Marinetti e o futurismo

Em 1893, vindo de um colégio de jesuítas de Alexandria (Egito), o jovem e abastado Filippo Tommaso Marinetti chega a Paris a fim de completar sua educação, imbuído de classicismo/catolicismo, oriundos de um ambiente onde existe a dominação dos colonizadores e a submissão da população árabe oprimida e desnutrida.

Se, por um lado, desenvolve-se nele como reação os germes de uma atitude ao mesmo tempo anticlerical (Le monoplan du pape, Paris, Sansot, 1912) e anticlássica (Manifesto da Fundação), pode-se entender também porque as ideias de Sorel e Nietzche, por outro lado, tenham encontrado um terreno tão fértil no futuro chefe do futurismo.

Conseguido em Paris o baccalauréat ès lettres, e obtido o grau de Doutor em Direito, com a tese La corona nel governo parlamentare, defendida em Gênova em 1899, satisfazia as vontades do pai e sentia-se, com isso, livre para orientar suas energias para o campo literário, o único que realmente o encantava.

Aliás, já no Egito havia percebido os sintomas desta vocação. As composições literárias eram seu forte e sua incansável atividade já havia surtido a publicação de Papyrus, uma revista literária.

Pode-se imaginar quão arrebatador e marcante tenha sido para o jovem “beduíno” o ambiente que encontra na Paris do auge da “Belle Époque”. Oscar Wilde acaba de publicar aí sua Salomé; Whitman circula, traduzido, nas bancas do Sena. É a grande estação da poesia francesa: Rimbaud, Verlaine, Laforgue, Moréas, Adam, Verhaeren, Mallarmé, figuram nas revistas mais lidas com obras que suscitam vivas polêmicas.

Ao conhecimento de uma eternidade imutável, em sua essência, surge Bergson opondo uma realidade criadora em movimento: Tout se tient. Os anarquistas dão início à fase mais violenta de sua contestação: bombas são lançadas no Parlamento. Ravachol é guilhotinado. Sebastian Faure dá conferências sobre “questões sociais” em um auditório repleto de poetas e estudantes.

Instaura-se o verso livre. O instinto leva Marinetti a conhecer pessoalmente Catulle Mendès e Gustave Kahn. A este dedica o poema “La conquête des étoilles”, e será Mendès que contribuirá para que ele ganhe o concurso dos Samedis Populaires (1899) e tenha seu poema “Les vieux marins” recitado por Sarah Bernhardt. Passa a publicar em diversas revistas e, mais assiduamente, na Anthologie: Révue de France et d’Italie. Ganha amigos e notoriedade. Paris adota-o.

O verso livre (“perene dinamismo do pensamento, desenrolar ininterrupto de sons e de images/stories”), o maquinismo (“a psicologia do progresso”) e a anarquia (Stirner mais do que Bakunin) – eis os três pilares sobre os quais se baseará Marinetti, mais tarde, para a edificação do Futurismo.

Agora, devidamente formado, divide-se entre França e Itália, procurando consolidar sua celebridade. Deste país, visita todas as principais cidades, recitando, grandiloquente, os poemas de Rimbaud, Hugo, Baudelaire, Verlaine e, particularmente, Mallarmé. Durante as tournées trava amizade com diversos escritores peninsulares. Resulta a criação, em Milão, onde passa a residir, de uma revista internacional: Poesia (1905), para cuja colaboração são convidadas as personalidades europeias em destaque.

Pouco antes, Marinetti havia publicado “La conquête des étoiles” (1902), poema antiteístico, ainda impregnado de simbolismo, e, no mesmo ano da fundação da revista, manifestando a atração que sobre ele sempre exerceu o teatro, Le roi Bombance, grotesca tragédia gastronômica antiparlamentarista, nos moldes de Gargantua e Pantagruel. Esta peça provoca violentas polêmicas na imprensa parisiense, pelas tacadas caricaturais de que são alvo os socialistas mais à vista, e já permite entrever o estilo do iminente “Manifesto del Futurismo”, publicado no Figaro de 20 de fevereiro de 1909. Com reboantes maiúsculas, ritmos cadenciados e preciosismos liberty, extremo obséquio à escola na qual se formou (o Simbolismo), Marinetti envolve os vistosos elementos do futurismo incipiente, o fetichismo da máquina, a glorificação das maciças descobertas tecnológico-científicas, que encobrem o advento de uma nova atitude espiritual, uma nova maneira de encarar o mundo, que McLuhan e os teóricos dos mass media haveriam de explicar, anos mais tarde.

 

Marinetti em seu automóvel

 

Indiscutivelmente, o futurismo italiano foi o primeiro grande movimento intelectual que serviu de modelo para numerosas escolas artísticas e literárias na Europa. “O acontecimento que marcou a fundação da arte moderna da Europa foi a publicação do manifesto futurista de Marinetti”[a();1], escreveu o comedido e austero Gottfried Benn. Modelo este válido não tanto pela originalidade de suas ideias (algumas já estavam no ar e circulavam pelos meios literários da época)[a();2], mas pela radical mudança de tom, pela substituição do raciocínio lógico e consequentemente por uma rica e movimentada fabulação, repleta de símbolos, alegorias e incitamento à ação. Implicações políticas à parte, o Futurismo, de 1909 até 1920, deixou traços inconfundíveis na estética do mundo moderno, que se configuraram mais tarde na Europa e até na América. Pound reconhece que o movimento literário londrino por ele inaugurado, com Joyce, Eliot e outros, não teria existido sem o Futurismo; Flora admite que a teoria das palavras em liberdade codifica toda a arte contemporânea, diz Aldo Santini num recente estudo.[a();3] O próprio futurismo político, que se cristaliza em 1915 e cujo manifesto liberal com fortes matizes anarquistas aparece só em 1918, poderá, quando analisado, ser taxado de tudo, menos de fascista e menos ainda de reacionário.

