Treva alvorada, de Mariana Ianelli

Mariana Ianelli, neta de um mestre das artes plásticas, é bastante jovem. Apesar disso, possui um currículo tentador para o mercado editorial. Publicou seu primeiro livro aos 20 anos e outros cinco volumes em um intervalo de praticamente dez anos, todos pela Iluminuras (com o tratamento gráfico impecável de sempre). Para os acadêmicos, ela é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP; para os mercadores, ela colabora com resenhas para a grande imprensa, foi duas vezes finalista do Jabuti, outra do Bravo! Prime de Cultura e ainda recebeu, em 2008, o valioso Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) de literatura na categoria Juventude.

Se Graciliano Ramos reprovaria escritores jovens pela falta de “vivência”, e se Konstantinos Kaváfis publicou pouco mais de 150 poemas em toda a vida, sem nunca cessar de reescrevê-los, por outro lado, com essa constelação de obras, prêmios e colaborações, a recente publicação de mais um livro de poemas, Treva alvorada (Iluminuras, 2010), de Mariana Ianelli, é digna de atenção. Quando um livro chega às nossas mãos repleto de boas referências, é quase certo que ele vá despertar mais a nossa curiosidade que outro sobre o qual ninguém falou nada ou falou mal.

Divagações à parte, não é preciso chegar até a epígrafe do livro – um trecho de “Dissolução” – para concluir que Treva alvorada faz uma tremenda aproximação com o Claro enigma de Drummond. Também é evidente um tom mais sombrio, com ampla reprodução de alguns vocábulos estruturais do livro de 1951: a noite, a morte, a perenidade, aquele desvio de escrita que, em leituras superficiais, beira o hermético etc. Ou na alusão da autora a João Cabral: “Da educação pela sombra”.

Não existe um léxico próprio à poesia, como também não existe uma receita para fazer poemas. Aliás, existem, mas a luta do poeta é justamente fugir dos “enlatados prontos para servir”. Até porque a busca por “uma poesia do primordial”, como Jair Ferreira dos Santos escreveu para a orelha de Treva alvorada, ou “do prosaico rumo ao sacro”, como sugere Fabrício Carpinejar, soa um abstracionismo que mais confunde do que sedimenta a leitura. Não digo, com isso, que a clareza seja um dogma da poesia, mas que claro, enigmático, hermético o estilo do poema guarda faculdades semânticas que são exploradas, se não pelo autor, pelo leitor.

E o que ocorre no livro de Ianelli é que essa adoção de uma escrita que não vai nem fica, não leva a lugar algum, não perturba, antes, desvia a atenção. Isso ocorre pela forma como esse estilo é empregado nos poemas, geralmente por meio do excesso. Excesso de adjetivação, de termos abstratos, de palavras à deriva. Ainda segundo Jair Ferreira, a busca pelo primitivo nessa poesia passa por oposições míticas (em nada comparável ao tratamento dos “mitos essenciais” feito por Mário Faustino), ambiguidade na qual reencontramos, “em épocas e geografias indefinidas, Narciso, Abel, cenários antigos e passagens bíblicas, cada um deles envolvido com dilemas ou esperanças cujo drama, em roupagem inédita, revivemos”.

O crítico tem razão em certo ponto. A autora condensa, em seu livro, um alto grau de erudição, especialmente com relação a culturas e obras antigas, como a mitologia e os clássicos gregos e a Bíblia. O que fica difícil de identificar, e que separaria a obra de Mariana da enxurrada de temas, léxico e técnicas diluídos em entretenimento editorial, é a tal da “roupagem inédita”. O poema “Narciso”, da quinta parte do livro, que descreve a clássica história, é um bom exemplar dessa retomada de certa tradição, em detrimento dessa tradição. Nada mais é que, conforme está escrito, “eco em torno de um herói e suas mortes”.

Cito mais dois momentos da resenha de Jair Ferreira dos Santos: um no qual ele diz que os poemas são “narrativos, portanto mais ágeis”, e outro em que ele destaca um verso de Mariana para demonstrar a capacidade dela de criar “imagens reveladoras de um universo em contínua radiância”, seja lá o que isso quer dizer. O ponto é que deve se tratar de uma imagem no mínimo bem realizada para dar conta dessa faceta universal. O verso destacado é: “A maçã resplandece no esterco”.

