A PEQUENA ALEGRIA DE CORSALETTI

Ao iniciar a leitura de King Kong e cervejas, de Fabrício Corsaletti, tive de me convencer, logo nas primeiras linhas, que o lugar-comum “os dias eram luminosos no verão e azulados no inverno” não seria o prenúncio de uma sucessão fastidiosa de chavões. Respirei fundo e disse a mim mesmo: “Coragem!” – mas sem ousar repetir a primeira parte daquele famoso início, um dos melhores da literatura brasileira: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai…”.

A decisão de prosseguir revelou-se acertada, mas parcialmente. O texto é leve, ágil. A leitura flui, apesar dos raros percalços, e é possível descobrir images/stories agradáveis, que sintetizam a embriagante segurança só encontrada na casa de nossos avós – “e pelas janelas abertas a luz entrava para encher a casa e o vento era uma curva ampla e clara nos meus pés” – ou um saudosismo límpido, singelo, destituído de qualquer pieguice, e talvez por isso reconfortante (apesar do cacófato “uma mãe”), acompanhado daquele sinal tantas vezes percebido na adolescência, de que a vida não poderia permanecer como um jogo sem espaço para o medo ou a culpa: “A gente entrava no asfalto, a cidade quente das luzes do jantar era uma mãe generosa e fingia que não tinha acontecido nada. O barulho dos garfos nos pratos, das panelas de pressão chiando, dos grilos e das cigarras e da buzina de algum desconhecido crescia, crescia, crescia – era um barulho espalhafatoso e feminino e um dia iria explodir como uma bomba sem maldade”.

Página a página, abre-se um universo de pequenas lembranças, clarões que iluminam poucas cenas, breves, capazes de sugerir a existência de mistérios, de um erro, talvez do que permanecerá, para sempre, inexplicável. Cada um dos textos pretende sintetizar parcela da vida, mas sem moralismos, sem julgamentos e, destaque-se, sem grandes reflexões. Reside aí o nó górdio do livro: os estalos de memória do narrador constroem cenas muitas vezes líricas, algumas pujantes, mas que se diluem, acabando por se esgotar em si mesmas, incapazes de deixar qualquer vestígio. Chegam a enternecer – mas não permanecem.

Na verdade, King Kong e cervejas sofre de uma patologia comum ao gênero crônica: incompletude. Os textos aspiram a uma condição maior, é verdade. Mas falta à urdidura o fio da trama. O circunstancial permanece apenas circunstancial – e os textos não conseguem alcançar “a grandeza do miúdo”, na precisa definição de Antonio Candido. Infelizmente, aguardamos em vão pela densidade metafórica que nos obrigue a refletir, que nos conduza àquele momento de catarse no qual a verdade surge, inesperada e brutal.

A conformação de um mundo em que os personagens são sombras ariscas, vultos dos quais o narrador nos oferece apenas esta ou aquela característica – o cheiro de meleca de nariz ou as unhas roídas de Ivana, por exemplo –, pode servir a um curioso exercício de “lirismo”. Mas o resultado final, ainda que agradável, padece de uma embaraçosa imaterialidade. O leitor se pergunta, ao término de cada texto: por que as reticências não foram preenchidas, por que o prometido não se cumpriu? E permanece à espera de uma obra que não se satisfaça com tão pouco.

Em certos trechos, o narrador parece somente querer testar as possibilidades da linguagem, mas acaba perdendo a mão. No período “minha cabeça era um pote de barro cheio de sangue, e eu tinha um só pensamento elástico em direção ao sol”, por exemplo, o inusitado da imagem amolda-se à escola do hermetismo poético e ao surrealismo de milésima geração. Falta, assim, uma correspondência lógica que venha socorrer o leitor, permitindo-lhe manter a cabeça acima da linha do texto, para respirar e discernir a mensagem. A beleza, de fato, não basta. É preciso que ela – perdoem-me os surrealistas! – efetivamente expresse algo. “Um só pensamento elástico em direção ao sol” ficaria bem num trecho de Saint-John Perse. Mas soa idiossincrático neste King Kong, fora de lugar. Dizer, outro exemplo, que “uma coisa impressionante era o que poderia não existir e o mundo seria o mesmo, mas existia e o mundo não podia ser o mesmo depois” sofre de um mal semelhante, além de nos remeter a uma enviesada matriz de inspiração lispectoriana – ou, pior, a um mero clichê, acaciano.

 

Frágil demais para molestar

Mas há quem veja em tantos senões a prova de que “Corsaletti incorpora a lição de Manuel Bandeira sobre o papel decisivo da atenção aos detalhes sensíveis e da desafiante transparência que lhes deve a linguagem”. É o que afirma Alcides Villaça, da USP, em resenha publicada no jornal Folha de S. Paulo (edição de 14/06/2008). Resenha, portanto, não só elogiosa, mas principalmente imoderada. A “cativante prosa circular” de que nos fala o professor de literatura brasileira não passa, contudo, de mera diafaneidade, nada mais.

A longa parte final de “Um mês pra se despedir” (penúltimo texto de King Kong e cervejas) resume o que apontei até aqui: “Ela tirou os sapatos e deitou depressa, puxando o lençol sobre as pernas claras. Havia muitos barulhos naquela noite, mas para mim não foi difícil distinguir os latidos dos cães e o festejar das folhas dos soluços contidos que vinham da cama ao lado – e era como se aquele metro que separava as camas, resultado dos erros e do amor de uma vida inteira, fosse agora o símbolo de uma separação ensaiada desde sempre, desde muito antes que eu e minha irmã soubéssemos o que significava tudo aquilo. E então era melhor não dizer nada, largar o corpo no lençol lavado, fechar os olhos, dormir”. Ora, é inevitável que o poder enternecedor dessas palavras acabe nos iludindo em uma primeira leitura (ainda que não consigamos fazer a mínima idéia do que seja “o festejar das folhas dos soluços contidos”). Mas, ao final, o que resta? Infelizmente, nada. A narrativa se dissipa, se rarefaz, frágil demais para nos molestar, para deixar sua marca.

Se Euclides da Cunha reclamava não existir um Maudsley para explicar “os crimes e as loucuras das nacionalidades”, neste caso, quando uma importante editora publica tal livro e um professor da USP o considera “ótimo”, certamente não precisaremos de psiquiatras para entender os critérios de seleção e julgamento. Basta um razoável Sherlock.

Os textos de Fabrício Corsaletti são, sim, peças agradáveis: semelhantes àquelas crônicas que velhas senhoras lêem em um jornal interiorano, logo no início da manhã, buscando, quem sabe, alguma pequena alegria, algum conforto em relação ao passado medíocre. Narrativas que lemos e até gostamos – mas depois esquecemos.

King Kong e as cervejas
Fabrício Corsaletti
Editora Cia. das Letras
102 págs.