Mesmo o intervencionismo e o “militarismo” futurista (a guerra – única higiene do mundo), que se delineiam a partir de 1914, devem ser julgados no contexto da época em que a Itália pobre e “mumificada” procurava saídas para sua indústria nascente. Nisso, diz com acerto Benjamin Goriély, poder-se-ão encontrar semelhanças com ideias de Bakunin (aliás, várias vezes citado por Marinetti) contra o absolutismo germânico.

A adesão do Futurismo ao Fascismo e a apropriação por parte deste de slogans futuristas são fenômenos posteriores, que, de acordo com certas “revisões” atuais, se prendem à influência do que, dentro do movimento, passou a receber a denominação depreciativa (e parcial) de “marinettismo”, ou seja, seu aspecto mais regressivo, onde em grande parte a estética e a ideologia da máquina se encontram com a estética e a ideologia da guerra. Na verdade, a “ideologia” futurista não coincide inteiramente com a ideologia de Marinetti (de quem, mesmo assim, deveriam ser consideradas as várias fases)[a();4], apesar de ele ter sido seu principal promotor. No Bund futurista, as ideias circulavam livremente: as concepções dos artistas plásticos influem sobre as poéticas dos literatos; um Lucini, um Papini, um Palazzeschi, aderem ao movimento do qual hão de se afastar mais tarde, radicalmente, levados justamente por discordâncias de princípios.

Marinetti entende que para lançar um movimento, isto é, para vender um produto, é necessário dar-lhe um nome de efeito, necessariamente inventado, novo, e repeti-lo continuamente até a obsessão, evitando entrar em detalhes. E a estratégia agressiva de Marinetti presta-se ao fascismo. Mussolini saqueia a terminologia, a técnica do insulto, o estilo lapidar, a ênfase marinettiniana.[a();5]

Marinetti, também é verdade, sempre agiu como diplomata astuto. Mesmo depois do i Congresso dei Fasci (9 e 10 de outubro de 1919), do qual participou, e mesmo após sua prisão, juntamente com Mussolini, em Milão, que ele haverá de lembrar futuramente, não sem orgulho. Ou seja, em última análise, mesmo depois de sua reconhecida adesão ao Fascismo, ele continuará, separando a literatura da política, a acolher em seu movimento e a manter relações com escritores de vanguarda, especialmente estrangeiros, de outras concepções ideológicas e políticas. Assim se explicam, por exemplo, seus contatos com Maiakóvski e sua amizade por Herwarth Walden, na época diretor de Der Sturm e notório filo-soviético.

Os futuristas, diz Gramsci[a();6], “tornaram-se companheiros de estrada de Mussolini… como moleques que fugiram da escola, fizeram um pouco de bagunça e voltaram para casa…”. Não há dúvida, porém, que, em 1924, muitos deles, Marinetti inclusive, reaproximaram-se do Fascismo, aburguesados, desejosos de honrarias de penachos, perdendo definitivamente sua validade como figuras individuais.

A tantos anos de distância, tendo-se arquivado este seu ocaso sem luz, resta para o mundo inteiro o Futurismo como motor das vanguardas europeias e de renovação geral. E, mais do que os frutos imediatos, contam, num movimento, os efeitos que ele consegue deslanchar.

 

Velocidade do carro
Giacomo Balla

 


* Este texto foi apresentado, parcialmente, no seminário internacional “A aventura da modernidade”, organizado pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre, em 2008.

[i = 1; a();1]. Gottfried Benn, Problemi della lirica, Saggi, Milão, Garzanti, 1963, p. 217, Apud Luciano de Maria, “Marinetti, poesia e ideólogo”, in: F. T. Marinetti: Teorie e invenzione futuriste, Verona, Mondadori, 1968.

[a();2]. Cf. o Manifeste Naturiste (1897) de Saint-Georges de Bouhélier e Les sentiments unanimes et la poésie (1905) de Jules Romain.

[a();3]. In: L’Europeo, 9 dez. 1977: “Futurismo non fà più rima con fascismo”.

[a();4]. A personalidade de Marinetti é, naturalmente, muito mais complexa do que pode transparecer nos manifestos que assina, ou mesmo nos romances e poemas que compõe. Luciano de Maria, no já citado ensaio, insiste em salientar seu momento prometeico, seu impulso no sentido de “changer la vie”, que se tornará uma das principais preocupações do Surrealismo; e em não se deter, como fazem muitos, em seu “motorismo”, em sua adesão bruta e determinística à civilização mecânica.

[a();5]. L’Europeo, 9 dez. 1977.

[a();6]. Provavelmente referindo-se ao episódio de 1919.