A MODA

 

Entrevista de Ronaldo Fraga a Régis Bonvicino

 

Régis Bonvicino – Eu acho que essa coisa da moda hoje tem um lado muito perverso, da indústria, mas há pessoas como o Ronaldo que estão reinventando a moda. Ele não gosta de ouvir isso, mas eu falo! A questão da roupa, do designer, do teatro, do balé, do corpo, da cabeça, acaba sendo quase uma obra de arte móbile, acaba indo mais para o lado da performance que do desfile, porque eu nem gosto dessa palavra, desfile. Isso me lembra Clodovil. O Dener era um cara bacana, você gosta das roupas dele?

Ronaldo Fraga
– Gosto. Eu concordo com essa colocação do que é essa moda aí, tá? Do papel da moda, hoje. Agora, eu até diria um pouco mais, que eu não vejo outro instrumento de comunicação eficiente e tão democrático, pasmem, como a moda. Onde é que está essa parte democrática da moda? Quando se fala em moda as pessoas imaginam as roupas importadas, a Daslu, o desfile de Paris, não é isso… Existe a moda como um instrumento de manifestação, eu estou discutindo moda, não roupa, porque as duas vão juntas assim, então a coisa meio que se confunde, a roupa é instrumento da moda, tá? Agora, quando você fala, quando ficamos discorrendo aqui sobre a Kate Moss, sobre a capa da revista Sibila (no caso, a de número 11), a última coisa em que nós falamos foi de roupa e, no entanto, nós falamos de moda o tempo todo. Então quando você pensa nessa moda como um instrumento de comunicação, especialmente no Brasil, o Brasil tem hoje movimento de moda que eu não vejo nem em Paris, o que esse evento mobiliza, o que é um São Paulo Fashion Week, não existe outra semana de moda que mobilize isso, olha o tamanho do país onde os desfiles imediatamente entram na casa das pessoas, isso tem me surpreendido muito. Pela televisão, pelos jornais, pelo interesse que o brasileiro tem pela moda. Então a moda desperta a atenção lá no morro… Ela desperta a atenção lá em Caruaru, onde as meninas amam moda porque querem ser modelo, querem ser Gisele Bündchen, ela tem despertado a atenção no que se refere às discussões em torno de arte, design, isso é recente. Nessa relação do Brasil com a moda, ela é imposta pela novela, ela vem junto com o movimento musical, então, por exemplo, imagina o que é o movimento funk sem a roupa, sem a moda do funk.

Kate Moss por Susan Bee

RB – Hip-hop.

RF – O funk não existe sem a moda, não é? Então isso aí eu acho fascinante. Foi por essa via que a moda me pegou. Eu sou de uma época em que se tinha uma manifestação, eu não queria nem saber de que, eu estava na rua… A manifestação contra a derrubada do cine Metrópolis, em Belo Horizonte, por exemplo.

