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A música no Afeganistão

O Afeganistão vive hoje uma história de miséria total e corre o risco de perder sua identidade cultural, já que as artes em geral estão completamente banidas da vida da população. Como a vida sem música é impossível, o Taleban sabiamente “criou” uma série de canções que usam melodias tradicionais (a maioria pertencentes ao folclore afegão) que já fazem parte da memória de todos e dessa forma incita a população a se sacrificar pela Jihad.

Os pashtun – maior grupo étnico do país – adoram música, mas depois da guerra civil e principalmente da instalação do Taleban no país, a música é considerada uma arte menor e os músicos são associados à vulgaridade. Em geral, o mundo das artes é visto com preconceito por eles e muitos escondem o interesse por medo de parecerem “não respeitáveis”… Apesar dessa atitude limitativa, a música folclórica ainda se preserva em pequenas comunidades e funciona como elemento unificador dessas tribos. Mas é só. Não há atividades musicais frequentes, e o mercado fonográfico é nulo.

O Taleban decretou em 1996:
1- São proibidas a execução de músicas e as danças em festas de casamento. Nenhum tipo de música é permitido.
2- Donos de estabelecimentos ou motoristas portando fitas cassetes serão presos. É proibido tocar tambores.

Mas por que proibir a música se no Alcorão não há nada preciso que indique isso? Alguns pesquisadores alegam que foi por causa dessa mestiçagem que o Taleban proibiu a música, pois as influências externas eram “malignas”. Mas há quem afirme que a proibição da música no Afeganistão aconteceu por conta do regime Comunista, que desvirtuou totalmente o uso da música, colocando-a no nível da diversão pura e simples para meios ilícitos e imorais (diz que o Partido selecionava adolescentes bonitas para dançarem como prostitutas em festas particulares cujo público era exclusivamente masculino e formado por oficiais do alto escalão). Daí os Taleban passaram a relacionar a música à pornografia.

A palavra, isto é, a poesia, é bem mais respeitada e considerada arte elevada. A forma poética mais conhecida é o Landai – um poema curto de duas frases em geral composto por mulheres. Eles consideram mais importantes os cantores amadores que improvisam sobre uma melodia, como o repentista ou cordelista do Nordeste, do que os músicos profissionais que tentam manter a tradição.

Um pouco sobre a música afegã e sua história

A multiplicidade de etnias forneceu à cultura afegã características muito distintas e uma gama variada de estilos. Resultado de uma mistura entre três grandes regiões: a Ásia Central, o Próximo Oriente e a Índia (com as tradições persas, turcas e mongóis); cada uma delas exerceu uma influência significativa nas várias fases da história afegã. O Afeganistão, cujo nome anterior era Ariyana, era assim chamado há um século e meio pelo Rei Ahmad Shah.

A música afegã é profundamente enraizada na tradição folclórica que, apesar das proibições, ainda consegue sobreviver na memória das pessoas. Há também a música clássica, igualmente fonte de orgulho para os afegãos: foi trazida, pelos comerciantes muçulmanos, do subcontinente indiano, que influenciou fortemente a música clássica local. A música afegã sofreu um forte impacto das trilhas sonoras dos filmes indianos de Bollywoody e da música popular do vizinho Irã, que por sua vez absorveu estilos ocidentais.

A diversidade étnica e linguística da música afegã têm popularizado um número muito grande de música regional e local, como por exemplo: Hazaragi (da região de Hazaragi), Tajiky, Usbaki e Herati.

Da música regional, a mais conhecida é a Herati, por causa de suas melodias animadas. A cidade de Herati – localizada na parte oriental do Afeganistão – teve sue auge e esplendor no século XVIII durante o período dos comerciantes de TIMURID Shan Rukh e do Sutalo Hussein Baigara, quando se transformou na capital do grande império e o centro cultural do mundo de língua persa.

Depois do declínio da música de Herati (por causa da decadência das fortunas locais), pode-se assegurar que a música da cidade passou por várias mudanças durante os séculos seguintes. A mais recente destas mudanças foi a adoção da música de Cabul na década de 30. Mesmo assim, ainda é possível identificar gêneros vocais e instrumentais da música de Herati.

Com a adoção da música de Cabul e de instrumentos como o harmonium, o sistema modal usado em Herati se transformou no de Cabul, com a oitava dividida em 12 intervalos iguais, dando uma configuração mais tonal e semelhante ao sistema ocidental.

A música de Cabul tem forte relação com a música do Norte da Índia. A conexão, que provavelmente existiu por um longo período, foi consolidada em 1860, quando um número grande de músicos da Índia foi levado para Cabul como músicos da corte. Eles mantiveram o conhecimento e a prática da música indiana, e eram capazes de cantar khyal além de formas da música vocal mais livres. Ao mesmo tempo, eles cultivaram e desenvolveram gêneros afegãos da música clássica, como, por exemplo, a forma vocal ghazal e o gênero instrumental chamado naghmeh-e-kashal, que é sempre relacionado ao instrumento de cordas rebab. Essas peças consistem de três seções principais: o shakl – que apresenta as principais características melódicas do modo em tempo livre; o astai – a composição principal, repetida inúmeras vezes com variações rítmicas; e o antar –série de pequenas composições tocadas várias vezes cada vez com uma aceleração gradual até terminar a música.

