concentra seus estudos em poesia luso-brasileira, literatura goiana e estética e filosofia da arte. É professor de Língua Portuguesa e Literatura para os ensinos básico e superior. É editor de livros pela martelo casa editorial. Recebeu, em 2014, o Prêmio Literário Açorianidade, da Associação Internacional de Colóquios da Lusofonia, por seus poemas de minimemórias (Calendário de Letras, 2015/Caminhos, 2015), obra vencedora com unanimidade pelo júri.