José Agrippino de Paula

Com a morte de José Agrippino de Paula em 2007, a retomada crítica de sua obra favorece não apenas a contextualização de procedimentos que situam todo um trabalho narrativo na galáxia estético-cultural dos anos 1960, mas aponta para desdobramentos que se tornam nodais, nucleares, da realidade literária no mapa transdisciplinar dos primeiros anos do século XXI. Inicialmente, se percebe o vínculo entre escrita e cinema – em uma apreensão imediata dos elos traçados pelo autor, claramente colhidos no espaço da produção fílmica (de modo mais explícito em seu segundo romance, a epopeia PanAmérica). Mostram-se nítidos os dimensionamentos da criação de literatura em sincronia com as esferas culturais da técnica, típicos da conjuntura pós-nuclear e da concentração das sociedades ocidentais na espetacularidade midiática das diferentes formas de poder. Já nos primeiros anos da década de 1960, fica evidente a confrontação da escrita com a crescente ascensão do capitalismo global, capaz de refigurá-lo como sistema de informação (do modo como formula Friedrich Kittler), no eixo da dinâmica do consumo e da segmentação produtiva de bens simbólicos.

Curioso é notar o paralelo possível de se estabelecer com outros criadores de narrativa em toda a extensão de nosso continente, tais como Manuel Puig, na Argentina, Cabrera Infante, em Cuba, e os norte-americanos William S. Burroughs e Thomas Pynchon. Estes autores incorporam as mutações técnicas e culturais que fazem do espaço literário, mapeado por Blanchot até a primeira metade do século XX, como peças exponenciais de O livro por vir. Observa-se, a partir dessa época, um campo conceptivo e conexional de proporções complexamente alargadas, potencialmente equipadas para abranger tudo o que contradiria a ideia de propriedade, de arte encerrada em uma forma unitária, situando-se no extremo e mais completo avesso – através de mediações, corporações massivas de imagem e texto.

Tal dado conjuntural por um lado lança a produção literária a enfrentamentos que redirecionam o modo de conceber e recepcionar o livro em frente às órbitas empresariais, industriais, das chamadas atividades culturais. Mas, em outra via, a escrita passa a se modular por contágios e configurações, capaz de torná-la um projeto possível, potente, à altura dos constructos tecnocientíficos que há muito regem a ideia de criação, mesmo no interior da arte, até certa época entendida em estrato de elevação e assepsia. Blanchot, em “Para onde vai a literatura?”, texto final de O livro por vir, não ficava sem se indagar sobre embates cada vez mais presentificados, ao mesmo tempo em que esboçava o desenho de uma cena inquietantemente atual – tal como se lê de Mallarmé, tão presente nas páginas do pensador francês, ao imprescindível Mark Z. Danielewski, de House of Leaves (2000), narrativa paginada pelas tecnologias da imagem e pela antimetafísica da ausência do livro. Se tomada por dentro, a descentralização do livro estabelece no seio de uma cultura técnica, apropriadora, relativizadora da leitura e dos modos de autoria/circulação, uma outra noção de obra, dotada de uma techné perquiridora e experimental, nada contrária ao critério de investigação e inventividade que permeia todos os planos do mondo tecno em vigência.

Em um primeiro momento, a chancela de um pensamento pós-moderno facultaria a autores como José Agrippino de Paula – sem que se esqueçam os outros há pouco citados – o desbravamento de fronteiras artísticas e disciplinares, atribuídos a muitos deles como uma visível etiqueta, mais precisamente no que se refere aos narradores de The Naked Lunch e The Crying of Lot 49. Na América Latina, tal categorização referenda apenas um critério de época quando da análise de Cabrera Infante, Puig e De Paula. Mantém-se, entretanto, no que se pode observar acerca desses cinco produtores de narrativa, a radicação de projetos especulativos e, mais que isso, performativos em torno de linguagem, imagem, em conexões ainda possantes no plano cultural, não de todo recepcionadas, depois de passados certos booms, sejam aqueles da explosão pop (nítida em José Agrippino), da latino-americanidade literária, da cyberculture (nos moldes de um culto no qual Burroughs entronizou um arsenal de atitudes datadas apenas no que se refere a seus acólitos) e da indeterminação, assim como da generalização, post-modern.

Reside, certamente, no traço de finitude e descontinuidade contido duplamente – mas não linearmente – no prefixo disseminado em todos os saberes, artes e domínios da cultura, o que há de mais interessante, importante, a ser retido no nosso presente neomilenar, indisposto, desbordado depois (do pós-moderno).

