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O suicídio de Maiakóvski

Primeira Edição: Boletim da Oposição Russa, maio de 1930.
HTML de: Fernando A. S. Araújo para o Marxists Internet Archive, julho 2005.

 

Blok [1N] reconhecera enorme talento em Maiakóvski. Pode-se dizer, sem exagero, que havia em Maiakóvski reflexos de gênio. Não era, entretanto, um talento harmonioso. Onde se poderia, aliás, encontrar harmonia artística neste decênio de catástrofes, no limite não cicatrizado de duas épocas? Na obra de Maiakóvsky, os cumes despontam ao lado dos abismos, manifestações de gênio explodem ao lado de estrofes banais, às vezes mesmo de uma vulgaridade gritante.

Maiakóvski quis, sinceramente, ser revolucionário, antes mesmo de ser poeta. Na realidade, ele era acima de tudo um poeta, um artista, que se afastou do velho mundo sem romper com ele. Somente depois de Outubro, procurou e, em certa medida, encontrou um ponto de apoio na Revolução. Até o fim, porém, não se confundiu com ela, porque não se lhe achegou no duro período dos anos de preparação clandestina. Maiakóvski, geralmente, não era só o cantor, mas também a vítima de uma época de crise, que, preparando os elementos de nova cultura com uma força até então desconhecida, passa mais lentamente do que se precisaria para assegurar a evolução harmoniosa de um poeta, de uma geração de poetas, que se entregam à Revolução. Deve-se observar aí a ausência de harmonia interior, que se manifestava no estilo do poeta, a insuficiente disciplina do seu verbo e o excesso de suas imagens: a quente lava do patético e a incapacidade de ligar-se à época, à classe, o gracejo de mau gosto, pelo qual procura – ao que parece – proteger-se contra todo golpe do mundo exterior. Supunha-se, às vezes, que se tratava de hipocrisia artística e também psicológica. Não! As cartas escritas, antes de sua morte, repetem o mesmo som: que significa a fórmula lapidar “o incidente está encerrado” pela qual o poeta risca o último traço?

O lirismo e a ironia serviam ao romântico retardatário Henri Heine como o patético e a vulgaridade servem ao futurista retardatário Maiakóvski: a vulgaridade opõe-se ao patético, da mesma forma que o lirismo à ironia, para defendê-lo.

O aviso oficial, colocado pelo Secretariado [1*] numa linguagem de protocolo jurídico, apressa-se a informar que esse suicídio “não tem nenhuma relação com as atividades sociais e literárias do poeta”. O que vale dizer que a morte voluntária de Maiakóvski não se relaciona com a sua vida ou, ainda, que a sua vida nada tinha em comum com a sua criação revolucionária e poética. É transformar a sua morte num fato fortuito. Isso não é verdadeiro nem necessário nem… inteligente! “A barca do amor partiu-se na vida corrente”, escreveu Maiakovsky, nos seus últimos versos. Em outras palavras, “suas atividades sociais e literárias” cessaram de elevá-lo acima das confusões da vida cotidiana, para colocá-lo ao abrigo de golpes insuportáveis que o atingiam. Como escrever então “não tem nenhuma relação”?

A doutrina oficial, que hoje encontramos sobre literatura proletária, no campo literário, é a mesma que existe no terreno econômico: baseia-se numa total incompreensão dos ritmos e dos prazos da maturação cultural. A luta pela cultura proletária – alguma coisa como a coletivização total de todas as conquistas da humanidade no quadro do plano quinquenal – apresentava, nos primórdios da Revolução de Outubro, um caráter de idealismo utópico. E eis precisamente por que Lênin a ela se opôs, da mesma forma que o autor destas linhas. Ela, porém, se tornou nestes últimos anos simplesmente um sistema de comando burocrático – e de destruição da arte. Proclamaram-se clássicos da literatura pseudoproletária os fracassos da literatura burguesa do gênero de Serafimovitch, Gladkov [2N] & Cia. Batizou-se uma flexível nulidade do tipo de Averbach [3N] como o Belinsky [4N]… da literatura proletária (!). A alta direção do beletrismo encontra-se nas mãos de Molotov, negação de todo espírito criador da natureza humana, que se fez artista (o adjunto de Molotov é Gussev [5N]) em vários campos, exceto na arte. Essa escolha dá toda a imagem da degenerescência burocrática das esferas oficiais da Revolução. Molotov e Gussev elevaram à categoria de beletrismo uma literatura desfigurada, pornográfica, de cortesãos revolucionários, obra de um coletivo anônimo.

Os melhores representantes da juventude proletária, cuja vocação é preparar as bases de nova literatura e de nova cultura, caíram sob as ordens de pessoas que converteram em critério da realidade a sua própria falta de cultura.