RB – 1986, você estava na transição da ditadura…

RF
– E para mim foi uma coisa desconcertante sob muitos aspectos, ter entrado também nessa fase, ter me aproximado da discussão de moda, do olhar de moda, porque eu falava assim, mas isso não tem nada a ver com nada do que eu goste, entendeu? Por que eu acho moda interessante? Teve uma mesa-redonda de discussão para alunos de moda lá no Memorial da América Latina e isso de repente me veio à memória, quando eu era criança, do ponto do meu ônibus, onde eu pegava o ônibus com a minha família para ir para casa, em um bairro muito próximo do centro de Belo Horizonte, existia uma loja de tecidos e era aquela época antes do “boom” da confecção, como vocês sabem muito bem, as pessoas compravam um tecido para um figurinista desenhar, né? Então era aquela loja gigantesca, com aquelas instalações de tecidos, os tecidos naquela coisa linda de madeira redonda, com o tecido assim, com o desenho preso e eu, criança, ficava olhando aquilo ali, eu achava aquilo muito lindo, gente, com cinco ou seis anos… Então a roupa nasce é de um desenho! Mas nunca tinha colocado isso para fora, então, nessa de que a roupa nasce de um desenho, eu fui crescendo e essa loja continuava lá… Eu sempre desenhei, nunca fiz outra coisa… Tem curso tal gratuito para ensinar a desenhar parafuso, eu estava lá aprendendo a desenhar parafuso, e foi aí que uma vizinha apareceu com uns desenhos de moda e eu falei “onde você aprendeu a fazer isso?”. “Ah, é um curso que tem no SENAC e é de graça, vai lá fazer esse curso.” E eu fui fazer o tal do curso de desenho. Terminado o curso, na semana seguinte arrumaram um emprego para mim, as pessoas procuravam no SENAC figurinistas, pessoas que soubessem desenhar, e esse emprego era em uma loja de tecidos. Então, beleza, fui trabalhar em uma loja de tecidos… Fui aprender a desenhar roupas. Eu cheguei nessa loja, sabia desenhar, mas não sabia de roupas, eu não tinha roupas na minha memória, eu não tive mãe costureira. De repente tinha uma fila de 20 mulheres com tecidos esperando para receber o desenho… E eu ficava tentando lembrar a roupa de alguém, lembrar a roupa da minha irmã… E não vinha roupa nenhuma, entendeu? Foi um pânico muito grande, aí, o que eu fazia? Na hora do almoço eu saía, andava no centro olhando as pessoas, vendo as pessoas para poder registrar essas roupas, para desenhar essas roupas depois. Eu comecei a olhar nas vitrines do centro, lojas do centrão, mas depois eu pensei “não, não tenho que olhar as lojas do centro, tenho que olhar a roupa das pessoas nas ruas”. Porque aparece de tudo quanto é gente lá. Era uma loja meio popular. E aparecia gorda, magra, casamento, enterro, batismo, roupa para tudo, e essa foi a minha grande escola, sabe?

RB – Observação empírica do centro de Belo Horizonte…

RF
– Hoje você tem três mulheres: uma que comprou essa roupa da Louis Vuitton original em Paris, ao lado de uma que comprou a cópia dessa roupa na Zara, e a outra que comprou essa mesma roupa no Bom Retiro, na mesma época, né? Isso veio com a democratização da informação, isso é imediato, é aí que as tendências, essas tendências como a gente conhece, elas meio que perderam o sentido. Eu acho que a moda está em um momento… Esse formato como a gente conhece, para mim, ele já está vencido… O desfile, a modelo na passarela, com todo mundo sentado ali. Vamos lembrar o desfile de moda do final dos anos 1960, quando as modelos desfilavam com um numerozinho e as pessoas anotando ali as peças que elas queriam… Se falassem naquela época que aquilo estava com os dias contados, que no futuro aquilo não existiria, as pessoas falariam que esse cara estava louco! Hoje a passarela reflete uma forma de mostrar a roupa, ela reflete, ou pelo menos ela teria que refletir a diversidade que a gente está vivendo. Uma semana de moda existe para lançar roupas várias, com caras várias, para grupos vários, não é? Esta estação, por exemplo, instituiu-se que lá fora a tendência voltou para um novo chic, um olhar para o futuro, não sei o quê, então assim virou, saiu de moda, como se tivesse saído de moda a história da performance e da cenografia. Então, preste atenção nos últimos desfiles do SPFW: é tudo no chão, sem cenário, tudo com a mesma cara, tudo com a mesma maquiagem, tanto é que você olha e tem dificuldade de saber qual marca assina aquilo, né? Mas eu acho isso tudo muito chato…

RB
– Agora, por exemplo, um dos que contam aqui no Brasil é o Ronaldo, fora daqui é o Chalayan. Ele acabou de fazer aquela performance luminosa em Paris. Não sei se você gosta dele…

RF – Gosto, gosto muito…

RB
– A moda mais interessante, mais inventiva, vem da periferia do mundo. O Chalayan é de Chipre, é um cipriota que está em Londres, entendeu? Ele vem com essa vivência do Ronaldo, que ele deve ter aprendido lá na ilha. Não vem dessa coisa decidida na cúpula… O que você está contando é que alguns executivos devem se reunir e decidir na cúpula.

