
Hoje completa um ano da morte de um grande amigo meu e de toda a poesia brasileira: Régis Bonvicino. Desembargador no complexo TJSP, talvez com uma só decisão sua, condenando a agiotagem dos bancos, tenha feito mais justiça do que toda uma caçamba de “ativistas de sofá ” reclamando em seus nichos identitários borbulhantes aqui e d’alhures. Como poeta e crítico, Régis era a memória viva da degradação de nosso campo cultural e de sua paulatina ocupação por imposturas mercadológicas que, da fraude a concursos aos corporativismos amicais mais vergonhosos, se foi implantando como “elite” cosmopolita do país cuja cidade mais rica é cortada por um esgoto e onde vicejam tantos “caboclos querendo ser ingleses”. Celebrado por nomes como Alcir Pécora e João Adolfo Hansen (que também há pouco nos deixou), Régis sofreu profundamente com o suicídio da filha e morreu de modo banal, por um tropeço em uma calçada de Roma. Morreu na cidade eterna para ser lembrado para sempre: matou-o a pedra no meio do caminho. Como editor, ele manteve a Revista Sibila como a mais longeva e internacionalizada publicação da poesia brasileira, convivendo de perto com escritores e críticos norte-americanos (como Charles Bernstein e Marjorie Perloff) ou nomes desgastados pela vulgarização (como Leminski), entre outros tantos que logo passariam a destruir a insurgência das vanguardas em cânone institucional assimilado. Régis acolhia a muitos, e foi responsável pela iniciação de jovens “poetas” que logo lhes viraram as costas no afã de suas novas patotas. Entretanto, ele relevava o clubismo infantil dos neófitos porque conhecia milimetricamente acordos e interesses econômicos (tantas vezes bilionários) que tratam poetas como sujeitos úteis, autores de uma poesia oca, rebarbativa, e, portanto, perfeitamente necessária à inocência estetizada como fachada. Alguns amigos o acusavam de certa amargura. Não procedia a denúncia. Tratava-se de outra coisa: era excesso de lucidez. Régis sempre esteve atento aos subterrâneos do poder literário e às manobras distrativas que frequentemente apresentam-se como generosos atos de beneficência. De ator em ator, posso dizer que ele possuía uma minuciosa “genealogia da mediocridade”, como ética, estética e covardia (ou inépcia) crítica. Aos interessados, deixo aqui um texto do meu blogue analisando um poema de seu penúltimo livro, “Deus devolve o revólver”, obra profundamente preocupada com a degradação urbana e humana ilustrada pela cracolândia de sua São Paulo (link da matéria). Na foto, eu, ele e o Antônio Cícero (que também já nos deixou) em uma noite de sucesso da exposição de sua obra na sede da Oi Futuro do Rio, após um longo debate sobre filosofia da linguagem. Registro aqui minha gratidão e reconhecimento pelo que ele fez por meu trabalho e pelo acervo que construiu para toda a cultura brasileira. Deixa obra solidamente autoral, para estudiosos especialistas e leitores que ainda acreditam que a poesia possa ser algo mais que uma mera “ação entre amigos”, essa endogenia anódina incapaz de autocrítica.