Transcriador ofusca poemas de Borges

O argentino Jorge Luis Borges é mais conhecido pela sua prosa, embora tenha sido prolífico também na poesia e na crítica – caso tais definições pudessem ser a ele aplicadas. Mesmo com o avanço de sua cegueira, abandonando certas experiências de juventude, alcançou um tratamento do verso que revive algumas técnicas que podem ser muito úteis para reacender centelhas de clareza e coerência. Nisso reside a boa qualidade deste de Quase Borges – 20 transpoemas e uma entrevista, de Augusto de Campos, que tenho em mãos. Também é feliz a seleção dos poemas traduzidos, que começa com o “Poemas de los dones”, uma obra-prima das ironias do destino que dá uma dimensão do sentimento borgeano em relação à convivência simultânea com os livros e com a cegueira. A primeira estrofe é emblemática:

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios, que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.

A versão de Campos caminha impecável até o quarto verso, que é um reflexo de seu anterior. Ela salva a paranomásia entre “De Dios” e “Me dio” e também a rima interna entre “magnífica”, “ironia” e “livros”. Já na transposição do hendecassílabo hermano para o decassílabo português, acrescentou um adjetivo intertextual. Apesar de mostrar que Augusto conhece “La noche oscura” de San Juan de La Cruz, criando alguma empatia com o leitor que também tenha lido o poeta espanhol – apesar da homenagem, a referência ofusca a imagem criada no verso de Borges, pois despotencializa a palavra “noite”, tira o foco dela e mergulha o leitor dentro de um arcabouço místico que nada tem a ver com a melancolia ironicamente sutil do poema. Não seria digno de nota se as conotações da “noite” não fossem a ignição do poema, mas são. Ou seja, o adjetivo “escura” literalmente obscurece o elemento central do texto. Veja:

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.

É mais que conhecida a teoria dos poetas concretos sobre tradução, que, em alguns casos e em uma determinada época, funcionou bem . Grosso modo, do meu ponto de vista: fazer uma “performance” com e do original, sem abandoná-lo por completo, mas ciente de que aquilo que antigamente chamávamos de forma tem função semântica, é inata, inerente e indissociável à produção do sentido. Hay que traduzir a música, a imagem, a dança do intelecto sobre as palavras, como estabeleceu Ezra Pound, y un poco más. O intertexto supracitado não se aplica ao caso, embora seja uma solução para rimar com “censura”, floreia algo que deveria fluir como um canto clássico. Essa perturbação acaba com o acorde tocado por Borges, que vem dessa reverência sarcástica tensionada logo no primeiro quarteto.

Também faz parte desse distanciamento do original, tanto no sentido literal como nas técnicas aplicadas à produção, a tradução de “a la vez” por “mil”, que depois, adianto, vai redundar com os “libros infinitos” do terceiro quarteto, também substituídos com o recurso dos “mil”. Nesse caso, o tradutor não pintou o que não estava lá, mas deixou de pintar o que estava, como um árbitro de futebol que compensasse um lance polêmico a nosso favor com outro para o adversário. “A la vez” cria um vínculo que Borges não coloca ali à toa. Ao reforçar que os livros e a noite vêm ao mesmo tempo e são inseparáveis, ele pede ao leitor que guarde a chave do poema. As duas metáforas, os livros e a noite, devem vir juntas durante toda a leitura para que o poema funcione. Veja, em contraponto, a opção feita por Josely Vianna Baptista (BORGES, Jorge Luis. Poesía. São Paulo: Companhia das Letras, 2009):

Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite
esta declaração da maestria
de Deus, que com magnífica ironia
deu-me a um só tempo os livros e a noite.

Borges não se refere aos livros no sentido literal, de que havia muitos (mil) livros para que ele pudesse ler, mas transcende isso. Assim como a noite não é apenas uma noite – daí a necessidade de deixá-la livre de qualquer adjetivação –, os livros não são apenas livros, mas uma condição, uma vocação, uma forma de romancear a própria vida a partir de um tipo muito especial de metalinguagem. A recriação de Campos não abrange essa conotação. Conseguiria isso destacando os dois elementos aqui mencionados: a palavra “noite” e ideia de simultaneidade, que não podem ficar apenas implícitas, pois são o guia, a chave para a leitura.

Há ainda outro aspecto a se considerar que não foi explorado na versão para o português: a tal da melopeia. As assonâncias e a aliteração reforçada pelos sons das letras “l” e “s” – me dio a La veZ LoS LibroS y La noche – dão o dinamismo necessário para mostrar que aquele verso é na verdade a conclusão do poema, que ele é a ideia central sobre a qual se vai discorrer. Somados esses elementos, é por eles que Augusto de Campos não obtém o mesmo efeito ao priorizar aquilo que não foi priorizado no original e não priorizar aquilo que foi. Pergunto por que sacrificar uma solução fácil, simples e bela em uma tentativa de virtuosismo. Mas somente a crítica não basta. Não há o que acrescentar diante de uma versão bem realizada como a de Josely Vianna Baptista, anterior à de Augusto de Campos, mas apenas a título de exemplo se faz necessário expor ainda outra possibilidade:

Ninguém rebaixe a lágrima ou açoite
esta declaração da maestria
de Deus, que com magnífica ironia
me deu a um só tempo os livros e a noite.

