Roman Jakobson: fotografia como imagem narrativa

Roman Jakobson – Abordagem semiótica da fotografia como imagem narrativa. Aspectos da condição judaica nas décadas de 1930 e 1940

A fotografia é uma imagem narrativa, aliada à memória, com seus personagens e cenários. Ler a fotografia conduz a uma segunda narrativa a partir da imagem que comporta em si uma realidade apreendida da realidade propriamente dita. A imagem fotográfica materializa a memória em sua estética concreta e, em contrapartida, cede espaço para a subjetividade das interpretações do momento registrado.

Ao considerar a imagem como narrativa, o referencial teórico e metodológico elaborado por Roman Ossipovitch Jakobson tem extrema relevância e aplicabilidade. Nascido em Moscou em 28 de setembro de 1896, filho de Óssip Abrámovitch Jakobson, industrial proeminente, e Anna Iákovlevna Jakobson, estudou de 1914 a 1918 no Instituto de Línguas Orientais da Universidade de Moscou e doutorou-se em 1930 pela Universidade de Praga. Em 1915 fundou, juntamente com um grupo de estudiosos da Universidade de Moscou, o Círculo Linguístico de Moscou, cuja finalidade era tratar de problemas fundamentais da teoria literária. Foi seu presidente até 1920. Ao mesmo tempo, em 1916, surgia o OPOIAZ (Óbchestvo pó izutchéniu poetítcheskovo iazyká – Sociedade de Estudos da Linguagem Poética), cujos membros, em parte, eram participantes também do Círculo Linguístico de Moscou. Entre eles estava Jakobson, que logo se converteu em uma das principais figuras dessa primeira fase do Formalismo Russo. Em 1920 desloca-se para a Tchecoslováquia, ligando-se a artistas e poetas como Stanislav Kostka Neumann (1875-1947) e Víteslav Nezal (1900-1958). Em 1926 funda o Círculo Linguístico de Praga, no qual desenvolve estudos sobre a análise comparativa entre a versificação russa e a tcheca. Casou-se três vezes – a primeira vez em 1922, na cidade de Praga, com Sofia Nikolaevna Feldman; em 1935, com Svatava Pirkova; e, em 1962, com Krystyna Pormorska, em Boston. Em 1942 fixou-se nos Estados Unidos, onde conheceu e trabalhou com Lévi-Strauss no lançamento das bases estruturalistas, respectivamente, da linguística e da antropologia. Lecionou nas Universidades Columbia e Harvard e no Massachusetts Institute of Technology. Faleceu em Cambridge, Massachusetts, em 18 de julho de 1982.

Jakobson foi um formidável poliglota. Tzvetan Todorov, que primeiro ouviu suas conferências em búlgaro e depois veio a conhecê-lo pessoalmente, calculou que ele dominava cerca de vinte línguas – todas as do grupo eslavo, todas as do românico e a maioria das germânicas. Se for preciso situá-lo em alguma categoria convencional, ele era um linguista de âmbito universal. Mas ele tinha uma mente especulativa de grande arrojo e largos interesses, sempre buscando estender os limites de suas investigações linguísticas e examinar suas relações com outras esferas da cultura. Combinava, em grau extraordinário, a paixão pela exatidão científica, pela precisão e clareza de pensamento, com a literatura, a história e o folclore eslavos, pintura e poesia de vanguarda e técnica cinematográfica […] (Frank, 1992, pp. 3-4).

Como ler uma fotografia aplicando algumas categorias de Jakobson? Através de qual instrumento, método ou aparato teórico? Como, de um objeto de pesquisa palpável como a foto, mas extremamente subjetivo e por vezes abstrato, extrair a narrativa da existência da pessoa de carne e osso? Em meio à multiplicidade dos sentimentos, tratar a imagem fotográfica como um espaço de preservação de memória de matiz poético tornou-se insuficiente, posto que, se de um texto escrito é possível extrair uma gama imensa de informação, por que a fotografia não seria capaz de nos oferecer o mesmo? Daí a necessidade de buscar uma forma que estruture essa leitura com um rigor de certo modo lógico, como, por exemplo, valendo-se dos aportes que Jakobson deu à Teoria da Informação.