RF – É mais ou menos assim… Quando nós começamos a usar o preto de outra forma, no início dos anos 1980, e que na moda a gente costuma dizer que foi quando os japoneses chegaram e derramaram o vidro de nanquim sobre a liberdade de criar dos anos 1970… Quando você pensa em moda nos anos 1970, foi a primeira vez que se falou “faça você mesmo a sua moda” e, no entanto, entrou o preto e acabou com tudo e colocaram tudo de novo dentro de caixinhas, e volta e meia tentam pegar aquele espírito dos anos 1970 e não conseguem. Eu acho que a gente está entrando em uma época em que vai acontecer a mesma coisa; é como se, com os anos 1990, com o movimento de rua, nos fosse dada a liberdade de relacionar com roupa, com moda, com tudo, e o mercado está cansado de tanta liberdade… Os jornalistas estão cansados de tanta liberdade… Tem uma pessoa que eu gosto de citar, é o belga Martin Margiela. O que o Margiela faz? O Margiela estourou em Paris no início dos anos 1990, quando houve um “boom” dos belgas, e é uma escola que eu acho fantástica, e tanto o Margiela como o Chalayan estão acima do feio e do bonito, eu acho que esse é o desafio da moda do nosso tempo. Não interessa se é feio ou se é bonito…

Roupa de Margiela, um dos designers preferidos de Fraga

RB – Isso é ótimo, “estão acima do feio e do bonito”, eles estão na invenção…

RF – É isso… É o intangível. Quando você cai no universo do intangível, isso é a moda, isso muda uma época, isso é registro de uma época, então não me interessa daqui a 20 anos, vamos congelar essa foto, qual o comprimento que se está usando nessa estação, sabe, nós vamos nos olhar daqui a 20, 30 anos, que cor que se estava usando, o que estava na moda, isso não faz sentido, na transposição da história, faz sentido, sim, todo o universo que veio com a roupa, né? Ou que usou a roupa como suporte, a música, o comportamento, o que se lia, o que se pensava, né? O Margiela estourou em Paris e ficou muito assustado, e, então, dali em diante, ele não se deixou fotografar. É raríssima uma foto do Margiela e ele só abre lojas em periferias de cidades, em bairros de imigrantes. Eu visitei a loja dele no ano passado em Bruxelas, é uma lojinha pequenina de esquina, com feira de rua, em um bairro de paquistaneses, se não me engano, e a loja é toda pintada de branco, ele pinta de branco e deixa lápis e canetas espalhados aos montes nos cantos. Quando você chega ao final da coleção, a loja está toda escrita, entra a coleção nova e ele então pinta tudo de branco de novo e as pessoas começam a escrever novamente, quer dizer, é a sugestão de que a roupa é uma folha em branco, né? A roupa é uma escrita, ela tem que funcionar como uma escrita pessoal de cada um, né? A Constanza que fala, “eu gosto dele, mas hoje eu não tenho mais saúde nem idade para acompanhar o desfile do Margiela, o último desfile que eu fui dele, eu recebi o convite, eu, minha mãe, duas senhorinhas, aí eu olhei o convite e vi que era na avenida tal lá de Paris, quando nós chegamos, o convite da minha mãe era em um número e o meu era lá em outro número, no final da rua, e os dois desfiles iam acontecer no mesmo momento, simultaneamente. O que se viu foram convidados enlouquecidos, correndo, procurando o número que era o seu galpão”.

