Entre (Between)

Novo livro de / new book of Régis Bonvicino

Illustrations by Susan Bee / Ilustrações de Susan Bee
published by Collectif Génération / Global Books; publisher: Gervais Jassaud


 

Régis Bonvicino em Global Books

Gervais Jassaud

Criei o selo Global Books para editar poetas que considero importantes não só apenas em suas tradições, mas também em nível internacional. O nome Global Books encontra sua origem num estudo de livros de artistas da Collectif Génération, feito por Paul Van Capelleveen, conservador da Biblioteca Nacional da Holanda. Ao longo dos anos editei poetas como John Ashbery (Estados Unidos), Jean-Louis Baudry (França), Michel Deguy (França), Ann Lauterbach (Estados Unidos), Kenji Nakagami (Japão), Mónica de la Torre (México), John Yau (Estados Unidos) e Jean-Pierre Verheggen (Bélgica), entre outros tantos bastante significativos.

O mais recente livro é o do poeta Régis Bonvicino, para o qual convidei os artistas Tatjana Doll (Alemanha), José Iraola (Cuba), Susan Bee (Estados Unidos) e o estilista brasileiro, artista multimídia, Ronaldo Fraga.

Alguns exemplares do livro de Régis Bonvicino foram expostos em Aix-en-Provence (França), na mostra intitulada “Les Livres d’Artistes de Gervais Jassaud”, este ano. Gostaria de finalizar esta nota em francês: “D’où des livres d’artistes declinés qui réunissent autour d’un auteur des artistes de différentes nationalités ou de différentes origines. Pour exemple le livre Entre du poète brésilien Regis Bonvicino est “decliné” en quatre versions d’artistes de différentes nationalités : Tatjana Doll pour l’Allemagne, Susan Bee pour les États-Unis, José Iraola pour l’Amérique latine et Hamra Abbas pour l’Asie. N’est-ce-pas là une forme de “Mondalisation” du livre d’artiste, une invitation au dialogue entre les cultures?”

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Me transformo!

Charles Bernstein

Quem é Kate Moss?

Régis Bonvicino submete a supermodelo Kate Moss a um teste em seu conjunto de poemas intitulado Entre, no qual desafia também quatro artistas plásticos a respondê-lo. Bonvicino faz o papel de provocador, por meio de seus textos; quer que disparem uma resposta, como no poema “Respondez!”, de Walt Whitman: “Deixe os assassinos, intolerantes, tolos, imundos, oferecerem novas ideias!”.

O brilho estrutural do livro de Gervais Jassaud – o artista gráfico-idealizador-editor – é a base para que cada peça produza imagens múltiplas e incompatíveis.

Este é um valor central nos livros pioneiros e iluminadores de William Blake, que exploram novas conjunções e disparidades, como em The four Zoas, com páginas articuladas em diferentes ordens. Para Blake, isso era nada menos do que a medida da própria imaginação em confronto com a tirania da uniformidade (“unidade/deformidade”, nas palavras do poeta Robert Grenier).

O poema é em si mesmo constante transformação.

No meio do livro (objeto) há um buraco retangular: o vazio proposto por Jassaud abre caminho para os inícios de alguns níveis (diferentes “andares”) de narração. Como se tudo que fazemos ou somos se revolvesse ao redor de um centro oco.

Em Entre, Bonvicino publicou poemas nos quatro idiomas coloniais: português, inglês, francês e espanhol.

As Américas são esse centro oco.

Tatjana Doll joga nos poemas como se jogasse pôquer, como se você jogasse no poema ou o poema jogasse com você.

Ases são bruxas, paus batem o ritmo, espadas são rainhas e os reis regem!

José Iraola aumenta a aposta do livro ao levá-lo para o espaço tridimensional, que, então, o aborda e o encurrala. Suas manchas vermelhas e negras, espalhadas – abstratas – tornam-se contraponto para a hiper-referencialidade dos poemas (marca da poesia de Régis). Deste modo, Iraola confronta os sombrios espaços interiores, a realidade do pesadelo, que irrompe à luz do dia, como se queimasse oferendas baratas de uma pizzaria. Você fala esqueleto, eu digo não: pode dizer de novo?

Não se trata de Phallus, mas de escolha da (minha) impotência, escrita em letras garrafais.

Como em:

Me transformo, seu cara pálida.

Me transformo, você produto inesperado de uma súbita descoberta.

Não adianta “amar” a arte. Ela é sempre infiel.

Os poemas estão aprisionados em branco e preto, o que significa que cada cor conectada a eles é prova da vida interior das palavras.

Susan Bee capta essa vida interior, como se estivesse sempre estado lá, todavia, reinventando-a, como Deus inventa, por certo, a Ideia de Deus. Anjos se esbatem contra o respingo da tinta, olhos roxos ensanguentados assomam entre corações atravessados por flechas. O poema “Reggis’s tongue” – feito a partir da pornografia captada na internet – merece apreço estético.

Cada poema é um modelo de mundo possível, que existe, no entanto, apenas quando a leitura é viva, reavivada. Cada um desses livros oferece leituras intensas, tornando cada poema um ponto virtual ou nodal da própria possibilidade.

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The book poems

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Me Transformo!

Charles Bernstein

(Who’s Kate Moss?)

Poet Régis Bonvicino runs the super-model through the poetic ringer in one of a set of poems to which he has challenged several exuberant artists to respond.

Bonvicino plays the role of provocateur with his poems, just that he wants the poems to provoke response, as in Whitman’s “Respondez!”: “Let murderers, bigots, fools, unclean persons, offer new propositions!”

The structural brilliance of Gervais Jassaud’s book series is the premise that each poem will provoke multiple, incommensurable images. This is a core value in Blake’s foundational illuminated books, where each book explored new conjunctions and disparities, including, as in The Four Zoas, different page orders. For Blake this was nothing less than the measure of Imagination against the tyranny of uniformity (“unit deformity” in poet Robert Grenier’s formulation).

The poem is a constant transformation of itself.

And at the middle of each book is a big rectangular hole: Jassaud’s emptiness gives way to the book’s storied becomings.

As if all we are and do revolves around a hollow center.

Bonvicino presents his poems between/entre the four colonial languages of the Americas: Portuguese, English, Spanish, and French.

The hollow center is the Americas.

Tatjana Doll casts the series of poems as playing cards, as in the poem plays you or you play the  poem. Aces are witches, clubs beat the rhythm, spades are queens, and kings rule!

José Iraloa raises the bet of the book by moving into a three-dimensional space that surrounds or corrals it. His splashing red and black stains move toward an abstract counterpoint to the hyper-referentiality of the poems. Then he confronts the dark inner spaces, the nightmare reality that erupts in the daylight like burnt offerings at a pizza parlor. You say skeleton, I say: can you say that again?

That’s no phallus, that’s the election of my impotence, writ large.

As in:

Me transformo, you pale face.

Me tranformo, you the unexpected product of a sudden revelation.

I love art so much … but it never returns the favor.

Poems are stuck in black and white, which means that every color connected to a poem is proof of the inner life of words.

Susan Bee locates that inner life as if it was always there; but she invents it, as surely as God invents the Idea of God. Angels brush against spattered brushwork, gory purple eyes loom out amidst hearts pierced by arrows. Bonvicino’s diacritical pornographia undergoes an aesthetic transvaluation.

Each poem is a model of a possible world, that only comes into being when reading is active, activated. Each of these books offers such activated readings, making each poem a virtual or nodal point of possibility.


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