Por mais que seja boa a intenção do crítico, associar a técnica da narração à agilidade do poema é criar um entrave à compreensão do que seja esse ofício da escrita. Ora, uma das obsessões dos poetas desde sempre está relacionada a essa tal agilidade do poema – salvo engano, vou compreender “agilidade” aqui como a disputa entre o objeto e sua representação, uma vez que isso não é explicado pelo crítico –, de forma a colocar o leitor e/ou o poeta em contato o mais próximo possível com a sensação ou o objeto do poema, utilizando-se, para isso, das múltiplas valências da linguagem. Isso quer dizer que o fato de serem narrativos ou não nada tem a ver com a “agilidade” do poema.

Agora, com relação às “imagens reveladoras de um universo”, sem fugir à apresentação da orelha do livro, vamos retomar o verso: “A maçã resplandece no esterco”. A imagem em questão é a de uma maçã, imagine, vermelhinha, sozinha em meio àquele monte de bosta verde. Um contraste sem tamanho, claro. E se essa oposição visual é marcante, temos de convir que a maçã, por si só, resplandece no esterco. Então, por que dizer que ela resplandece? Não falamos em agilidade do poema? O que é mais ágil para criar esse contraste na retina mental do leitor, deixar apenas que “A maçã no esterco” resplandeça por si só, causando um estranhamento maior na leitura, ou informar o leitor, de maneira descritiva, que “A maçã resplandece no esterco”? Afinal, em poesia, o que vale, fazer mais com menos ou menos com mais? O verso de Mariana claramente se encaixa no segundo caso.

Em introdução ao volume, a autora diz que o dividiu em “povoações”, que são nove. Do título até o primeiro poema, e ainda sem chegar nas vias de fato, há três alusões ao Claro enigma drummondiano. A primeira delas, dissemos, está no título, embora Treva alvorada, mesmo preservando a antítese, perde muito da ambiguidade criada por Drummond com as conotações do vocábulo “claro”. A segunda delas está no emprego da palavra “povoações”, que, se já não estava bastante óbvia, redunda na epígrafe do livro, o excerto de “Dissolução” que a contém:

“Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?”

E essa, sim, é uma presença constante nos poemas de Treva alvorada, a redundância. Enfim, tardiamente vamos ao que interessa. O primeiro poema se chama “Exílio”; há nele uma tentativa de melodia que não funciona, apoiada nas rimas toantes em “e” e com algum paralelismo gratuito. Como o título já diz, somos introduzidos à obra por meio da deserção, da ausência, da busca por um fim que não existe (“Eu, a quem faltava uma seta/ E sobravam direções”), da morte, lugares-comuns que serão vistos com frequência em todo o restante da obra. Esse tema da morte segue um caminho que culmina em algo revelador – e sensivelmente captado pela autora, com intenção ou não – lá no fim da sexta parte do livro, nos últimos versos de “Véspera”: “Absolutamente livre/ Morto de significado”. De fato, toda essa liberdade criativa parece não criar, mas matar o significado.

Voltando à primeira parte da obra, que encerra com “De volta a casa”, um detalhe causa estranhamento e desperta o interesse. Note que, neste título, não ocorre crase. Não está escrito “De volta à casa” ou “De volta, a casa”. Se isso foi obra da revisora ou da poeta, não importa, mas como a ausência de acento grave ou de vírgula sugere uma leitura, se não renovada, ao menos arejada, com um padrão pouco empregado na língua e que pode ser bastante útil se bem explorado. Infelizmente essa visão privilegiada do conceito de “casa”, que o título da forma como foi publicado sugere, não ocorre nos versos do poema.