O segundo e o terceiro quartetos originais seguem no mesmo tom, reforçando a tensão entre os dons dos livros e da noite, com o acréscimo de uma imagem que, além de manter a oposição entre ambos, conduz à mitologia dessa relação: as bibliotecas dos sonhos, que foram vertidas para o português como objetos indiscriminados, impessoais. Em Borges, a biblioteca compõe o mise-en-scene do texto. É nelas que tudo acontece, que os parágrafos insensatos cedem as manhãs ao seu afã, em que o eu lírico se fatiga, caminhando sem rumo. Todo o quarteto remete aos livros, justamente para manter a coerência com o leitmotiv.

De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden

Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos,
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.

Augusto de Campos mais uma vez ignora esse aspecto, atribuindo cores aos parágrafos, como se eles pintassem o alvorecer. Uma imagem pictográfica que desvia o motivo do poema. Também desconsidera a assonância entre “Las albas” “a su” “afán” e “en vano el”. Assim temos:

Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e cores
De insensatos parágrafos que cedem

As manhãs ao seu fim. Em vão o dia
Lhes oferta seus livros infinitos,
Árduos como esses árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

Não entendi por que trocar um termo compatível em português por outro que não contém a noção de abundância, esbanjamento contido em “Les prodiga”. Imaginei que talvez o autor estivesse buscando um termo mais corrente, mas então por que não usar “esbanjar” ou mesmo “dissipar”? “Ofertar” perde muito em relação a “prodigar” ou “prodigalizar”. Também não me agradam soluções como substituir “os” por “esses”. Apoiando-nos no ritmo do poema, esse recurso de escansão se torna desnecessário, amadorístico. Também não há por que usar “cores”, senão só para rimar com “senhores”. A opção por “sono” evitaria a substituição de “dueños” (donos) por “senhores” sem prejuízo do caráter onírico nem do literário contidos no original. Outra possibilidade:

Que desta biblioteca tornou dono
um par de olhos sem luz, que só conseguem
ler nos livros oníricos do sono
insensatos parágrafos que cedem

as albas ao afã. Em vão o dia
lhes prodiga seus livros infinitos,
árduos como os árduos manuscritos
que pereceram em Alexandria.

Os quartetos seguintes não apresentam desafios ao ofício do tradutor, com a pequenina ressalva de que é possível substituir a palavra “siglos” (séculos) por “ciclos” ao invés de “eras”, com mínima interferência de sentido e máximo lucro em relação sonora. Veja o verso original e a opção de Campos:

Y el Ocidente, siglos, dinastías,
E o Ocidente, eras, dinastias,

Já a segunda metade do poema dá início a um novo devaneio, quando o eu lírico abandona a predominância descritiva e passa a refletir sobre sua condição, reconhecendo a presença de um outro. Isso é sentido não apenas na retórica como no ritmo com um reforço no acento da 4ª sílaba poética do primeiro e quarto versos do quarteto, o mesmo que acontece com a pedra-de-toque “Me dio a la vez los libros y la noche.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro con el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca

Augusto de Campos sacrifica a concreção e o potencial imagético de “penumbra hueca” para rimar um termo abstrato como “nada” com o adjetivo “refinada”. Também ignora o acento na quarta e oitava sílabas do último verso (que é uma marca de oralidade do poema) e não se preocupa com a imagem do eu lírico preso e vagaroso dentro de sua própria sombra – como um processo de inversão no qual a sombra tomasse o lugar do corpo nesse caminhar –, vertendo-a para a expressão clichê de andar “nas sombras”.

Lento nas sombras, a penumbra e o nada
Exploro com o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Como uma biblioteca refinada.

Outra possibilidade de tradução é a seguinte:

Em minha sombra, lento, a bruma seca
exploro com o báculo indeciso,
eu, que me figurava o Paraíso
como uma espécie de uma biblioteca.

O poema é uma fonte inesgotável e não quero estragar as descobertas do leitor atravessando as estrofes finais. Além deste, há outros dignos de menção, mas seria necessário um esforço ingrato, e fastidioso – tanto para mim como para o leitor – acompanhar ao longo dos 20 poemas as escolhas que comprovam a minha avaliação para dar uma ideia da forma da linguagem com que Augusto de Campos lê a obra poética de Borges. Portanto, prossigamos, não aleatoriamente, até “Baltasar Gracián”, um de seus diversos dedicados a figuras literárias. Não há um pastiche, o tom adotado é característico do verso de Borges. O texto no geral adota um estilo circular em que o eu lírico apronta problemas à poética do escritor espanhol ao mesmo tempo que a celebra. E os primeiros desafios ao tradutor surgem logo de cara.

