Seis Poemas Russos

I. СЧАСТЬЕ

Стал каждый миг густым, как мед,
Лучистым, как янтарь.
Часам давно потерян счет
И изгнан календарь.

Как ненавистен мне расчет
И чувства про запас!
Свой годовой любви доход
Я прокучу за час.

I. FELICIDADE

Denso como o mel, cada momento,
Raiando como o âmbar.
Há muito perdi a noção do tempo
E exilei o calendário.

Odeio a contagem do que for
E a idéia de poupança!
Meu anual crédito de amor
Dissipo numa andança.

II.
Не хочу кирпича с крыши –
Я хочу умирать долго.
Я хочу умирать, наблюдая,
Как тело, капля по капле,
Выделяет уставшую жизнь.
Пропустить ее сквозь себя,
как сквозь мелкое-мелкое сито,
И – не скоро – вздохнуть с облегчением,
Не увидев на дне ничего.

II.
Não quero cair, telha do telhado –
Quero morrer pouco a pouco.
Quero morrer observando
Como o corpo, gota a gota,
Se destaca da vida já cumprida.
Deixar que ela de mim se esvaia,
Como de uma peneira muito fina,
E – não tão logo – suspirar de alívio,
Por nada ver no fundo.

III.
Соблюдайте мою тишину.

III.
Guardai minha tranqüilidade.

IV.
Тебя я потеряла где-то здесь.
Я помню, что отсюда никуда
Не выходила, и никто не выходил,
И надо только вспомнить, где, когда
Я видела тебя последний раз
Любимым.

IV.
Perdi a você por aqui, n’ algum lugar.
Lembro que daqui eu não saí para
Lugar algum, e que ninguém saiu.
É preciso apenas recordar por onde, e quando,
Eu vi você pela última vez,
Querido.

V.
Давай друг друга трогать,
Пока у нас есть руки:
Ладонь, предплечье, локоть…
Давай любить за муки,
Давай друг друга мучить,
Уродовать, калечить,
Чтобы запомнить лучше,
Чтобы расстаться легче.

V.
Vamos um ao outro nos tocar
Enquanto temos mãos:
Palma, antebraço, cotovelo…
Vamos nos amar pelo tormento
Vamos um ao outro machucar,
Mutilar, deformar, adulterar
Para que melhor nos lembremos
Para que mais nos afastemos.

VI.
Когда бы ни маска, лицо
Давно бы утратило форму.
Когда бы ни это кольцо,
Ни благословленная норма,
Ни светлая эта тюрьма,
Ни вольная эта неволя,
Давно сошла бы с ума
От страха, сомнений и боли…

VI.
Se não houvesse máscara, o rosto
Há tempo teria perdido a forma.
Se não houvesse este anel,
Não haveria a benemérita norma,
Não seria  iluminada esta prisão,
Nem voluntária esta preguiça,
Há tempo teria saído da razão,
De medo, de dúvida e aflição…

Tradução: Aurora Bernardini

Sobre Vera Pavlova

Nasceu em Moscou em 1963. Graduou-se no Schnittke College of Music e na Gnessin Academy, especializando-se em história da música. Aos dezoito anos iniciou seus estudos em composição musical. Também trabalhou como monitora no Shaliapin Museum e publicou ensaios sobre música. Ao longo de uma década cantou em coros litúrgicos. Palova começou a escrever poesia aos vinte anos de idade, depois do nascimento de sua primeira filha, publicando seu primeiro livro aos vinte e quatro anos. A primeira seleção de sua poesia apareceu na publicação russa Yunost. Sua primeira coletânea de poemas, Nebesnoye Zhivotnoye, foi publicada em 1997. Até agora Pavlova publicou dez livros de poemas, incluindo Sovershennoletiye (2001), que contém cerca de oitocentos poemas escritos durante um período de dezoito anos. No ano 2000 recebeu o Apollon Grigoriev Prize de literatura, a mais prestigiada premiação literária conferida pela Academia Russa de Letras. Seus poemas foram publicados em diversas das mais importantes revistas de poesia da atualidade. Também foram traduzidos para diversas línguas como inglês, alemão, francês, italiano, tcheco, finlandês, espanhol, chinês, holandês e norueguês. Hoje, Pavlova dirige ‘Zodiac’, um programa de workshops literários para crianças. Ela participou de festivais de poesia nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Ucrânia e Azerbaijão.