Uma “rosa inútil” aqui, um “deus menino” acolá, os ecos de obras, autores, mitos se multiplicando e chegamos ao verso de “A morte da quimera”: “O mais pássaro dos bailarinos”. Essa imagem foi emprestada da obra de juventude de João Cabral, mais especificamente do poema “A bailarina”, que está no livro O engenheiro, de 1945. Para comparação:

A bailarina feita
de borracha e pássaro
dança no pavimento
anterior do sonho.

A três horas de sono,
mais além dos sonhos,
nas secretas câmaras
que a morte revela.

Entre monstros feitos
a tinta de escrever,
a bailarina feita
de borracha e pássaro.

Da diária e lenta
borracha que mastigo.
Do inseto ou pássaro
que não sei caçar.

João Cabral cria uma imagem da dança a partir dos elementos que conduzem à bailarina, sua elasticidade e sua leveza, trabalhando a metáfora para que tais adjetivos se apresentem de forma mais concreta ao leitor, além de encerrar uma tensão entre o tom onírico herdado de algum surrealismo e a concreção marcante da obra cabralina. Essa leitura, vergonhosamente superficial, é suficiente para demonstrar como essa mesma imagem, retomada por Ianelli, surge de maneira bem menos intensa, sem qualquer ineditismo, sem outra roupagem, sem acrescentar nada ao que já tínhamos encontrado no poeta pernambucano. Por meio do verso “O mais pássaro dos bailarinos” podemos concluir que: 1. Mariana lê ou leu João Cabral; 2. Ponto final.

Quando exercita alguma música, Mariana investe em versos livres sustentados por medidas semelhantes e em rimas toantes acidentais; em alguns casos também ocorre paralelismo sintático. Isso tudo geralmente aparece no fim de cada estrofe como forma de forçar a marcação de um ritmo, sem qualquer relação semântica, prosa fatiada em versos. Veja, em “Teatro de sombras”, a presença da rima entre “profunda”, “música” e “lua” e entre “esquecimento”, “perdendo”, “tempo”, “representa” e “serpente”:

Era um frescor de água profunda
A tentação do esquecimento.

Tua alma eleita para a música
Se regando, se perdendo,
Náiade num rio
Antes de existir no tempo.

– Agora sonha, poeta, e representa
Sob o véu da lua
O mito da mulher e da serpente.

Mariana opta por escrever em verso. Poderia fazer prosa, poderia fazer poesia de outra forma. Escolheu o verso. Isso motiva a pergunta: o que está contido nas “narrações” de Treva alvorada que não pode ser escrito em prosa? Essa, não responderei.

Uma das potências da linguagem é seu poder de condensar significado, e é essa também uma das armas do poeta para atingir seus resultados, seja a resistência, seja o meio seu próprio fim. Se, de duas caixas de mesmo tamanho, uma aguenta mais peso que a outra, dizemos que ela se presta melhor à sua função. E se uma caixa de material bem mais leve e fácil de transportar suportar o dobro do volume e do peso, há quem prefira outra?

Jair Ferreira dos Santos ainda comete mais assertivas: diz que Treva alvorada reina na “paz dos contrários”, talvez uma menção a Mário Faustino novamente, um poeta que bate ponto no livro de Ianelli. O crítico da orelha também registra que, com “tudo somado, temos a síntese de uma originalidade feita pensamento poético em sua mais forte expressão”. Que um crítico de orelha se esforce em seduzir o consumidor para aquele produto, entende-se, mas não é preciso forçar a mão dessa forma. O que diria Drummond, Cabral ou Faustino desse “pensamento poético em sua mais forte expressão”?

E por falar em Faustino, vale lembrar que essa conciliação dos opostos é inerente ao processo criativo desse poeta. Grosso modo, ele age poeticamente por meio dessa tensão entre os contrários como forma de tentar estabelecer sua organização órfica do cosmo. Algo coerente, repleto de significado e necessário à consolidação da poética faustiniana. Ou seja, neste caso, essa tensão não ocorre gratuitamente, por acidente ou por efeito de decoração. É o contrário disso.

Por fim, sobre Treva alvorada: um ou outro trecho mais “vistoso”, de resto, conservadorismo (que nada tem a ver com classicismo) e clichê repetindo clichê em receita de bolo, só.

Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.