Poemas do espanhol Antonio Machado

Está completando setenta anos da morte de Antonio Machado (1875-1939), um dos poetas mais significativos da chamada “Geração de 98” da Espanha. No Brasil, no entanto, sua obra foi pouco traduzida, sendo conhecido apenas por aqueles que se interessam pelos poetas espanhóis. Até onde pude verificar, não existe nem sequer uma antologia de seus poemas no mercado.

Em homenagem ao poeta, selecionei alguns dos pequenos poemas que compõem a longa série “Provérbios e cantares”, em aberto diálogo com as formas da poesia popular e seus elementos de filosofia do senso comum. São objetos delicados exatamente por sua simplicidade, o que demanda uma tradução fluente para que a métrica e a rima sejam preservadas sem artificialismo. Na maioria dos casos, mantive a estrutura adotada pelo poeta; em alguns, no entanto, utilizei outra métrica na perspectiva de tentar manter a naturalidade do original.

Em breve, esse conjunto de poemas será publicado por Mário Alex Rosa numa plaquete de tiragem limitada e distribuída gratuitamente. Acompanhando o conjunto, Mário Alex escreveu um pequeno texto de apresentação movido pela leitura que fez desses poemas que por vezes podem lembrar nosso Manuel Bandeira.

Ronald Polito
São Paulo, 23 de junho de 2009

 

 

ANTONIO MACHADO

Proverbios y cantares / Provérbios e cantares


I
Nunca perseguí la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse.
I
Nunca persegui a glória
nem conservar na memória
dos homens minha canção;
eu amo os mundos sutis,
ingrávidos e gentis
como bolhas de sabão.
Gosto de vê-los pintar-se
de ouro e de carmim, voar
no céu azul, tremular
subitamente e quebrar-se.

II
¿Para qué llamar caminos
a los surcos del azar?…
Todo el que camina anda,
como Jesús, sobre el mar.
II
Para que chamar caminho
a estes sulcos do azar?…
Tudo o que caminha anda,
como Jesus, sobre o mar.

III
A quien nos justifica nuestra desconfianza
llamamos enemigo, ladrón de una esperanza.
Jamás perdona el necio si ve la nuez vacía
que dio a cascar al diente de la sabiduría.
III
A quem nos justifica nossa desconfiança
chamamos inimigo, ladrão de uma esperança.
Jamais perdoa o néscio se vê a noz vazia
que deu a cascar ao dente da sabedoria.

IV
Nuestras horas son minutos
cuando esperamos saber,
y siglos cuando sabemos
lo que se puede aprender.
IV
Nossas horas são minutos
quando esperamos saber,
séculos quando sabemos
o que se pode aprender.

VI
De lo que llaman los hombres
virtud, justicia y bondad,
una mitad es envidia,
y la otra no es caridad.
VI
Daquilo que chamam os homens
virtude, justiça e bondade,
uma metade é só de inveja,
e a outra não é caridade.

VIII
En preguntar lo que sabes
el tiempo no has de perder…
Y a preguntas sin respuesta
¿quién te podrá responder?
VIII
Em perguntar o que sabes
tempo não hás de perder…
E a perguntas sem resposta
quem pode te responder?

X
La envidia de la virtud
hizo a Caín criminal.
¡Gloria a Caín! Hoy el vicio
es lo que se envidia más.
X
A inveja da virtude
fez de Caim Criminoso.
Glória a Caim! Hoje o vício
é aquilo que mais se inveja.

XII
¡Ojos que a la luz se abrieron
un día para, después,
ciegos tornar a la tierra,
hartos de mirar sin ver!
XII
Olhos que à luz se abriram
um dia para, então,
cegos tornar à terra,
fartos de olhar sem ver!

XIII
Es el mejor de los buenos
quien sabe que en esta vida
todo es cuestión de medida:
un poco más, algo menos…
XIII
É o melhor entre os bons
quem sabe que nesta vida
tudo é questão de medida:
um pouco mais, algo menos…

XIV
Virtud es la alegría que alivia el corazón
más grave y desarruga el ceño de Catón.
El bueno es el que guarda, cual venta del camino,
para el sediento el agua, para el borracho el vino.
XIV
Virtude, alegria que abranda o coração
mais grave e desenruga o cenho de Catão.
O bom é o que guarda, qual venda do caminho,
para o sedento a água, para o ébrio o vinho.