Laberintos, retruécanos, emblemas,
Helada y laboriosa nadería,

Os termos “retruécanos” e “nadería” imediatamente saltam à vista, e renascem como “palíndromo” e “ninharia” em Quase Borges. Sobre o segundo caso não há o que comentar, mas sobre o primeiro, a opção natural, “trocadilhos”, deixaria de contemplar o decassílabo heroico realizado por Augusto de Campos: “Labirintos, palíndromos, emblemas”. Perde em precisão, mas resgata a música. Adiante, temos “Busqué alimento en sombras y en errores” por “Busquei alento em sonhos e imposturas”. Algo que o escritor argentino notou e transmitiu é que conseguimos ver sombras e erros/problemas/equações em Gracián, mas não vemos sonhos. Ainda no mesmo poema, adota-se o verbo “iluminar” em lugar de “mostrar seu fogo”. O original: “Sol de Dios, La Verdad, mostró su fuego?”. Então pensamos que de fato A Verdade deveria soltar chamas para o jesuíta, não “iluminações”. A personificação deu lugar a um termo abstrato.

Chegamos a “Camden, 1982”, outro poema dedicado a alguém, do qual partiremos logo depois do primeiro verso, digno de nota, “El olor del café y de los periódicos”, que inexplicavelmente foi traduzido para o português da seguinte forma: “O cheiro do jornal e dos periódicos”. Diferentemente, em “Everness”, “Sólo una cosa hay” foi transformado em “Só uma coisa não há”, sem redundância e ruído sobre uma imagem e com implicações semânticas ao longo de todo o soneto. Levando-se em conta que as traduções de Campos são transpoemas, sem necessidade de terem compromisso com o sentido original, a opção se justifica.

Não se justifica, por exemplo, o arcaísmo do verso “A aparência superficial das cousas” para “La vana superficie de las cosas”. A explicação é simples: centrado nos encantos sonoros do verso borgeano, do qual a rima perfeita é um recurso explorado, Augusto de Campos preferiu um termo fora de uso para casar com “rosas”. Ademais, combina com as rimas do quarteto anterior “exploro” e “ouro”. A música foi, em verdade, reforçada – o que é diferente de potencializada ou renovada, mas por conta de uma palavra o poema empoeirou uns séculos. Em Borges, a música também tem prioridade, mas não em detrimento da busca por imagens concretas, contrastantes, contraídas em adjetivos cirúrgicos.

Ao longo das páginas de Quase Borges (São Paulo: Terracota, 2013), deparei com outras escolhas que valeriam algum comentário, como recriar “lentas” por “sem pausa”, “severo” por “certeiro”, “del camino” por “de uma estrada incerta”, “acero” por “espada”, “los sueños” por “imaginações”, “en esta casa” por “em nosso espaço”, “una trunca sombra dilata” por “um borrão tisnado da sombra espalha”, “tunas” por “tunas”, “te aguarda en vano” por “te aguarda insano”, “involvidables” por “mais preciosas”, “Esplendores” por “Luzes das alturas”, “Habrá un terrible Nombre” por “Talvez exista um Nome” ou “Desde la noche veo” por “Vejo, do fundo breu”.

Para não prolongarmos ainda mais nossa análise, que se pretende breve, adianto a minha conclusão e convido o leitor a comprar um dos mil livros – a tiragem são exatos mil, não uma gíria adolescente que Augusto insiste em empregar –, encontrar os excertos mencionados e tirar, com os próprios olhos, as suas próprias conclusões. Augusto de Campos, em seus transpoemas, peca pelos floreios, pelo barroquismo na pior conotação do termo, ao abrir mão das qualidades do original para demonstrar um virtuosismo gratuito que resulta em poemas com adjetivações desnecessárias em prol de uma música banal e imagens que apelam para lugares-comuns, ofuscando em muitos momentos aquilo que a obra tem de significativo.

Apesar de deixar a desejar em sua proposta de inventividade transcriativa, ainda sim é preciso levar em consideração o esforço de tradução (que é sempre imenso) e divulgação e – embora os transpoemas não tenham quase nada de Borges –, por ser uma edição bilíngue, vale também pelo que ela tem do escritor argentino. Quanto a Augusto de Campos, o problema é mais agudo. Luiz Costa Lima, ao Valor Econômico, comentou recear que a inconsequência midiática e pequenas invejas literárias de alguns façam com que Augusto permaneça ignorado pelo leitor contemporâneo. Ao invés de se preocupar com a fama do poeta, com o fato de ele ser mais ou menos lido, vender mais ou menos livros, deveria preocupar-se com a obra em si, com o legado artístico daquilo que considera o melhor poeta brasileiro vivo, sem expor as razões. Talvez iludido com o jogo de manipulação de opiniões, esquece-se que não se sobrevive ao tempo apenas à base de relações públicas.

Poema de los dones

Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
y el Occidente, siglos, dinastías,
símbolos, cosmos y cosmogonías
brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibió en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habrá dado
los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una pálida ceniza vaga
que se parece al sueño y al olvido.

Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.