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Um livro de Rubem Braga

Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas…

Rubem Braga

 

O que mais me desagrada, falando como consumidor, é a propaganda enganosa. A senhora leitora me desculpe pelo tom de reclamação que invade logo a primeira frase deste texto. Encare essas palavras como um desabafo de um homem novo, porém cansado da rotina irremediável de comprar gato por lebre. Explico-me. Mas, antes, peço novas desculpas, desta vez, por certas propensões de estilo do velho Braga que tomaram de engano esta resenha. Explico-me a respeito disso também.

Em geral pagamos mais caro para ter desconto, mas também me ocorre com frequencia comprar cremes dentais que prometem branquear os dentes em duas semanas e não cumprem, protetores solares que saem na água ou congelados que deveriam conter carne em vez de uma gosma cinza inclassificável. Tomamos neoliberais por marxistas, compramos jornais em busca de informação e o lanche da foto ilustrativa nunca é o que está em nosso prato. Esse desabafo tem uma origem: as 50 crônicas escolhidas de Rubem Braga, edição pocket organizada por Mário Feijó e prefaciada por André Seffrin.

Saiba que sou, acima de tudo, um leitor. E, como leitor, estou a ponto de desistir dos apelos a que as editoras se submetem para vender um livro. Não acho que o mercado editorial seja uma maravilha, mas estou convicto de que ninguém gosta de ser enganado, ainda mais quando isso envolve tempo (da leitura) e dinheiro. Dizem que tenho gênio italiano, coração mole. Discordo, mas confesso minha ingenuidade de sempre acreditar no que leio quando olho para a quarta capa de um livro. Por isso, achei, desde o título, as 50 crônicas escolhidas uma edição confiável. Desconfiaria se o livro se chamasse 50 melhores crônicas, por exemplo.

A respeito da segunda explicação que devo, sobre as propensões estilísticas do velho Braga, posso apenas afirmar que a escrita desse nosso grande cronista contamina. Uma das provas da perenidade de seu texto, apesar de estarmos falando sobre crônicas, é que, após a leitura, saímos falando como Rubem Braga, pensando como ele, quase encarnando esse escritor, que nasceu em 1913, em Cachoeiro do Itapemirim, e morreu no fim do século passado, em 1990, mais precisamente. Talvez essa aderência do estilo braguino à nossa memória seja também a responsável pelo número interminável de imitadores que o escritor possui e que continuam a surgir ao longo dos anos.

A qualidade de suas crônicas (cerca de 15 mil publicadas), segundo sua fortuna crítica, é a mescla de um estilo próprio com uma carga densa de lirismo. Roda pela internet um texto de Carlos Drummond de Andrade, “Rubem Braga, professor de lucidez”, no qual, além desse lirismo, são apontadas outras características que, juntas, definem a escrita do velho Braga:

Impossível usar o nome de Braga dando a sensação da prosa de Braga. Ela é patenteada. Seus elementos – sensualidade, ternura, anarquismo, tédio, poesia, humour –, soltos, são manipuláveis por qualquer um. Reunidos, formam um composto especificamente braguino, que até dispensa assinatura. E como ele tem imitadores! Imitam, apenas. [1]

O lirismo anarquista, que não chega a ser comparável ao de Alberto Caeiro, porque pensa o mundo, é um olhar de criança para o cotidiano inabitável do homem de seu tempo, com suas guerras e com a velocidade das transformações daquele século. A isso, acrescento a autenticidade, que no texto atribuído a Drummond chama-se lucidez:

Como espião da vida parecendo chateado, mas interessadíssimo – anota os maravilhosos fenômenos da primavera e do verão, que passam despercebidos ao comum, e extrai deles o máximo proveito existencial. [2]

E é justamente essa autenticidade sorrateira que permite ao escritor, em uma de suas memoráveis crônicas, dar um exemplo de discórdia da opinião geral sobre ele mesmo. Refiro-me a “O crime (de plágio) perfeito”, na qual conta que muitos leitores – o dono de um jornal, inclusive – devem ter tomado gato por lebre sem sequer terem notado.

Para mergulharmos em uma das fontes desse lirismo característico, a sensibilidade, “Partilha”, de 1951, e “Viúva na praia”, de 1958, são exemplares. Na primeira, o autor dispensa o hábito de produzir-se um final moralista para a crônica, deixando-a apenas na imagem de uma partilha de herança, e, ao leitor, as conclusões e a impressão viva daquela imagem. Esse procedimento, comum em outros gêneros, como o conto, instaura um novo componente semântico no texto, que foge aos padrões do gênero. Se, nesse primeiro caso, a sensibilidade é aguçada pela imagem, no segundo, é possível retomar o já citado lirismo anarquista bucólico em figuras poéticas de personificação e inversão como: “O sol ama a viúva. Eu vejo a viúva”.