Sim, Maiakóvski é o mais viril e o mais corajoso de todos os que, pertencendo à última geração da velha literatura russa e ainda por ela não reconhecidos, procuraram criar laços com a Revolução. Sim, ele desenvolveu laços infinitamente mais complexos que todos os outros escritores. Um dilaceramento profundo nele permanecia. Às contradições, que a Revolução comporta, sempre mais penosa para arte, na busca de formas acabadas, somou-se, nos últimos anos, o sentimento do declínio a que o conduziram esses burocratas. Maiakóvski, pronto para servir à sua época, pelos mais modestos trabalhos quotidianos, não podia aceitar uma rotina pseudorrevolucionária. Era incapaz de ter plena consciência disso, no plano teórico, e, por conseguinte, de encontrar o caminho para superá-la. Sobre si mesmo, disse que “não está à venda”. Por muito tempo e vigorosamente, ele se recusou a entrar no kolkhoz administrativo da pretensa literatura proletária de Averbach. Tentou fundar, sob a bandeira do LEF,[6N] a ordem dos ardentes cruzados da revolução proletária para servir à causa com toda a consciência e não sob ameaças. O LEF, naturalmente, não tinha força para impor o seu ritmo aos 150 milhões: a dinâmica dos fluxos e refluxos da Revolução era muito pesada, muito profunda. No mês de janeiro deste ano, Maiakóvski, vencido pela lógica da situação, fez grande esforço para aderir, finalmente, à Associação Soviética dos Poetas Operários (VAPP), dois ou três meses antes de matar-se. Essa adesão não lhe trouxe nada. Retirou-lhe, pelo contrário, alguma coisa. Quando ele liquidou suas contas, tanto no plano pessoal quanto no político, e movimentou seu barco, os representantes da literatura burocrática, aqueles que estão à venda, exclamaram: “inconcebível, incompreensível”. Demonstravam, assim, que não compreendiam tanto o grande poeta Maiakóvski como as contradições da época.

A Associação dos Poetas Operários (VAPP), criada a partir dos pogroms contra núcleos literários autenticamente revolucionários e vivos, e submetida à sujeição burocrática, caiu ideologicamente no abandono e aparentemente não conseguiu unidade moral: na partida do maior poeta da Rússia soviética, só houve como resposta o embaraço oficial: isso “não tem nenhuma relação…”  É pouco, realmente pouco, para quem quis edificar nova cultura dentro do mais curto prazo.

Maiakóvski não se tornou nem podia tornar-se o fundador da literatura proletária pela mesma razão que não se pode edificar o socialismo num só país.[2*] Nos combates do período de transição, ele era o mais corajoso combatente do verbo, e tornou-se um dos mais indiscutíveis precursores da literatura que se dará à nova sociedade.

 

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Notas:

[1N]  Alexander Blok (Александр Александрович Блок) (16 de novembro de 1880 – 7 de agosto de 1921): foi provavelmente o mais talentoso poeta lírico que a Rússia produziu após Alexander Pushkin. Trótski, em sua obra Literatura e Revolução, afirmou que: “Na verdade, Blok não é um dos nossos, mas ele caminhou em nossa direção. E, ao fazer isso, ele falhou. Mas, o resultado desse seu impulso produziu a obra mais significativa de nossa época. Seu poema ‘Os Doze’ permanecerá para sempre”.
[1*] Trata-se do Secretário-Geral do Partido, isto é, de Stálin.
[2*] Trótski, opondo-se a Stálin, sustentava que, sendo o socialismo uma ordem econômica internacional, o destino da República Soviética dependeria do curso da revolução na Europa, nos países mais adiantados. Essa ideia dominava os bolcheviques até o início da década de 20, a enfermidade e a morte de Lênin. O próprio Lênin (A revolução proletária e o renegado Kautski) acentuava que a Rússia não podia fazer mais do que fez: o seu desenvolvimento ulterior dependeria do curso da revolução mundial. Trótski apresentaria a degenerescência burocrática da União Soviética – que se exprimia no stalinismo – com a comprovação do seu argumento. A revolução, na Rússia, apenas plantava os alicerces para a construção do socialismo. O stalinismo resulta, precisamente, do cerco imperialista, que isolava o primeiro Estado operário, num país atrasado.
[2N] Gladkov, Feodor Vasilyevich (1883-1958): autor russo.
[3N] Leopold Averbach (1903-193?): crítico literário, foi uma figura destacada da Associação Russa de Escritores Proletários (AREP) até 1932, quando se denunciou o averbachismo e a AREP foi substituída pela União de Escritores Soviéticos. Ironicamente, foi vítima dos expurgos, acusado de “trotskista”.
[4N ] Belinsky, Vissarion (1811-48): crítico literário russo.
[5N] Gussev, S.I. (1874-1933): militante a partir de 1899, bolchevique e revolucionário profissional. Secretário do Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado e com responsabilidades políticas no Exército Vermelho.
[6N] LEF: abreviatura de Levy Front Iskustv [Frente Esquerdista das Artes], título de uma revista futurista que apareceu em Petrogrado em 1923 e da tendência artística que se reuniu em torno dela. Foi dirigida de 1923 a 1925 por Maiakóvski.