RB – É a moda enquanto ato crítico…

RF – E o que ele faz, essa loucura toda das pessoas querendo ir ao desfile, ele manda o convite, não, você recebe um comunicado para confirmar se você vai realmente poder ir ao desfile. “Ah, eu vou poder ir ao desfile.” “Então retire o convite às 8 horas da noite no showroom” – duas horas no máximo antes do desfile. Então as pessoas vão lá, retiram, aí elas ficam sabendo onde vai ser o desfile. Teve um desfile dele, Margiela, que as pessoas foram para o subúrbio de Paris e, chegando lá, era um asilo, era um asilo maravilhoso, que, no domingo, ele passando por lá, viu e falou “ah, eu vou visitar esse asilo”; desceu e foi à enfermaria. Era um dia de visitas e, dos 100 leitos, parece que dois leitos estavam recebendo alguém. E ele pensou “eu tenho gente para trazer para visitar essa turma aqui…”. E quando fez esse desfile, dentro dessa enfermaria, os editores de moda todos ficaram sentados nas camas com os velhinhos…

RB – Aí tem a ideia do grupo Fluxus, dos anos 1960, da performance, do ato crítico, do protesto. É por isso que a passarela enquanto instrumento criativo está acabando.

RF – Para que existe o desfile? Eu costumo dizer que a passarela é o último momento em que a roupa pertence ao estilista, definitivamente. Depois que terminou aquele momento do desfile, ele não é mais dono da coleção, ele jogou para o ar… Eu fico extremamente constrangido quando encontro alguém usando uma roupa minha. Tenho vontade de me esconder e ficar só escondido, olhando. Isso é o ponto do estilista. Existe outro ponto: por que as pessoas gostam tanto de desfile? Você pode ir aos lugares mais absurdos, qualquer desfile mobiliza a cidade. As pessoas precisam do inalcançável. E uma coisa que é muito curiosa também é que nos anos 1980 o tempo de um desfile era de uma hora, o tempo médio, um desfile durava uma hora. Nos anos 1990, o tempo ideal para um desfile era de 25 minutos, a gente falava “nossa, mas é pouquíssimo 25 minutos”… No final da década de 1990 e no início desta década, o tempo certo é de 15 minutos… Hoje o tempo certo para um desfile, um desfile, para ser perfeito, tem 8 minutos… É o ritmo do tempo, do nosso tempo. O desfile é para se criar uma imagem, levá-la para um universo que não é o universo dela, provocar desejo e, com esse desejo, o consumo.

RB – A moda enquanto produto.

RF – Aí não é a roupa para ser consumida, é a moda! Porque aí a gente quer tudo, a gente quer a roupa, a gente quer aquele cabelo molhado, aquele gel para deixar o cabelo molhado daquele jeito, as pessoas querem o batom verde, mesmo que seja do Paraguai, é verde, e passa, e a boca fica rosa-shocking…

RB – Mudando um pouco. Guerra Fria… Nos anos 1980, você vivia a Guerra Fria… e, depois da queda do Muro de Berlim, em uma nova ordem…

RF – É, mas no final dos anos 1980, você cai em um mundo globalizado, onde ficamos todos perplexos e o mundo todo passou a ter a mesma cara; o mundo todo fala a mesma língua e, por mais que as músicas sejam diferentes, elas mudam com a mesma rapidez no mundo todo. Não existe mais a última moda em Londres. A última moda em Londres é a última moda em qualquer lugar. Aí isso começou a ficar muito chato, então começamos a olhar para pequenos grupos, grupos que nunca foram referência de moda, grupos que nunca tiveram nada a ver com moda. Há uma temporada em que a grande referência são os mendigos do mundo, outra grande referência são músicas da periferia, a gente está falando do rap. Depois dos clubbers, depois dos nerds, depois de não sei o quê… Não se justificam mais marcas com nome de coisas que você não sabia o significado, se nos anos 1980 a onda era Ellus, era Zoomp, era Fórum, nos anos 1990 as pessoas querem saber quem está por trás, quem está assinando, quem é o criador, quem é o estilista, quem é o designer, e isso não é só na moda não, entendeu?
RF – E principalmente vamos lembrar que você é um produto, eu sou um produto, entendeu, que eu estou sendo consumido o tempo todo, por isso que eu morro de medo de coleções bem-sucedidas.

RB – Mas que ótimo você dizer isso!