Ainda assim – e o fato de Braga ter sido, além de cronista e preso, correspondente de guerra, parece ter contribuído – seu lirismo não está nem perto de qualquer apatia ou alienação política. Crônicas como “O compadre pobre”, de 1952, que coloca política em uma caixa de ovos, “Lembranças”, de 1953, e “Nós, imperadores sem baleias”, de 1954, são formas de tratar assuntos sérios e, por vezes, frustrantes com riso e trivialidade. “Aula de inglês”, que alia a sensualidade e a ironia de um típico canalha à descrição de uma aula básica de inglês, não parece, mas é uma boa amostra das relações entre dominado e dominante na política internacional.

A convivência com os próprios escritos, com as histórias que os sedimentam e com alguns conceitos de poesia produzem clássicos da condensação, como é o caso de “Conversa de compra de passarinho”, de 1951, e de “Negócio de menino”, de 1964. Colocadas lado a lado, a primeira dessas crônicas se torna a síntese da outra, retendo apenas o essencial da expressão de uma autenticidade banhada em inocência. Condensare (Ezra Pound dixit) por um viés bem pouco usual. Deve ter sido essa ingenuidade quase criminosa de um Holden Caulfield que fez Rubem Braga, ainda na infância, chamar de burro um professor e mudar-se de escola em seguida, conforme conta o imaginário popular do escritor.

Outra forma de desmontar o gênero está em se apropriar da periodicidade inerente a ele para aproximá-lo do conto sem descaracterizá-lo em sua simplicidade e aparente despretensão. Exemplo disso são as histórias em série, das quais as 50 crônicas escolhidasreproduzem duas: o caso de infância da família dos Teixeiras e a famigerada aventura do encontro com Ingrid Bergman em Casablanca. Esta contém ainda duas particularidades: uma bem-humorada reflexão sobre as “regras” do gênero e o devaneio que impossibilita a conclusão do assunto e rende um final inesperado.

O estilo de Rubem Braga equilibra o dramático noticiário da imprensa escrita brasileira com uma visão otimista quase Vinicius, quase bossa nova (a impressão é de que ele sempre fala com mulheres em suas crônicas). É um contrapeso à tragédia cotidiana. Da mesma maneira, 50 crônicas escolhidas é um contrapeso à maioria da produção editorial brasileira. A seleção dos textos remete às 200 crônicas escolhidaspor Fernando Sabino com as vantagens e desvantagens que o formato pocket proporciona. E com isso, sem pretender ser um panorama de qualquer coisa, sem juízos explícitos de valor, sem querer retratar o homem moderno ou contemporâneo ou o que quer que seja com crônicas, o livro funciona.

Com “A minha glória literária”, de 1960, o escritor põe a nu, apesar do tom infantil e frívolo, o circo do campo literário, o julgamento “impressionista” – entenda, essa opinião que coloco sobre o papel não deixa de ser trivial e “impressionista”, mas somente assim o faço por tratar-se de uma resenha, não de um ensaio ou um artigo. Além do mais, acho um pecado que se mergulhe a crônica na análise; um romance ou uns poemas aceitariam uma crítica imanente, mas eu não espetaria a crônica com agulhas e eletrodos para ver como esse gênero tão próximo de nós, leitores, funciona por dentro.

Um porém dispensável: faltam orelhas. Mas para que precisaria de orelhas um livro como esse? Porque orelhas trazem informações interessantes sobre o livro e/ou o autor? Estou cansado das informações sempre elogiosas e quase sempre bem pouco instrutivas sobre o autor e sua obra. Ainda assim, especialmente em uma versão pocket, gosto de orelhas, acho-as úteis. Esse tipo de livro não serve para ficar na cabeceira, mas para ser carregado para todos os cantos, ser lido no metrô, na fila do banco etc. E eu não costumo ter marcadores de páginas nos bolsos enquanto me movimento pela rua. Por isso gosto de orelhas em edições pocket, para marcar páginas.

Eu disse que essa rotina de comprar gato por lebre é irremediável, estou enganado. Apontei muitos pontos, não aportei em nenhum, não matizei nenhum elemento da escritura braguina. Não era a intenção. Meu interesse foi apenas o de dar boas-vindas à publicação de um livro honesto com a certeza de que outros virão. “Canta tua última canção, Copacabana!”


Notas

[1] Carlos Drummond de Andrade, “Rubem Braga: professor de lucidez”. O texto completo pode ser lido em: http://fredb.sites.uol.com.br/braga.html.
[2] Ibidem.


 Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.