A presença hoje de atitudes criadoras envolvendo a conjunção de multiplicidades dos focos narrativos/planos conceptuais, assim como as simultaneidades (operadas ao modo de uma incursão cognitiva por parte de Burroughs no momento em que constrói relatos de ficção) são mostradas de modo flagrante em um livro como Lugar público. Bem comprova a sintonia com uma acepção expandida do texto de literatura, um autor como Puig, que sabia surpreender no memorial aparentemente provinciano das pequenas vidas um enredamento irrefutável pelo cinema, pelo culto à imagem, como se lê em A traição de Rita Hayworth. Aliás, Alan Pauls, um ficcionista atual, igualmente argentino, voltado à questão imagética, vem sendo roteirizado (caso de El pasado) e realizando roteiros (como por exemplo Vidas privadas, do popstar portenho Fito Páez), em sincronia com inquietações próximas de Puig, bem visíveis no trabalho crítico que lhe dedicou, revelador do quanto memória e rosto cinematográfico constroem um intercâmbio estético provocador. [1] Quando não é o caso de se absorver a extensão de um panorama-travelling – para dizer com Deleuze – das figuras e efígies da sociedade cubana pré-castrista, em Três tristes tigres, um romance concebido com a polifonia do espetáculo, timbrado por um crítico de cinema em atividade paralela à escrita novelística, caso de Cabrera Infante.

Inventariar os elos desses autores com as artes da imagem – as pictóricas, gráficas, as fílmicas –, assim como aquelas que trabalham com o ato teatral, a performance – marcante sobretudo em José Agrippino e Burroughs –, só redundaria uma informação que faz trilha em nossa época por outros veios. Mais do que o aspecto eminentemente artístico que interliga os escritores em pauta, com a marca de um grande apelo à nossa contemporaneidade, ocorre um modo de corte, de montagem, e, mais que isso, de modulação do repertório estético (com sua forte extração intersemiótica), a ser examinado mais detidamente em torno do autor brasileiro. Pois aí se mostra a escrita dotada de um potencial perquiridor, performático mesmo, que se nutre de formulações exteriores a qualquer princípio regulador, referendador, proveniente de um simples englobamento cultural – com tudo o que possa haver de entronização da técnica, da exaltação midiática e da exibição contingencial do mais novo estatuto do fim da arte (ou de sua finalidade tão somente instrumental).

Lugar público

Lançado em 1965, Lugar público, o primeiro dos dois únicos romances publicados por José Agrippino de Paula, vem sendo relegado ao esquecimento, obscurecido talvez pela luz pop e espetacular de da epopeia PanAmérica (1967), o título pelo qual o autor é saudado como um experimentador à parte, na literatura brasileira, e um exemplo singular do ethos político-cultural dos 1960. “Sombrio” é, por sinal, o termo empregado por Caetano Veloso, quando se refere ao livro de estreia do escritor, no prefácio da terceira edição de PanAmérica, em 2001. No entanto, mais de quarenta anos após sua primeira edição, o outro título de José Agrippino, seu livro “obscuro”, revela traços precursores, intrigantemente atuais, que nada ficam a dever à saga multimediática de PanAmérica.

A contar de seu relançamento tardio há cinco anos, Lugar público produz uma espécie de contraponto ao livro que consagrou seu autor, pelo fato de investir nas sombras, nos recônditos do espaço urbano, apontando para a deambulação de personagens colhidos na multidão, em vez dos ícones do cinema e da cultura, como ocorria na hiperficção de PanAmérica. É como se, publicado antes, mas lido somente depois de 44 anos e do reconhecimento de José Agrippino pela crítica e pelo público, o romance só apresentasse agora sua real dimensão.

Passível de ser identificado com o objetivismo, o antipsicologismo do nouveau roman – esta é uma referência importante, de época, destacada por Carlos Heitor Cony, na “orelha” integrante da primeira edição do livro –, Lugar público contraria qualquer delimitação. Cony chega a assinalar a dificuldade em inserir o romance em uma tendência estética mais rígida, quando cogita a possibilidade de lê-lo, também, sob o prisma do Sursis, de Sartre, e das narrativas de Henry Miller. Na verdade, o livro de estreia de José Agrippino imprime a confluência de variadas vertentes do pensamento e da literatura na sua formação como escritor, no início dos anos 1960. Mas o autor trabalha tais referências, projetando-as em um plano ficcional elaboradamente fragmentário, de modo a tornar acirrada a consciência que os personagens têm do tempo e do lugar público a eles reservados, assim como a impossibilidade de escaparem à deriva, ao desnorteamento em relação a qualquer meta, a qualquer contorno psicológico ou funcional. Daí, a adoção da caminhada incessante de um grupo de jovens “desocupados” por uma grande cidade como eixo básico das ações transcorridas no romance.