RF – Então, quando vem uma coleção bem-sucedida, pelo amor de Deus, eu quero ir para a outra esquina, minha equipe de vendas, agora não, mas eu já tive uma equipe de vendas que disse “você tá louco?, se deu certo aquilo por que você não continua com aquele tema?”, falando daquela história ali, compreendeu? Não! Eu acho que aí pega e vamos para outro lugar, é por isso que com desenvoltura dá para sair do Guimarães Rosa e falar “agora vamos para a China”.

RB – Por que você foi buscar elementos orientais para a coleção de inverno 2007?

RF – Eu estive na China em 2004-2005 e foi a primeira vez que eu fui para o outro lado do mundo e vivi e vi coisas que me marcaram muito, e é muito engraçado porque, quando eu voltei, os amigos falaram “a próxima coleção é China?”. E de certa forma foi aquela coleção do Descosturando Nilza, das costureiras na passarela – eram 40 costureiras. Dona Nilza é uma costureira que está comigo desde o início, e eu tinha muita vontade de prestar uma homenagem a ela e, abrindo um parêntese aqui, tudo pode se tornar uma coleção de moda, acho que o cachorro do vizinho pode virar uma coleção de moda. Tudo. Mas eu tento entender o que justifica você fazer uma coleção de moda inspirado no cachorro do vizinho. Para eu falar disso eu tenho que contar uma experiência que eu vivi na China, naquela coisa do superlativo, do muito tudo, e a chinesa que estava me recebendo me falou “vou levar você em uma confecção menor, que é uma estrutura de ateliê”. Quando eu cheguei era um prédio de quatro ou cinco andares, e a cada andar você tinha 150 costureiras. Todas em uma jornada de trabalho de 10 horas, sentadas em cadeira de madeira, e todas com penico debaixo da cadeira. Fiquei muito horrorizado com aquilo e a pessoa falava assim “Ronaldo, imagine se um terço ou um quinto dessas pessoas resolvesse ir ao banheiro ao mesmo tempo”. Como nas sobrelojas do Bom Retiro. Em um espaço de 20 metros quadrados você vai ter boliviano, coreano, chinês, tudo embalado a vácuo, com criança em bacia, entendeu? Costurando, costurando, costurando. Não é uma coisa absurda? Agora eu quero fazer coleções falando disso tudo. A primeira foi dessas costureiras, falava da Dona Nilza, minha costureira que começou a sua história como costureira de família. Essa pessoa chegava, ficava o dia todo e fazia roupa para o bebê, fazia a roupa do enterro, do casamento, e entrava nas histórias familiares. As costureiras às vezes morriam dentro dessas casas, elas viviam toda uma vida costurando só para aquela família. Então, em um momento em que a gente fala tanto de história da moda brasileira – porque às vezes eu leio coisas absurdas que nos levam a crer que a moda brasileira começou com a Gisele Bündchen, com o SPFW, sabe? –,- não se fala das sacoleiras, não se fala da costureira de família. E isso me despertou…

RB – Todas as cidades do interior têm ainda hoje a costureira?

RF – Tinham, porque a China chegou em tudo. A roupa pronta está em tudo.

RB – Até a gravata de seda italiana é made in China.

RF – A 20 reais o quilo, né? Em uma ocasião eu estava em um aeroporto em Belo Horizonte, vindo para cá, aí chegou um senhor, um executivo de uns 60 e poucos anos, e falou “olha aqui, eu vejo você sempre aqui, você não me conhece, mas agora eu vi um trabalho seu e eu quero me manifestar. Não entendo nada de moda, minhas filhas que gostam, minha mulher, mas eu estava sozinho na sala zapeando e caí no seu desfile de moda das costureiras. E terminou o desfile eu estava chorando, porque me lembrei da minha costureira de família, que eu cresci nos pés dela, balançando o pedal da máquina, e todas as mulheres da casa provando roupas, e um dia eu tive notícia, já depois de crescido, que ela teve uma doença e teve que amputar uma perna. Aí o filho deu uma máquina de motor elétrico e ela se recusava a largar a velha máquina de pedal. Depois de um tempo ela teve que amputar a outra perna. Mas não era sobre as pernas dela que eu queria falar; eu queria dizer que, quando você descosturou a sua Nilza, eu pensei na minha e não sei onde ela está hoje. Então tem esse lugar dessa memória, que eu nunca associei com a roupa, eu nunca associei com a moda, e depois eu chamei minha filha e minha mulher e falei olha, eu gostaria que você usasse as roupas desse estilista’”.