XVI
El hombre es por natura la bestia paradójica,
un animal absurdo que necesita lógica.
Creó de nada un mundo y, su obra terminada,
“Ya estoy en el secreto -se dijo-, todo es nada.”
XVI
O homem, por índole, é besta paradoxal,
precisa de lógica esse absurdo animal.
Criou do nada um mundo e, obra terminada,
“Já sei o segredo – se disse – , tudo é nada.”

XVII
El hombre sólo es rico en hipocresía.
En sus diez mil disfraces para engañar confía;
y con la doble llave que guarda su mansión
para la ajena hace ganzúa de ladrón.
XVII
O homem somente é rico em hipocrisia.
Em dez mil disfarces para enganar confia;
e com a chave dupla da sua mansão
para a alheia faz gazua de ladrão.

XXI
Ayer soñé que veía
a Dios y que a Dios hablaba;
y soñé que Dios me oía…
Después soñé que soñaba.
XXI
Ontem eu sonhei que via
Deus e que com Deus falava;
e sonhei que Deus me ouvia…
Depois sonhei que sonhava.

XXIII
No extrañéis, dulces amigos,
que esté mi frente arrugada:
yo vivo en paz con los hombres
y en guerra con mis entrañas.
XXIII
Não estranhem, doces amigos,
esta minha testa enrugada:
eu vivo na paz com os homens
e em guerra com minhas entranhas.

XXXV
Hay dos modos de conciencia:
una es luz, y otra, paciencia.
Una estriba en alumbrar
un poquito el hondo mar;
otra, en hacer penitencia
con caña o red, y esperar
el pez, como pescador.
Dime tú: ¿Cuál es mejor?
¿Conciencia de visionario
que mira en el hondo acuario
peces vivos,
fugitivos,
que no se pueden pescar,
o esa maldita faena
de ir arrojando a la arena,
muertos, los peces del mar?

XXXV
Há dois modos de consciência:
uma é luz, e outra, paciência.
Uma estriba em alumbrar
um pouquinho o fundo mar;
outra, em fazer penitência
de anzol ou rede, e esperar
o peixe, qual pescador.
Diga-me? Qual é melhor?
Consciência de visionário
que olha no fundo do aquário
peixes vivos,
fugitivos,
que não se podem pescar,
ou esse ofício nefando
de ir na areia atirando,
mortos, os peixes do mar?

XXXVI
Fe empirista. Ni somos ni seremos.
Todo nuestro vivir es emprestado.
Nada trajimos; nada llevaremos.
XXXVI
Fé empirista. Nem somos nem seremos.
Todo nosso viver é emprestado.
Nada trazemos, nada levaremos.

XLIII
Dices que nada se pierde
y acaso dices verdad,
pero todo lo perdemos
y todo nos perderá.
XLIII
Dizes que nada se perde,
e talvez dizes verdade,
tudo perdemos porém
e tudo nos perderá.

XLIV
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.
XLIV
Tudo passa e tudo fica,
e o que nos cabe é passar,
passar fazendo caminhos,
caminhos por sobre o mar.

XLV
Morir… ¿Caer como gota
de mar en el mar inmenso?
¿O ser lo que nunca he sido:
uno, sin sombra y sin sueño,
un solitario que avanza
sin camino y sin espejo?
XLV
Morrer… Cair como gota
do mar no mar gigantesco?
Ou ser o que nunca fui:
alguém, sem sombra e sem sonho,
um solitário que avança,
sem caminho e sem espelho?

XLVI
Anoche soñé que oía
a Dios, gritándome: ¡Alerta!
Luego era Dios quien dormía,
y yo gritaba: ¡Despierta!
XLVI
De noite sonhei que ouvia
Deus, a me gritar: Alerta!
Logo era Deus quem dormia,
e eu gritava: Desperta!

XLVII

Cuatro cosas tiene el hombre
que no sirven en la mar:
ancla, gobernalle y remos,
y miedo de naufragar.
XLVII
Quatro coisas tem o homem
que são inúteis no mar:
âncora, timão e remos,
e medo de naufragar.

XLVIII
Mirando mi calavera
un nuevo Hamlet dirá:
He aquí un lindo fósil de una
careta de carnaval.
XLVIII
Olhando minha caveira
um novo Hamlet dirá:
Eis um lindo fóssil de uma
máscara de carnaval.

LI
Luz del alma, luz divina,
faro, antorcha, estrella, sol…
Un hombre a tientas camina;
lleva a la espalda un farol.
LI
Luz do espírito, luz sagrada,
lanterna, tocha, estrela, sol…
Um homem às cegas na estrada;
leva nas costas um farol.