Composto de blocos narrativos que reúnem e dispersam os caminhantes, sob uma dinâmica combinatória de parágrafos com as extensões mais diferentes, seja pela forma de fluxos, seja, muitas vezes, pela brevidade de uma anotação, Lugar público cria ligações inesperadas, rompidas com a lógica consecutiva-causal, entre uma e outra sequência. Em contraposição ao viés fenomenológico subsistente no novo romance francês, a narrativa intensifica a descrição, a dissecação de sujeitos/objetos, formulando-as como olhar em deslocamento (ocorre uma espécie de radicalização das possibilidades experimentais do roman du regard, buscadas sobretudo por Robbe-Grillet). Deslocamento dos objetos e dos observadores, poderia dizer Jean-Paul Faye, segundo o sentido de uma justaposição sempre móvel e aleatória dos blocos que se superpõem, inter-relacionando diversos focos do lugar público e de seus habitantes.

Lugar público radica-se na rua, na multidão, marcando assim sua peculiariedade. Não se trata, simplesmente, da abordagem romanesca do homem urbano. De Paula opera, dentro de uma sensibilidade mais contemporânea, uma modulação narrativa em blocos, de modo a apreender o espaço da cidade como texto e como arte, como ambiência topológica das novas formações de sentido e de existência. Como que performando a cidade e o público – as aglomerações, os grupos, constituídos não apenas pelos personagens deambulantes, nomeados, parodicamente, como réstias de figuras históricas e clássicas da cultura, tais como Napoleão, Pio XII, Péricles, Bismarck, mas por todos os anônimos, disseminados na coletividade –, o escritor realiza passagens entre núcleos autônomos de ações, concebidos como blocos de imagens.

São notáveis, em Lugar público, as presenças do cinema (não se pode esquecer que é o realizador de Hitler Terceiro Mundo, de 1968) e das artes plásticas/gráficas/performáticas (seus atos e ritos teatrais constituem um universo a ser pesquisado) como elementos essenciais ao modo narrativo do autor, desdobrados, de modo mais explícito e, também, mais explosivo em PanAmérica. Entretanto, o romance não pode ser situado tão somente como gênese da obra mais conhecida do autor. Os eventos populosos, os megaespetáculos incorporados à teia composta por história em quadrinhos, cinema industrial e epopeia traçada em PanAmérica já se anunciam no livro de estreia de José Agrippino – que é, também, um panorama, com endereços e menções culturais reconhecíveis do tempo em que foi produzido –, para possibilitar um trânsito pouco mapeado pelo presente, pelo cotidiano das cidades.

 

Ele caminha pelas ruas do século XX e tinge os prédios, as casas, os viadutos, os aeroportos de verde ou uma cor que indique o nascimento de algo. Um novo dia, um novo instante, um novo mundo. [2]

É no sentido de trânsito, de passagem, de urgência mesmo que personagens nada modelares (eternos estudantes, errantes tentados pelo suicídio, desesperados por companhia e por solidão) se propagam nas páginas desse livro tomado pela forma de uma serialização descontínua, de um não encadeamento voluntário entre-imagens, como Raymond Bellour concebe a intervenção videográfica no universo visual. O texto mostra que não esgotou sua margem de estranheza e errância com respeito a uma possível filiação ou ao pertencimento a qualquer lugar legível no tempo. Reestabelece, contudo, a via obscura pela qual pode ser apreendida uma parcela significativa, ainda producente, da história e da cultura a partir dos primeiros anos da década de 1960.

Lugar público se oferece ao leitor de hoje como uma experiência que repercutiu, de forma pouco visível – na margem, na sombra –, no que de mais criativo a literatura brasileira tem produzido desde então. Sérgio Sant’Anna, admirador declarado da escrita de José Agrippino, fez de Confissões de Ralfo: uma autobiografia imaginária, livro-chave dos anos 1970, uma outra épica satelizada e estilhaçada – estilhaços da cultura, bem definiu Evelina Hoisel, grande estudiosa de PanAmérica. Mas Sant’Anna reteve, também, os blocos de imagens construídos em Lugar público como matrizes de muitos de seus experimentos – simulacros e cerimônias do narrativo. O mesmo pode ser dito acerca da escrita de caminhada desenvolvida por João Gilberto Noll e, também, das proliferações discursivas e das nomeações coletivas dos corpos em Sexo, de André Sant’Anna.