RB – E como foi essa coleção da China?

RF – Nesse universo do muito, do superlativo, do produzir, do não entender a língua, nós entendemos os símbolos, nós entendemos os signos. Na China eu fiz fotos lindas, aliás, de placa de caminhão, de marca, do barro, de marca de barro no asfalto, porque toda essa memória iconográfica é diferente da nossa, então eu voltei pensando muito também nessa leitura, nessa escrita, na nossa escrita, em uma escrita que nem nós entendemos, não é?

RB – Guimarães Rosa é, muitas vezes, maneirista. Foi o Guimarães Rosa maneirista que interessou você ou foi o inventor?

RF – Foi o inventor, definitivamente, foi o inventor. Ele criou um universo, goste ou não, com as palavras, com tudo de um universo que só existe na cabeça dele… Eu vou sempre direto lá no sertão, lá no sertãozão de Montes Claros, e passo pela trilha do Guimarães Rosa, que tem um cenário, e ele pegou esse cenário e criou um universo que era dele, mas o que me pega é onde eu traço Guimarães com moda. Ele criou um universo onde não existe limite entre o erudito e o popular, tudo é uma coisa só, e é o que eu acho mais interessante. Aí depois eu me senti preparado para falar da China propriamente dita, que foi pegar e colocar os chineses comendo na mesa, no caso, a passarela. Enquanto a moda está passando, nem interessa a moda, a moda não faz sentido algum, para os operários ali não faz sentido algum o que eles produzem. Não interessa a eles o que eles estão produzindo, se é roupa, se é brinquedo, se é comida, não interessa, então, ali eles comiam, e a coleção passava, e a moda passava. E falar em vazio, você não sabe o que é o vazio para um estilista depois que uma coleção é lançada, né? Porque imediatamente eu já tenho que inventar outra para driblar a morte. Porque é um vazio, é um oco, aquilo sai, aquilo vai cair no vazio, aquilo vai virar cobertura da “Elle” do SPFW, sabe?

RB – A questão da China, o Oriente passou a ser muito importante, no século 19, 20, para o Ocidente. Já era antes, mas ele foi cada vez mais tomando um lugar central.

RF – Tem um livro que é delicioso, que é A China no Brasil, que tem toda essa história da influência chinesa até em questões surpreendentes, por exemplo, a expressão “um cheiro”, do nordestino. Isso veio da China, veio com os portugueses que já tinham passado por Macau, porque na China não se beija, se cheira. Outra coisa, a chuva de arroz nos noivos no final do casamento é algo também que veio da China. Eu vou falar das vísceras da China moderna, da história do urinol e outras coisas, ou eu vou falar da coisa exuberante de uma cultura milenar, daquela história…
Gente, o pé de lótus, de flor de lótus de ouro que o imperador deu para a mulher, aí ela teve que enfaixar o pé para andar no meio desse jardim. E virou moda o pé enfaixado. Então eu cheguei a um ponto que eu falei “não”! Eu quero falar de uma China moderna, é a China do urinol e disso também.

RB – É a China das vísceras.

RF – É a China do liquidificador, entendeu? É a China que joga tudo no mesmo lugar. Eu tenho um material que tem o último desfile na íntegra e o resumo de todos os desfiles. É de uma tribo da divisa da China com o Vietnã, de tranças, que eles não cortam jamais e vão enrolando na cabeça e aquilo vai grudando, só que nós colocamos no meio das tranças um copinho, no qual, na volta, na entrada das modelos, nós colocamos gelo seco, então, daquela tradição toda saiu fumaça, porque muita gente falou assim: “São as torres das indústrias?”. Sim, são as torres das indústrias. “É a tradição se queimando?” É, é a tradição se queimando. Tudo no mesmo lugar.