Em termos gerais, a música afegã pode ser dividida em várias categorias: clássica, chamada pelos afegãos de KLASSIC, e popular, que seria a música de caráter folclórico ou ligada ao pop.

Dentro da música clássica, podem-se dividir duas tendências básicas: em Herat, há forte influência da música iraniana, principalmente no que se refere à entonação; e em Cabul, a orientação é mais indiana. Divide-se a música clássica em três categorias: a da poesia cantada, que inclui os ghazals, gênero mais leve e bastante popular no Irã, na Ásia Central e no Paquistão. O ghazal é como o primo primeiro dos ghazals indianos e paquistaneses, que incluem a poesia sufi de Jalaluddin Rumi, um dos poetas mais populares no Afeganistão. Há, também, as ragas (no mesmo estilo das clássicas ragas indianas, que utilizam as tablas para desenhar os ritmos) e os naghmed, que são composições instrumentais.

Há muitos músicos afegãos que são descendentes de famílias indianas, porque estas foram para Cabul tocar na Corte Real durante muitos séculos. A diferença mais marcante entre o estilo afegão e o indiano no que se refere à performance das ragas é que os afegãos destacam mais o ritmo do que a melodia.

Os afegãos consideram o rebab o instrumento nacional. Há vários virtuosos do rebab. E na música popular, a maioria das canções folclóricas são acompanhadas por instrumentos como o dutar (espécie de alaúde), o tanbur (outro alaúde), o ghichak, e o dhol (tambor), o tamborim (semelhante ao daf iraniano). Mais recentemente eles têm usado violino, clarinete e violão, já mostrando a influência ocidental na preferência musical.

A rádio afegã, nos anos 50, ajudou a formatar a música moderna afegã tocando versões ocidentalizadas das músicas tradicionais. Esse período produziu muitos artistas, como a cantora Mahwash, que canta no estilo tribal dos pashtu. É seguro dizer que muito da música praticada no Afeganistão é derivada das festas de casamentos, de nascimentos e outras ocasiões.

Durante a guerra civil afegã, muitos músicos conhecidos deixaram Cabul para se refugiar em Mashhad (cidade vizinha a Herat, no Irã), no Paquistão, na Índia, Europa e América do Norte.

Segundo algumas fontes, a música patrocinada pelo governo comunista estava vinculada unicamente aos slogans do partido e só esses músicos conseguiam emprego. Quem não se aliasse aos ditames do partido não tinha condições de sobreviver como músico. Os músicos que aceitavam fazer parte disso eram frequentemente vistos e ouvidos nas rádios e TVs locais.

Depois da queda do Comunismo e com o estabelecimento de uma fragmentada mas forte política religiosa, a música foi proibida. Esse fato dificultou a vida dos músicos profissionais, que tinham pouca oportunidade de tocar em ocasiões como casamentos, festas e os concertos do Ramadan. Quando o Taleban tomou Cabul em 1996, todas as formas de música foram proibidas. Cabul ofereceu aos seus residentes muito pouco em termos de entretenimento, mesmo para os soldados do Taleban que achavam a vida no Afeganistão muito difícil.

Agora que a música é proibida* (exceto as canções do Taleban), não há nada em Cabul que possa aliviar as pessoas do sofrimento. Pelo menos a música fazia os afegãos esquecerem sua dor e miséria, mesmo se fosse apenas por alguns momentos.

Dessa forma, os artistas afegãos estão descobrindo outras formas de desenvolver, definir e formatar a música afegã para assegurar a tradição e preservá-la para a geração futura.

Atualmente, a música afegã é toscamente dividida em: tradicional, moderna, pós-moderna. As fronteiras entre as diferentes categorias não são muito claras, mas o que define melhor são as eras em que elas aconteceram: período soviético, intrassoviético e pós-soviético. A influência das músicas dos países vizinhos é forte, mas, desde que a música foi banida pelo Taleban, a maioria da música afegã tem sido criada no exílio. Artistas afegãos têm produzido música nos Estados Unidos e no Canadá. No site Afghanistan Music, há uma enorme lista de gêneros e estilos da música afegã, desde os mais populares, até a música clássica, passando pelo rap, e pela música pashtun. http://afghanistanmusic.com/

P.S.: O Afeganistão, com uma população entre 20 e 25 milhões de habitantes, tem duas línguas oficiais: Dari, da Pérsia antiga, e Pahstu, língua afegã. Dari é uma língua largamente falada em todo o Afeganistão. Na sua forma escrita, assemelha-se à língua iraniana. Pashtu é dividido em dois importantes dialetos e é a língua nacional do país. A maioria dos afegãos são fluentes tanto em Dari como em Pashtun.


* Escrito em 2003, revisado em 2006.