Presença subterrânea, tal como a de seu autor, nos percursos atuais das artes e das culturas urbanas, Lugar público encontra solo apenas tardiamente, apenas na atualidade, para ter configuradas sua força e sua urgência como literatura investigativa, inventiva (algo raro na narrativa nacional de agora). Sua (re)leitura mais que necessária se presentifica, já em outro século, como o rastro de uma estonteante novidade.

Multidão e tempo

A partir do reencontro – via reedição (Papagaio, 2004) – com a primeira narrativa de José Agrippino, mostra-se importante agudizar, justamente, esse traço tardio, sinalizado por posterioridade e pela finitude, próprio de um livro muito frequente nos sebos, especialmente naqueles da cidade do Rio de Janeiro, nos anos 1970 e 1980, quando o autor ainda não havia encontrado seu público leitor entre os aficionados de imagens e documentos culturais.

A partir daí é que se pode formular uma genealogia dos livros perdidos, aparentemente ocultados pela cultura high-tech, especialmente esses que envolvem literatura e imagem. Romances desaparecidos, filmes não feitos, tais como Os filmes da minha vida, do chileno Alberto Fuguet, escritor que se situa em outro tempo, em outro momento da escrita, do cinema, do longo e subterrâneo trânsito da história das imagens – ou da história como imagem –, desde sua espetacularização coletiva nas salas de cinema até o carater privê dos home theaters.

Depois do vínculo comparativista passível de se formar entre De Paula e os demais latino-americanos, como Puig e Cabrera Infante, ainda na órbita da cinematografia e da experiência pública das salas de exibição, curioso se mostra o elo passível de se desdobrar entre o romancista brasileiro e autores atuais de narrativa, como o já citado Fuguet e o brasileiro André Sant’Anna. Um cotejo com a apropriação feita por Agrippino em PanAmérica dos ícones de Hollywood nos amplos espaços das vias públicas estabelece um instigante contraponto às notas, às cadernetas de cinema reunidas pelo narrador de Fuguet. Nele, o dado do memorial afetivo centrado em torno da família, por meio do qual se desenha a historicidade do período militarista e do exílio latino-americanos, ganha maior contorno de projeção na mescla que se produz com as anotações sobre filmes majoritariamente hollywoodianos. Presencia-se em Os filmes da minha vida tudo o que diz respeito à cinefilia propiciada pelo VHS e pela tela televisiva, formatos definidores de uma angulação voltada para a domesticidade, para a estratégia de recuo e reconfiguração da vida privada, em compasso com a observação das mudanças e imobilismos da História.

Quando se lê Sexo, de André Sant’anna, o nome de José Agrippino de Paula retorna por meio do referendamento constante do jovem autor ao dado desbravador de sua novelística – uma reverência, uma referência, herdadas, sem dúvida, do pai, Sérgio Sant’anna, sempre consciente do timbre deixado por PanAmérica no perfil de sua produção. É o que se captura através do dimensionamento cinemático de um romance pontuado por uma coletividade de personagens, apreendidos no mais das vezes em lugares públicos, ainda que busquem e vivam de sexo. A graça e a potência do livro Sexo se encontram, aliás, nas polarizações criativas entre o público e o privado, de modo a disseminar um encontro paradoxal com o que se pensa pelo avesso da sexualidade manifestada, sempre com um adereço socioeconômico muito vivaz, típico de um autor que sobrevive da publicidade e dos dados estatísticos, com os quais se elaboram segmentações, perfis, gostos dos diferentes públicos.

Sant’anna realiza uma interessante recepção ao potencial contemporâneo de José Agrippino para fora de um revestimento pop, muito evidente em Roberto Drummond, que o levou ao ponto da saturação e da estagnação. O autor de Sexo como que combina as marcas espetaculares e tipificantes dos atores de Hollywood, extraídos de PanAmérica, com os perfis/estereótipos do público, dos homens e das mulheres da multidão, dando a eles uma espécie de alegorização, próxima do ready-made, que refaz o pop para fora de uma moldura reprodutora, sem que se conserve a data de vencimento de um estilo bastante reconhecível. Em outra vertente, Lugar público se mostra atuante no romance de Sant’anna exatamente pela escolha do foco multitudinal, assim como através do jogo cerrado entre o privado e a via coletiva, capaz de baralhar as fronteiras e as divisórias entre o fora e o dentro (entre o que se pensa e o que se vive do sexo ou o que se vive e o que se pensa quando o sexo acontece, sem ser mais pensamento, nem ideia de vida).