Trata-se, neste caso, da elaboração de uma representação ideal entre emissor e destinatário, portadores de um código linguístico igual que permita fazer com que a compreensão seja a melhor possível. E mais ainda. Imersos no espaço semiótico nós o integramos, e a foto que nos é apresentada relaciona-se conosco, leitores, e a leitura dela será realizada à nossa imagem e semelhança, porque ela foi criada para narrar algo ao observador. Ela contém a memória direta do texto, do evento exposto e seus personagens, bem como a memória extratextual, a possível interpretação do futuro com o espaço de todos os estados possíveis.

Uma mesma imagem fotográfica pode ser lida em vários contextos históricos: embora contenha o seu próprio conteúdo instantâneo, o futuro encontra-se interligado ao presente da fotografia, em seu espaço de sentido.

O objeto constitui-se em imagens fotográficas da imigração judaica (décadas de 1930 e 1940) analisadas com base na decodificação das seis funções de Jakobson, na tentativa de realização de uma abordagem “semiótica” das imagens tidas como narrativas.
A fotografia como imagem narrativa remete a “um texto real da linguagem artística constituído por uma sucessão de símbolos estéticos comuns” (Lótman; Uspenskii et al., 1962, p. 33) e a um determinado contexto histórico. Realizar uma leitura da imagem fotográfica reúne a ênfase no ato de fotografar, a parcialidade de um cenário, a criação de “outra” realidade a partir da realidade fotografada através dos atores de seu contexto, avaliada em seu sentido: forma + significado + símbolos.

À luz de uma abordagem semiótica a fotografia pode ser lida de acordo com as seis funções linguísticas de Roman Jakobson (2001, pp. 118-162), segundo as quais existe um receptor da narrativa, que não somente a decifra através da comunicação, mediante o auxílio de determinado código, mas também através do estabelecimento da linguagem em que esta foi codificada. Vejamos, então, as seis funções linguísticas, aplicadas esquematicamente às fotografias abaixo, na sequência proposta por Jakobson.

Função Referencial ou Representativa – É denotativa ou cognitiva e concentra o conteúdo da mensagem naquilo sobre o que se está falando. A comunicação centra-se no referente, que pode ser real ou imaginário. O “porte” da informação para além da referência estética. O local, a temporalidade, a dimensão e para o que a mensagem converge, ou seja, o contexto no qual a imagem fotográfica foi registrada, dentro de um referente real. O local: Varsóvia, na Polônia. A temporalidade: década de 1940. A dimensão: o espaço das vivências do gueto de Varsóvia. “Aquela parte da cidade que, em meados de outubro de 1940, foi declarada ‘bairro judeu’ pelo governador alemão de Varsóvia, Ludwig Fischer, compreendia, em ‘termos normais’, uma área habitada por aproximadamente 160 mil pessoas” (Heydecker, 1981, p. 9).

Função Emotiva / Expressiva / Intencional – Centrada no emissor da mensagem: ela será manifestamente “subjetiva”. Comunicação que atende a sentimentos, estados de ânimo e opiniões do emissor (produtor do que deve ser comunicado), que os transmite de modo subjetivo. A condição do emissor-fotógrafo, com seus sentimentos e sua transmissão subjetiva. O registro de suas impressões a partir de um olhar próprio, o ato fotográfico.

Quando, no começo de janeiro de 1941, cheguei a Varsóvia, um desesperado soldado de guerra, a neve cobria as ruínas, e a lama pardacenta as ruas […] As pessoas pareciam cinzentas, abatidas e sem esperança. Os diversos uniformes alemães tornavam ainda mais estranhos os velhos cenários das ruas. Diante dos edifícios que agora abrigavam repartições militares ou membros da administração civil alemã, mendigavam crianças, sob o frio intenso (Heydecker, 1981, p. 59).