RB – Falou do belga, falou do Chalayan… O que é substantivo para um artista da moda? O que é um artista da moda e o que é um estilista? Qual é o ato crítico da moda? O que é adjetivo? E o que é substantivo?

RF – Olha, a moda não sobrevive sem esses dois extremos. Moda é adjetivo e moda é substantivo. O substantivo é esse desejo enlouquecedor de driblar a morte. De manter a juventude eterna, de tapar o buraco, né? Isso é o substantivo. O adjetivo é tudo isso que nós falamos. Olha, eu quero parecer mais magro, eu quero parecer agressivo, eu quero ser moderno, eu quero estar no futuro, eu não quero saber de nostalgia nessa estação, ou não, eu preciso ir lá atrás, né? Então esse é o aspecto adjetivo. O substantivo eu diria que é a essência, para que existe moda? Para que se faz moda? Para que se vive na moda? Por que a moda nunca vai ter fim? É que ela está ligada a isso, à tampa do buraco.

RB – Mas o que é a tampa do buraco?

RF – É eternizar através da escolha da roupa. Eternizar o cabelo que eu tenho hoje. Eternizar a imagem da Kate Moss. A Kate Moss vai eternizar um tempo. Twiggy eternizou um tempo. Mick Jagger, naquele tempo, eternizou aquele tempo.

Mick Jagger por Andy Warhol, 1975.

RB – A coleção tem alguma correlação com a estrutura da justaposição dos caracteres chineses. Você falou que fotografou placas de carro, que fotografou sinais… Eu queria dizer, a língua deles é diferente. Por exemplo, o ideograma japonês é diferente dos caracteres chineses, mas todos ali, mais ou menos, trabalham muito com justaposição e colagem, quer dizer, eles não têm essa subordinação gramatical que nós temos: Eu sou Ronaldo Fraga, que moro em Minas Gerais, ok? Lá é: Ronaldo Fraga – Minas. Essa ideia da linguagem dos caracteres chineses passou pela sua cabeça, essa síntese, essa coisa direta, quase figura?

RF – Eu recebi, alguém me mandou… Porque eu tenho um grupo de amigos, que quando eu começo a pesquisar uma coleção, nós sentamos para discutir a coleção. Eu apresento a coleção e eles me enviaram um texto do Lacan falando justamente sobre isso. E eu preferi não ler, eu falei assim, “eu vou ler depois da coleção”. Eu não queria perder ou me esquecer do susto e da dor do soco na boca do estômago. Ponto.

RB – Então você se identificou com essa precisão de linguagem da China.

RF – Sem dúvida, sem dúvida. Teve uma jornalista que escreveu, olha, se é para fazer uma crítica, a crítica a essa coleção é que ela tinha informação demais. Ela era rica demais. A modelagem, eu nunca fiz uma coleção com tão poucos moldes. Eu desenvolvi, se eu desenvolvi dez moldes, foi muito. Só que a forma como se usa, a aplicação do tecido e a interferência da estampa e, sobretudo a estampa, o registro gráfico aí, foi uma coisa de pirar, isso transformava a roupa a cada entrada, então, cada look de uma coleção, por exemplo, uma crítica de moda, ela olha e fala assim: o desfile teve edição, teve coerência, teve unidade, ou não. Fala-se muito dessa história da unidade. Essa coleção não tinha unidade nenhuma. Não era para ter unidade, cada um que entrava, cada roupa que entrava, ela era única e era diferente e era idêntica.

RB – Ronaldo é o único poeta da moda no Brasil… Não, agora eu estou falando com a minha autoridade…

RF – Muito obrigado…

Twiggy

 

 

Entrevista feita em 2006