A contar da ópera urbana e sexualizada produzida pela narrativa de Sant’anna, tomada pelos picos das formas do falso e do pastiche no atrito máximo entre os corpos e as modelações sociais, a presença subterrânea, tardia, posteriorizada, de José Agrippino de Paula melhor expõe sua radicação nos debates contemporâneos que abarcam os campos da arte, da cultura, da tecnologia, do ambiente e da história de agora. Vem da radicalidade de uma escolha pela arte – a arte e suas forças – a principal configuração legada pela novelística de De Paula, como se pode notar na era pós-nuclear apreendida em seus textos, como uma forma de contrapolo no momento em que a massificação e a crescente expansão do capital já ganhavam contornos de sociedade tecnoglobalizada, próprios do consumo e do espetáculo. No momento desse novo milênio em que já nos adaptamos, inteiramente plugados à mediação maquínica no segundo mesmo em que povoações em migração e redefinição territorial refazem o mapa geopolítico do planeta, a leitura crescente do escritor paulista se encaminha para a explosão inventiva em que seus dois romances gravitam. Em suas narrativas, tudo se dá em uma ênfase extremada de linguagem em torno dos polos da multidão, da simultaneidade e da modulação maquínica de uma nova cartografia de escrito, imagem e corpos coletivos em ação.

Pensa-se agora em uma épica urgente, desformatada do emolduramento pop, pós-moderno, cybertrônico, com que até então foi abordada a breve e espiralante arte narrativa do autor. À leitura de Lugar público já se pode evidenciar a expansão planetária de um trânsito entre o mundo da imagem ou das imagens de mundo (como formula também Bellour em Entre-Imagens) e a corporalidade da multidão contemporânea. Em lugar do achatamento globalizante, aplainador das forças, desenha-se no romance de 1965 o que bem captou o filósofo grego Kostas Axelos como a poeticidade do mundo – a poiesis da sociedade tecnificada, pós-dialética, desprovida de unilaterismos, propiciadora de embates e encontros integrais com o corpo da coletividade. Um esposar das diferentes forças do mundo é o que se enuncia, e se anuncia não apenas como massa, mas como multidão, na diretriz dos pensadores da autonomia política contemporânea, caso do brasileiro Pal Pelbart, do norte-americano Michael Hardt e dos italianos Antonio Negri, Paolo Virno e Giorgio Angamben.

A leitura crescente, acrescida, de Lugar público hoje se mostra plena da modulação dos corpos movida por tecnologia móbile e pelo ingresso nos lugares ainda não mapeados dos espaços públicos, urbanos, potenciais de outros enlaces e fronteiras, típicos de uma sociedade nomádica. Escrita e caminhada, já se podia ler em uma vertente vinda de Rousseau-Baudelaire-Rimbaud, atualizada desde o final do século XX em diferentes autores e artistas como Janet Cardiff, Sophie Calle, os cineastas Abbas Kiarostami e o jovem mineiro Tiago Mata Machado. Como viver e ambientar a cultura global?

Como manter a literatura e suas forças pela dinâmica do desaparecimento do livro e da ausência da obra, tão bem pontuada por Blanchot em seus ensaios? Para onde vai a literatura? Perguntas como estas são feitas no instante presente, em dupla via, nada linear, nada presa aos dualismos ideológicos e às palavras de ordem (os lugares-comuns) contra os quais Lugar público, sob uma orientação intuída de vida comum e comunidade, travou caminho até aqui. Ainda agora.

Na contraface de PanAmérica, com sua ressonância épico-paródica da espetacularidade, Lugar público pulsa como o livro da dispersão, do anonimato e das simultaneidades em tempos ultramediáticos. Em tempo real.

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Notas:

[1] Alan Pauls, La traición de Rita Hayworth, 1986.
[2] José Agrippino de Paula, Lugar público, 1965, p. 173.

Referências bibliográficas:

BELLOUR, Raymond. Entre-Imagens: foto, cinema, vídeo. Trad. Luciana A. Penna. São Paulo: Papirus, 1997.
BLANCHOT, Maurice. Le livre à venir. Paris: Gallimard, 1959.
FUGUET, Alberto. Os filmes da minha vida. Trad. Edmundo Barreiros. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
HOISEL, Evelina. Supercaos. Estilhaços da cultura em PanAmérica e Nações Unidas. Rio de Janeiro/Salvador: Civilização Brasileira/Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1980.
KITTLER, Friedrich A. Literature Media. Information Systems. Trad. John Johnston. Amsterdã: G+B Arts, 1997.
PAULA, José Agrippino de. Lugar público. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
PAULA, José Agrippino de. PanAmérica. Epopeia. Rio de Janeiro: Tridente, 1967.
PAULS, Alan. La traición de Rita Hayworth. Buenos Aires: Librería Hachette, 1986. (Biblioteca Crítica Hachette).
SANT’ANNA, André. Sexo. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.

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