Função Conativa / Apelativa (do latim conatio, que significa esforço, tentativa) – Serve para manifestar a implicação do destinatário no discurso e a manifesta pela interrogação, entre outras formas. Orientação para o destinatário da mensagem que busca por uma resposta do receptor (quem recebe a comunicação). Espécie de convocação para que se dê um parecer acerca da mensagem. Persuasão provocada por esta. Que tipo de persuasão a mensagem possui para o receptor da mensagem? Orientação para que o receptor realize a leitura da imagem fotográfica de acordo com a intenção do fotógrafo.

A maioria das pessoas que vi nas ruas abarrotadas do gueto vestia roupas rasgadas; milhares de outros, enquanto eu fotografava, andaram em trapos, ficaram sentados, agachados, dormindo nas sarjetas, choramingando, mendigando. Esperaram em vão, os pés enrolados em sacos velhos, com olhos famintos, faces ocas e sem proteção contra o frio (Heydecker, 1981, p. 70).

 

Função Fática – Modo de definição da interação social. O que se relaciona à criação da mensagem? Reflete as condições da comunicação na mensagem. A mensagem tem por objeto verificar se a comunicação mantém o contato entre o emissor e o receptor da mensagem do signo fotográfico.

 

Exemplos do objeto de pesquisa. Imagens fotográficas de Joe J. Heydecker.

Função Poética ou Estética – Destaque para seis fatores envolvidos na comunicação verbal, exceto a própria mensagem: o pendor (Einstellung) para a mensagem como tal, o enfoque da mensagem por ela própria, eis a função poética da linguagem. A função poética é a que aparece na concretude ou materialidade da fotografia, portanto, não se deve procurar arte no significado da foto, mas nela própria, em suas características materiais. A função poética predomina na fotografia, com suas funções explícitas ou implícitas. A forma como comunicação de si mesma. Como ela comunica a si própria? A retórica de sua exposição.

Função Metalinguística – Exame do código empregado, a linguagem falando da linguagem, enquanto a poética trabalha sobre a própria mensagem, elaborando seu lado palpável e perceptivo. Reflete a consciência do locutor acerca do código da linguagem. Como se dá o sincronismo do ato e da produção artística na mensagem? Consciência do fotógrafo acerca do código utilizado para comunicar sua linguagem. Como se dá o sincronismo das partes? Qual a condição do artista no momento da produção de sua arte? O emissor – “fotógrafo-narrador” – explica o código utilizando-se da fotografia e a produção de sua imagem. O fotógrafo Joe J. Heydecker aborda as condições de produção da fotografia no instante do ato fotográfico.

O nosso grupo, portanto, entrou no gueto de Varsóvia abertamente e sem problemas em um dos primeiros dias de março de 1941 […] Fotografou carrinhos de mão que transportavam os mortos nus, recolhidos das sarjetas, e os esqueletos, apenas cobertos por uma pele fina, empilhados para serem atirados às sepulturas coletivas (Heydecker, 1981, p. 58).

Jakobson esclarece que “cada um desses seis fatores determina uma diferente função da linguagem”, mas dificilmente são encontradas mensagens que preencham uma única função, porque coexistem diferentes temporalidades em um espaço semiótico plurilinguístico. Inexiste unicidade, mas existe a hierarquia de funções, presente em cada texto artístico, o que não é distinto na imagem narrativa.

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Referências bibliográficas:

FRANK, Joseph. Pelo prisma russo: ensaios sobre literatura e cultura. São Paulo: Edusp, 1992.
HEYDECKER, Joe J. Where is thy brother Abel? / Wo ist dein Bruder Abel? / Onde está Abel, teu irmão? Documentary photographs of the Warsaw Ghetto / Photo-Dokumente aus dem Warschauer Getto / Fotodocumentário do Gueto de Varsóvia. São Paulo: Atlantis Livros Ltda., 1981.
JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 2001.
LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.
LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes. São Paulo: Paz e Terra, 2004.
LÓTMAN, Iuri M.; USPENSKII, V. Ivánov et al. Ensaios de semiótica soviética. São Paulo: Livros Horizonte, 1962.
ONFRAY, Michel. A escultura de si: a moral estética. Trad. Mauro Pinheiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
SZPILMAN, Wladislaw. O pianista. Trad. Tomasz Barcinski. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008.